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CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - LYDIA
Lydia Federici (4 - crônica 375)

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Clique na imagem para voltar ao índice desta seçãoEm mais de três décadas de atuação diária, Lydia Federici publicou milhares de crônicas no jornal santista A Tribuna. A Hemeroteca Pública Municipal de Santos criou um Espaço Lydia Federici, onde estão expostos desde sua máquina de escrever até os troféus desportivos, bem como os organizados álbuns de recortes reunindo todos os seus textos publicados. Esta crônica foi publicada em 29 de março de 1963 em A Tribuna (ortografia atualizada nesta transcrição):
 
GENTE E COISAS DA CIDADE

Educação

Lydia Federici

É difícil explicar o que seja. Essa tão famosa educação. Quase sempre silenciada quando aparece. Nunca perdoada quando deixa de funcionar.

No outro dia, por exemplo, uma garotinha morena acompanhava a mãe. Rumo à praia. Iam as duas, muito calmas, trocando uma outra frase. Dessas que sempre surgem entre mãe e filhos. Constituídas, em geral, por perguntas sem importância. "Se o sol faz bem, por que é melhor ir pela sombra?" Mas cujas respostas dão o que fazer. Os pais que o digam.

Ora muito bem. Caminhavam ambas rumo à praia. A empurrar, juntas, o carrinho em que sorria um nenê preguiçoso. De cabeça loura protegida por um tico de chapéu de palha. Tipo Nat King Cole. De repente, a garota esbarra na roda. Estaca. Procura equilibrar-se sobre uma das pernas. A outra está ligeiramente erguida. o pé, no ar, procurando encaixar a sandália japonesa.

Não fora um simples esbarrão. Sem consequências. No dedinho,uma gota de sangue aparece. A menina pousa, com jeito, o pé sobre o chão. Inclina-se para examinar o ferimento. A boca franzida. Os olhos arregalados.

"Espera um pouco, mãezinha. Acho que me machuquei. Ali, no dedinho pequeno". Enquanto a moça se abaixa para ver o que acontecera, a garota, do bolso do short, tira um lenço. Encosta-o, de leve, sobre a mancha vermelha.

"Não foi nada. Só um aranhão. Vamos até a farmácia por um 'Band-aid'". Não há pânico na voz da moça. Nem susto nem recriminação. Sua atitude calma e decidida, sem afobação, seu sorriso de confiança, fazem a criança encarar com naturalidade a pequena gota rubra.

Há uma boa pernada até a farmácia mais próxima. Mas como a marcha continua em direção da praia,não há desvios. Nem atraso. Chegados ao local, mãe, filha e carrinho chiante, a primeira pede, maciamente, o 'Band-aid'. A garota, com o lencinho ainda na mão, olha para o pé. Já não sangra. Do corte insignificante escore, porém, uma aguinha branca. Inclinando-se, a menina procura um canto limpo do retângulo verde. E, com toda a delicadeza, aperta-o, de leve, contra o ferimento.

Quanto à moça, rasgado o invólucro, tem pronto o curativo, a menina morena, firmando-se na haste do carrinho, tira a sandália e levanta o pé. Pra que? Se tinha mais firmeza com ele sobre o chão? Ora. Era que assim sua mãe não precisava de se curvar tanto.

"Pronto. Já podemos ir pra praia. Está tudo em ordem".

"Obrigada, mãezinha. Nem doeu nada", diz a menina com os olhos novamente a brilhar. Pousando a mão no ferro frio, encostados os dedos pequenos nos dedos quentes e protetores da moça, lá vão os três, mãe, filha e nenê preguiçoso, para a praia ensolarada. Sentindo, com certeza, na alma, o mesmo calor bom do sol.

***

Educação, amigos, é isso. Nasce em casa. De exemplos. Mais que de palavras. E tem muito de coração. Muito mais que de cabeça.


Imagem: reprodução do álbum de recortes de Lydia Federici, no acervo da Hemeroteca Municipal

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