HISTÓRIAS E LENDAS DE SANTOS -
OS IMIGRANTES
A colônia francesa (2)
Beth Capelache de Carvalho (texto). Equipe de A Tribuna (fotos)
Jean Luciano, um imigrante
Jean
Luciano, artista plástico de Santos, nascido na França. Um autêntico imigrante, daqueles que vêm para
tentar a sorte e adotam sem restrições o país que escolheram para morar. Até a opção pela arte foi feita no Brasil, e a escolha de uma expressão que
fosse bem pessoal, sua marca registrada, caiu sobre um tema brasileiro: as coisas do Nordeste.
Cangaceiros, rendeiras, jangadeiros, vaqueiros, sanfoneiros eram os personagens de seus quadros, que lhe
renderam prêmios em salões internacionais da França e da Espanha;
aqui, talvez por já ser considerado "santo de casa", não houve prêmios, embora o reconhecimento de seu trabalho seja unânime.
Jean Luciano, artista plástico
Chegou em 1960,
depois de servir na Marinha Francesa e passar três anos no mar. A imigração era uma forma de dar continuidade à aventura da vida, e foi decidida entre
três amigos, dos quais só ele ficou. A primeira impressão do Brasil foi a paisagem lindíssima que oferece a Baía da Guanabara para os que chegam de
navio ao Rio de Janeiro, onde permaneceu apenas por um mês - numa espécie de férias.
Para trabalhar, mesmo, só São Paulo - ou melhor, Santos, onde poderia ficar mais perto do mar. O primeiro
emprego foi como mergulhador, no porto, até que um acidente durante mergulhos perto do navio Araguari fez com que desistisse. Além disso, não
falava português tão bem como agora, e por isso foi enrolado algumas vezes. Resolveu então pôr em prática os conhecimentos de desenho adquiridos
na França, onde estudou artes e ofícios e aperfeiçoou-se com um professor da Escola de Belas Artes de Toulon.
Casou-se com uma italiana, naturalizada brasileira, e com ela chegou a fazer o vestibular para Direito em Mogi
das Cruzes. Os dois passaram, mas Jean preferiu continuar vivendo de sua arte. Isso só é possível, ele explica, porque diversificou seu trabalho,
fazendo também publicidade, retratos, desenhos arquitetônicos.
Jean Luciano trouxe da França um profundo conhecimento técnico e
artístico. Mas queria adquirir uma expressão pessoal, livre das influências européias, e que se traduzisse numa arte bem brasileira. E assim chegou aos
temas nordestinos, que foram a grande inspiração de seu trabalho durante alguns anos.
Depois, com a evolução natural da arte, procurou sintetizar seus desenhos, e concentrou-se na expressão das
mãos. Agora, mais voltado para a pintura, procura transpor seus desenhos a bico-de-pena para a tela. Gosta de pintar sozinho, compenetrado, procurando
afastar-se de figuras, cores e imagens que habitam o subconsciente.
Jean Luciano, o pintor francês de Santos, sente-se completamente integrado à Cidade. Mas não deixa de lembrar da
França, porque "nenhum imigrante esquece realmente o seu país". Acha melhor não ser daqui nem de lá, mas fazer
parte do mundo. mas é evidente a sua preocupação com o destino de Santos, principalmente diante do desenvolvimento industrial desenfreado.
Já deu sua contribuição às artes, com seu trabalho, e à cultura, durante os três anos (1975, 76 e 77) que
dirigiu a biblioteca da Aliança Francesa, sob a orientação de Geraldo Ferraz. Agora, procura lutar pela ecologia,
alertando as autoridades locais quanto à lentidão das providências oficiais. "Não sou contra o desenvolvimento, mas as restrições a tantos abusos devem
ser tomadas antes que os desastres aconteçam". Atualmente, Jean Luciano está trabalhando num painel para o consultório do cirurgião plástico Aparecido
Nascimento.
Maurice, o da cinemateca
Mas o francês mais famoso de Santos, que aliás já é
mais santista do que francês, sem dúvida é o parisiense Maurice Legeard (leia-se Clube de Cinema). Maurice deixou de ser um
imigrante comum, para transformar-se em figura típica da Cidade, e acabou virando personagem de comercial para TV - aquele sobre a agência santista do
Banespa.
A família Legeard chegou ao Brasil em 1932, no navio Siqueira Campos, do Lloyd Brasileiro, e logo seguiu
para São Paulo, onde já morava uma tia de Maurice. Em plena revolução paulista, "era tiro pra todo lado", ele lembra.
