Morar em barracos feitos de caixotes e papelão nos diques...
Foto: José Dias Herrera, publicada com a matéria
Baixada concentra cinturão de miséria e expande riscos do cólera
... e sobreviver nos lixões, uma realidade que aproxima a Baixada Santista do
cólera
Foto: José Dias Herrera, publicada com a matéria
CÓLERA
Omissão das autoridades agrava propagação de moléstia
A expansão territorial das favelas e o surgimento de
outros núcleos totalmente desestruturados e sem condições de vida digna em toda Baixada Santista é, sem, sombra de dúvida, um convite ao vibrião do
cólera.
O risco de uma epidemia não está afastado, pois não bastam os serviços de orientação
das prefeituras através de palestras, distribuição de folhetos e outros paliativos. Os esforços dos setores de Saúde de alguns municípios têm sido
relevantes, mas não bastam para afastar este perigo, que demonstra o processo retroativo em que o país imergiu.
Distribuir folhetos explicando como prevenir-se, tomando apenas leite fervido, água
filtrada ou fervida, lavar sempre as mãos depois do uso do banheiro, para quem mora em cima do mangue, nos diques e nos lixões, onde não há
banheiro, leite, nem filtro, é o mesmo que dizer: o brasileiro vai muito bem, obrigado.
É pior que tentar tapar o sol com uma peneira, pois só se consegue acentuar a
discrepância social e a miserabilidade em que vive parcela das mais significativas da população.
Claro que deve haver a orientação, o trabalho de prevenção. Mas o momento exige
medidas concretas, enérgicas, por parte das administrações, que se devem unir para pressionar os Governos do Estado e Federal. Afinal, os cinturões
de miséria que proliferam nos municípios não são responsabilidade apenas da base (município) da União, mas, principalmente, dela própria.
São Vicente - Com uma população de cerca de 140 mil favelados vivendo em áreas
favoráveis ao desenvolvimento do vibrião colérico, São Vicente é um exemplo. Ocupando uma área de 146 quilômetros quadrados, a cidade possui apenas
cerca de 20% da área urbana dotada de rede coletora de esgoto. Sem saneamento, sem saúde, desprovido de infra-estrutura, o município pode se tornar
presa fácil do vibrião do cólera. Mas o perigo não está restrito a este município, e sim a todos os demais que formam a região da Baixada Santista e
Litoral.
A situação vicentina é tão caótica que fez com que a Prefeitura finalmente saísse da
inércia, criando uma Comissão Municipal de Prevenção e Combate ao Cólera.
Essa comissão providenciará farta documentação, principalmente com fotos mostrando a
situação dos diques, mangues e lixões densamente povoados, além de áreas contaminadas por resíduos químicos, para ser entregue às autoridades da
área da Saúde Estadual e Federal. Esse trabalho deve ser urgente, pois o tempo "corre" e a doença não espera para atacar, principalmente quando
encontra locais ideais à sua proliferação.
Enquanto aguarda-se providências desses poderes, a prefeitura vicentina, bem como as
demais da região, precisavam parar com discursos e viabilizar saneamento. Nesse caso, qualquer endividamento será compreensível.
Morando em casebres construídos às margens ou sobre os diques, famílias inteiras
disputam espaço com animais e chegam, em muitas ocasiões, a utilizar a mesma água,
tornando-se presas fáceis do vibrião colérico
Foto: José Dias Herrera, publicada com a matéria
Imundície retrata o abandono
Santos não é só praias e os esforços da administração municipal em manter as condições
de balneabilidade das praias são relevantes, desde que não se esqueçam outros setores. Aqueles que não estão ao alcance dos olhares dos turistas,
mas que fazem parte do dia-a-dia da população.
Para os moradores do bairro do Saboó, a ampla campanha com
relação aos cuidados contra o vibrião do cólera pouco adianta se apenas as praias estão limpas, enquanto lagoas e córregos próximos às residências
continuam sujos e abandonados. Como exemplo, citam o antigo jardim da Avenida Martins Fontes, entre a unidade da Sabesp e Sancap Transportadora.
Nesse local, a praça ajardinada que tinha, como principais atrativos, uma cachoeira
artificial e lagos, encontra-se abandonada, servindo inclusive de ponto de encontro de desocupados, causando apreensão aos moradores, principalmente
às mulheres e crianças das proximidades.
