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CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - LYDIA
Lydia Federici (4 - crônica 393)

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Em mais de três décadas de atuação diária, Lydia Federici publicou milhares de crônicas no jornal santista A Tribuna. A Hemeroteca Pública Municipal de Santos criou um Espaço Lydia Federici, onde estão expostos desde sua máquina de escrever até os troféus desportivos, bem como os organizados álbuns de recortes reunindo todos os seus textos publicados. Esta crônica foi publicada em 20 de abril de 1963 em A Tribuna (ortografia atualizada nesta transcrição):
 
 
GENTE E COISAS DA CIDADE

Uma fotografia

Lydia Federici

No primeiro andar do aeroporto de Congonhas há um espaço, no canto de uma sala, reservado para uma fotografia. O espaço livre é grande. Porque enorme é a foto. Acontece, apenas, que essa macroscópica ampliação ainda não foi instalada. A razão é simples. O primeiro andar da estação aviatória tem freqüência reduzida. Não é como o térreo. Cruzado e recruzado, dia e noite, por milhares de viajantes. Que chegam ou partem. E por milhares de despedintes. Ou simples curiosos.

Por esse motivo, a foto continua quase escondida. Sem cumprir sua missão. A missão de revelar beleza. Por Deus. Isso é pecado. Como seria pecado, por exemplo, esconder a Mona Lisa. Camuflar a Bíblia. Não tocar qualquer das sinfonias de Beethoven.

Essa fotografia não é criação de arte. De arte humana. Embra mostre muio do gênio, do trabalho genial do homem. Ela é, acima de tudo, uma cópia visível da beleza que Deus criou. E é incrível o que, entre ela e nós, se passa. Como explicar? É estática. Nela nada se mexe. No entanto, ela caminha para nós. E nos acaricia a alma. As nuvens nos acolchoam as batidas frenéticas do coração. Cobrem o horizonte amplo. Embora ampliada em branco e preto, o mar se revela de um azul profundo. E, a partir desse mergulho tranqüilo no azul, sentimos levantar-se, fresco, o verde das montanhas. O dourado luminoso das praias nos aquece. Como a música das ondas brancas, não sei por que estranho milagre, também vem cantar-nos no ouvido.

Vivemos à beira do mar. Corremos a praia de ponta a ponta. Vemos sempre as montanhas que nos abraçam. Nuvens são companheiras nossas de cada dia. Conhecemos, de doze em doze horas, o calor e a luz com que o sol nos presenteia. Mês após mês. Ano atrás de ano. Julgamos, portanto, nada mais haver de belo e de bom que nos possa surpreender. Maravilhar.

No entanto, uma simples fotografia, tirada bem do alto, mostrando-nos uma visão competa do pedaço de chão que julgamos conhecer, prova-os a quantidade e a profundidade de beleza que desconhecemos. Todos os semicírculos de praias, de São Vicente ao Guarujá, ali formam um colar branco. A planura do mar começa lá fora. Em alto mar. Termina no bordado das ondas junto à areia. Ou nas rochas dos montes. Depois da planície levemente eriçada pelo telhado do casario, pelos terraços dos arranha-céus, há um mundo de mata. Recortada por riachos tortuosos. A mata sobe pelas montanhas distantes da Serra. E a Serra, muito ao longe, mergulha nas nuvens. Que pairam num céu sem fim.

Não. Esse conjunto é sonho. É imagem de Deus. De que outra forma podemos explicar nossa alma ajoelhada diante de uma simples fotografia? Nossas mãos postas em maravilhada oração? Oração de encantamento? De gratidão?

Vá, fotografia! Corra mundo nos corações dos que virem tanta beleza. Beleza de mar e de mata. De areia e de céu. De trabalho humano, também. Mas, principalmente, mostre ao mundo como é bom ter isto tudo. Ajudando-nos a viver em poesia.


Imagem: reprodução do álbum de recortes de Lydia Federici, no acervo da Hemeroteca Municipal

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