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CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - LYDIA
Lydia Federici (4 - crônica 361)

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Clique na imagem para voltar ao índice desta seçãoEm mais de três décadas de atuação diária, Lydia Federici publicou milhares de crônicas no jornal santista A Tribuna. A Hemeroteca Pública Municipal de Santos criou um Espaço Lydia Federici, onde estão expostos desde sua máquina de escrever até os troféus desportivos, bem como os organizados álbuns de recortes reunindo todos os seus textos publicados. Esta crônica foi publicada em 13 de março de 1963 em A Tribuna (ortografia atualizada nesta transcrição):
 
GENTE E COISAS DA CIDADE

Paciência

Lydia Federici

"Paciente como Job". É o que dizemos. O que diz o mundo todo. O que diz o mundo todo. Ao expressar o símbolo da paciência humana. Mas isso está errado. Job pode ter sido uma criatura resignada. Silenciosamente sofredora. A ponto de ser universalmente reconhecido como símbolo da mais rara, talvez, das virtudes humanas. A paciência. Mas esse exemplo de aceitação, de cordura, por Deus que foi superado. E por todo um povo. um imenso povo.

Vejam-me isto.

Caros como estão os estudos, nãohá pai ou mãe que, podendo comprar um lápis por cinco cruzeiros apenas, não se sujeite a uma longa caminhada até tal ou qual loja, para economizar a diferença. Sabem como é. Cinco daqui, mais dez dali, quarenta nisto, mais noventa naquilo, perfazem, no fim de um ano, uma bela e gorda quantia.

Ora. O Ministério da Educação e Cultura, entre dicionários, pequenos tratados, está distribuindo uns cadernos bem aceitáveis por um preço de antiga banana. Em números: 25 cruzeiros. Por brochuras de 90 ou 100 ou mais cruzeiros.

Acontece que quem vai à escola precisa de cadernos. Não de um. Mas de toda uma pequena coleção. Vai daí a sofreguidão com que os cadernos do MEC são procurados. Pudera. Pelo preço. Não era para ser?

É. Mas a alegria acaba aí. Porque para se conseguir chegar até eles, haja paciência. Boa vontade. E boa saúde. Explico-lhes a razão. O material do MEC é distribuído, aqui, pela Prefeitura. Um grande serviço, aliás, que o governo municipal presta a seu povo. Mas, infelizmente, nessa venda tudo está errado.

Suponhamos, amiga, que você queira comprar, para seus três filhos, os cadernos que constam das compridas listas que eles, orgulhosos, trouxeram da escola. Por uma vizinha, você já sabe que a venda foi transferida para o ex-prédio do Banco do Brasil. E que ela só funciona dentro do expediente interno da Prefeitura. Isto é, do meio dia até as seis. Pouco mais ou menos. Ao meio dia você está na Rua XV. Atônita, vê uma longa fila. Que será? É a fila dos cadernos. Mas como? É isso mesmo. Desde as nove horas já tem gente garantindo o seu lugar.

E se você for a 165ª da fila nem adianta ficar. Só são vendidos mil cadernos por dia. Não importa? Você se arrisca a ficar? Pois então fique. Com sorte pode dar certo. Inclusive você escapar, sem sentir-se mal, daquele escaldante sol que abrasa a longa fila paciente. Porque a fila não vira para a Riachuelo? Onde há sombra? Não pode. Há ordem para ficar ao sol da Rua XV. Quem deu ordem? Ninguém. Mas ela existe.

A venda so principia depois da meia hora da tarde. Há um só funcionário que atende. Separando material, fazendo contas, recebendo, entregando.

"Vinte cadernos? Só posso vender seis para cada pessoa".

É isso mesmo, amiga. Quem mandou ter três filhos? Vive nesta terra? O governo já faz muito em vender barato. Está com pressa? Quer o que quer? Vá procurar uma livraria.

Ah! Job. Você some perto deste povo. Isto é que é paciência.


Imagem: reprodução do álbum de recortes de Lydia Federici, no acervo da Hemeroteca Municipal

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