A "cachoeira" não funciona mais, os lagos estão cheios de sujeira, a antiga área de
lazer tem sido procurada apenas por pessoas que, sem local para morar ou banhar-se, dormem nos bancos, nas beiras dos lagos, onde a água suja também
serve para que tomem banho e lavem suas roupas. Em meio à sujeira, há quem tente pescar algum peixe, como carás e outras espécies pequenas,
atualmente muito raras no local.
Medo - Os moradores do Saboó que precisam passar pela praça temem ser
assaltados, além do medo de possível contaminação de alguma doença em virtude da presença de ratos, mosquitos e larvas naquele local.
Sônia da Cunha dos Santos, moradora na Rua Athiê Jorge Coury, 8, ap. 38, reclama:
"Está faltando limpeza na praça, tem muito mato e desocupados que terminam afastando as famílias do local que, antes, era uma área de lazer".
Ana Lúcia S. da Silva protesta contra a presença de estranhos dia e noite no local. "A
praça virou depósito de lixo. A Prefeitura abandonou-a completamente. Todo dia a gente passa por aqui e tem que conviver com a falta de zelo do
poder público e o perigo de ser assaltada ou ter que ouvir expressões pornográficas dos homens que ficam aqui deitados".
A presença de ratos, mosquitos e sujeira, segundo Edilson Alves, residente na Rua
Cananéia, 398, é uma preocupação. "Serve de palco para mostrar a miséria e o esquecimento do setor de manutenção e limpeza da Prefeitura. Com tanta
doença por aí e principalmente cólera, aquela água na praça é uma ameaça".
Para Roberto Gonçalves, está faltando um projeto para a pracinha. "Aqui deveria ter
uma cabine de informação turística, o retorno da cascata artificial e muita limpeza, porque esta é a entrada da cidade. Se aqui está assim, imagine
o resto".
Outrora, área de lazer, a pracinha, hoje abandonada, oferece uma série de riscos aos
que passam pelo local e realça o lado sujo da cidade
Foto: Alan, publicada com a matéria
Doença é fatal
Não se trata de alarmismo, mas os números do Ministério da Saúde são assustadores: o
total de vítimas do cólera vem crescendo numa escala geométrica. Apesar da informação de que a doença já atingiu mais de 3 mil pessoas, com muitos
óbitos, sabe-se que esses números não representam com exatidão a realidade do cólera no Brasil.
Pior que isso é saber que o Ministério da Saúde não tem previsões sobre a evolução da
doença. A Organização Mundial da Saúde, por sua vez, tem um prognóstico muito triste com relação ao cólera no País. Esse órgão estima que, nos
próximos três anos, cerca de 30 milhões de brasileiros serão contaminados e 10% dessas pessoas desenvolverão a doença. Isso significa milhares de
mortes.
Os departamentos de Saúde dos municípios têm procurado levar o maior número de
informação à comunidade, em virtude das precárias condições de vida de grande parte da população. Algumas empresas como a Rhodia também têm
desenvolvido campanhas não apenas junto aos funcionários, mas encaminhando informativo à população.
Os professores têm papel importante nessa cruzada contra o cólera - que mais
representa, nesse momento, inoperância do poder, diante da forma brutal com que a doença está tomando conta do País.
Como a disseminação da doença está intimamente ligada às condições de saneamento
básico, ela deverá, apesar do trabalho de prevenção, permanecer no Brasil fazendo muitas vítimas. Causado pelo bacilo Vibrium cholerae, o
cólera é transmitido principalmente através da água e dos alimentos contaminados.
De acordo com o histórico, a doença chegou ao Brasil em abril do ano passado
(N.E.: 1991), vinda do Peru. Naquele mês foi registrado o primeiro caso entre os habitantes do
Amazonas, estado que ainda concentra maior número de vítimas.
Depois espalhou-se para outros estados, tanto do Nordeste quanto de outras regiões
brasileiras, chegando a São Paulo e Rio de Janeiro, que são considerados os Estados mais bem servidos de rede de esgoto e água tratada, apesar dos
cinturões de miséria existentes em várias áreas. |