Para o menino de oito anos, a primeira impressão do Brasil foi colhida ainda em alto-mar: é que na
França, como em outros países da Europa, as crianças são tratadas com certa rigidez e não se misturam com os
adultos; a bordo do Siqueira Campos, território brasileiro, não se praticava essa discriminação. Fazer as refeições com os adultos e correr no
meio deles até altas horas da noite foi a primeira excentricidade brasileira que ele experimentou.
Maurice, incentivador do cinema
Durante
a infância, em Santos, Maurice continuou desfrutando plenamente dessa liberdade. "Cresci como moleque, na rua, caminhando a pé pela Cidade inteira". A
rampa do Mercado, o Bairro Chinês, o Morro da Nova Cintra eram os
pontos preferidos da molecagem. Além dos passeios nos carroções de café, que faziam ponto na Praça dos Andradas, onde havia um
bebedouro para cavalos.
Entre as dificuldades de adaptação, ele cita primeiro o clima. A Santos de sua infância tinha, freqüentemente, quinze
dias seguidos de noroeste [N.E: assim chamados o vento quente procedente dessa direção, do continente para o mar, e o clima
calorento daí resultante], "um verdadeiro inferno para se dormir". No colégio, os erres de seu sotaque francês provocavam brincadeiras que o
deixavam encabulado. Maurice não sossegou antes de perdê-los e hoje fala um português sem sotaque e cheio de gírias, embora conserve a boa pronúncia da
língua francesa.
Incorporado pelo cinema - Mas a vida de Maurice Legeard foi mesmo incorporada pelo cinema, como
ele mesmo define. Tudo começou quando trabalhava como secretário da Aliança Francesa, e foi procurado por um grupo
interessado em formar um clube de cinema. Então, junto com Rubens de Almeida, Carlos Alberto Barros Ferreira, Roldão e Zilá Mendes Rosa, Nélson e
Armando Sá, Nei Guimarães, Demar Peres e outros, ele criou o clube, que a princípio se reunia numa loja da Rua João Pessoa.
Mais tarde, como era funcionário do Expresso Luxo, e tinha facilidade de ir a São Paulo, Maurice ficou
encarregado de ir buscar os filmes. Acabou fazendo conhecimentos no meio e acostumou-se às tardes passadas em São Paulo, percorrendo livrarias, atrás de
livros sobre cinema em francês, espanhol ou italiano. Varava noites lendo sobre o assunto, apaixonadamente.
Em 1954, participou de um festival de cinema promovido em São Paulo, e nunca mais afastou-se do meio. Quanto
mais conhecia de cinema, mais queria aprender. No clube, a freqüência variava, exceto Maurice, sempre entusiasmado.
Antes do clube, em Santos não eram apresentados filmes de vanguarda, porque não eram entendidos. Com o clube, os
principais filmes de vanguarda passaram a ser vistos e depois debatidos. E não havia monopólio: eram produções alemãs, italianas ou francesas, na mesma
proporção que as americanas.
"A melhor fase do clube? Todas, até 64". Maurice acha que o público, antes do AI-5, era melhor. "Todo mundo
perguntava o porquê das coisas; havia uma enorme curiosidade. O espectador brasileiro estava no mesmo nível do europeu. Hoje, esse interesse caiu muito.
Parece que as pessoas se acostumaram a raciocinar pouco, e os cérebros ficaram preguiçosos".
Por isso, a programação da Cinemateca procura ligar o passado ao presente. "Os filmes antigos são os que causam
maior retorno, porque o público, ou é novo demais, ou saudosista. Há pouco tempo trouxemos O Encouraçado Potemkin, Ivan o Terrível (duas
partes), Boulevard do Crime e A Bela e a Fera, filmes antigos que fizeram sucesso. Para os mais velhos, foi o retorno a um passado
perdido; para os mais novos, a descoberta de um cinema ainda melhor que o de hoje".
Assim, meio saudosista ("era bom o tempo do Grêmio Bleu, Blanc, Rouge que promovia até festas juninas"), sempre
mergulhado nas ondas do cinema, o francês Maurice Legeard é uma figura incorporada pela Cidade. Para renovar suas atividades, Maurice criou a
Cinemateca de Santos, a terceira do Brasil, que funciona por enquanto nos moldes do clube de cinema. Instalada na Casa da Cultura do Litoral (Cadeia
Velha), a Cinemateca está capacitada a fornecer informações sobre qualquer assunto ligado ao cinema, para estudantes e outros interessados.
Um francês preocupado com a autonomia de Santos, Maurice acha que a cultura só poderá progredir com a autonomia:
"Ela acabaria com os apadrinhamentos. Quem lida com cultura não se presta a essas coisas".
Veja a parte [1] desta matéria
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