Trecho do capítulo, na edição de 1938 da Biblioteca Pública Alberto Sousa
SEGUNDA PARTE - MEMORIAL E DECLARAÇÃO DAS
GRANDEZAS DA BAHIA
TÍTULO 3 — Da
enseada da Bahia, suas ilhas, recôncavos, ribeiros e engenhos
Capítulo XXV
Em que se declara o Rio de Seregipe, e terra dele à boca
do Paraguaçu.
Partindo com a terra de Tamarari começa a do engenho do conde de Linhares, a qual está muito metida para dentro fazendo uma maneira de enseada, a
que chamam Marapé, a qual vai correndo até a boca do Rio de Seregipe, e terá a grandura de duas léguas que estão povoadas de mui grossas fazendas.
Entra a maré por este Rio de Seregipe passante de três léguas, onde se mete uma ribeira que se diz Tareiri
[Traripe na reeedição de 1879], onde esteve já um engenho, que fez Antônio Dias Adorno, o qual se despovoou por lhe arrebentar um açude, que lhe custou muito a fazer, pelo que
está em mortuário; mas não estará assim muito tempo, por ser a terra muito boa e para se meter nela muito cabedal.
Descendo por este esteiro abaixo, légua e meia sobre a mão direita, está situado o afamado engenho de Mem de Sá, que agora é do conde de Linhares,
seu genro, o qual está mui fabricado de casa forte e de purgar, com grande máquina de escravos e outras benfeitorias, com uma igreja de Nossa
Senhora da Piedade.
Desta banda do engenho até a barra do rio que podem ser duas léguas, não vive nenhum morador; por ser necessária a terra para o meneio do engenho,
e por ter perto da barra uma ribeira, onde se pode fazer outro engenho muito bom; mas, da outra banda do rio, de cima até abaixo, está tudo povoado
de muitas fazendas, com mui formosos canaviais, entre os quais está uma, que foi de Gonçalo Anes, que se meteu frade de São Bento, onde os frades
têm feito uma igreja do mesmo santo com seu recolhimento, onde dizem missa aos vizinhos.
Na boca deste rio, fora da barra dele, está uma ilha que chamam Cajaíba, que será de uma légua de comprido e meia de largo, onde estão assentados
dez ou doze moradores, que nela têm bons canaviais e roças de mantimentos, a qual é do conde de Linhares.
Junto dessa ilha está outra, pequena, despovoada, de muito boa terra. E, bem chegado à terra firme, no cabo do rio da banda do engenho, está outra
ilha, de meia légua em quadro, por entre a qual e a terra firme escassamente pode passar um barco, a qual também, com as duas atrás, são do conde de
Linhares.
Da boca deste Rio de Seregipe, virando ao sair dela sobre a mão direita, vai fazendo a terra grandes enseadas, em espaço de quatro léguas, até
onde chamam o Acum, por ter o mesmo nome uma ribeira que ali se vem meter no salgado, na qual se podem fazer dois engenhos, os quais não estão
feitos por ser esta terra do engenho do conde de Linhares e não a querer vender nem aforar, pelo que vivem poucos moradores nela, onde o conde tem
um formoso curral de vacas.
Do cabo desta terra do conde à boca do Rio Paraguaçu são três ou quatro léguas, despovoadas de fazendas, por a terra ser fraca e não servir para
mais que para criação de vacas, onde estão alguns currais delas. Esta terra foi dada a Brás Fragoso de sesmaria e pelo Rio de Paraguaçu acima quatro
léguas; a qual se vendeu a Francisco de Araújo, que agora a possui com algumas fazendas que nela fez, onde a terra é boa, que é pelo rio acima. |