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CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - LYDIA
Lydia Federici (4 - crônica 391)

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Em mais de três décadas de atuação diária, Lydia Federici publicou milhares de crônicas no jornal santista A Tribuna. A Hemeroteca Pública Municipal de Santos criou um Espaço Lydia Federici, onde estão expostos desde sua máquina de escrever até os troféus desportivos, bem como os organizados álbuns de recortes reunindo todos os seus textos publicados. Esta crônica foi publicada em 18 de abril de 1963 em A Tribuna (ortografia atualizada nesta transcrição):
 
 
GENTE E COISAS DA CIDADE

Economia forçada

Lydia Federici

Se há coisa que brasileiro desconhece, é essa tal de economia. Influência da terra, talvez. Terra moça. Pródiga. Farta. Ou jeito de ser. Imprevidente. Vivendo o dia de hoje. Sem pensar no amanhã. Ou, então, questão de fé. Fé na providência divina. Confiança no bom coração do vizinho. Do amigo.

Seja lá por que razão for, o caso é que brasileiro pode ir com tudo. Menos com essa tal de economia. Ganhou? Gastou. Não ganhou? Ganhará. Ganharápara pagar o que, da mesma forma, não eixou de gastar.

O interessante é que, de ano para ano, cada vez mais gente se queixa de miséria. De vida difícil. De dureza. E viração. Queixa-se o miserável. Coça a cabeça a classe média. Lamuria-se o ricaço. No entanto, as latas de lixo continuam mostrando paneladas de arroz. Pães inteiros. Belos nacos de carne. É só vir um bom filme, qualquer cinema pega a sua fila. Tecelagens granfinas, lojas populares, estão sempre regurgitantes. De gente que regateia. Solta exclamações saídas do fundo da alma. Mas que, ao sair, leva sempre mais um embrulho. Apertado, com satisfação, contra o peito magro.

O dinheiro está curto. Na verdade, curto é o tempo que ele fica em qualquer bolsa. Seja ela decorada a ouro. Ou uma simples carteira de plástico. Ou mesmo uma ponta de lenço. Não é para comprar coisas necessárias que ele voa. É para bobageiras absolutamente inúteis. Desperdício puro.

Parece, porém, que algo principia a mudar. É um indício quase impalpável. Mas que significa o início de uma mudança no modo de pensar de nossa gente. Veja este exemplo, amigo. É uma fato isolado. Mas que revela algo de novo. Se não em relação ao homem, pelo menos quanto ao momento atual. Que é de crise, sim senhor.

Foi um dono de peixaria que me contou o caso. Quando perguntado sobre o movimento de venda do pescadona Semana Santa. Quantos quilos de peixe e camarão vendera? Mais que no ano passado?

“Vender, vendemos tudo. Só sobrou isso que está sobre o balcão”. Eram umas vinte pescadas. Não maiores que uma sardinha bem alimentada. “O resto foi tudo”. Nossa! Como sobra dinheiro no bolso dos crsitãos. Pelo preço a que estava tudo, ainda tiveram coragem de pagar uma fábula por um simples peixe sem pedigree especial? Essa gente toda está louca? Ou descobriu a maneira de fabricar notas de mil?

Tuzuki sorriu. Explicou-me o mistério. Neste ano, sua peixearia só recebera a metade do peixe vindo no ano anterior. “E, no ano passado, entrava, por exemplo, um freguês. Apontava para a divisão das tainhas. Escolhia três. Das maioers. Depois mandava embrulhar quatro quilos de camarão. Do médio. E do graúdo. Só na hora de pagar é que perguntava quanto era o total. Tirava as notas do bolso e “até logo. Obrigado“. Neste ano, entrava um comprador. Assuntava tudo. De tudo querendo saber o preço. Depois contava, pelos dedos, o número de pessoas da família. Cinco? Pois levava 5 pescadinhas”.

Será isso um mau sinal de crise? Ou um bom sinal de economia?


Imagem: reprodução do álbum de recortes de Lydia Federici, no acervo da Hemeroteca Municipal

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