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CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - LYDIA
Lydia Federici (4 - crônica 341)

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Clique na imagem para voltar ao índice desta seçãoEm mais de três décadas de atuação diária, Lydia Federici publicou milhares de crônicas no jornal santista A Tribuna. A Hemeroteca Pública Municipal de Santos criou um Espaço Lydia Federici, onde estão expostos desde sua máquina de escrever até os troféus desportivos, bem como os organizados álbuns de recortes reunindo todos os seus textos publicados. Esta crônica foi publicada em 16 de fevereiro de 1963 em A Tribuna (ortografia atualizada nesta transcrição):
 
GENTE E COISAS DA CIDADE

A última novidade

Lydia Federici

Ignoro se, para você, amiga, será novidade. Para ela, era. E, por ser o último lançamento de que ouvira falar, mais do que lógico que não resistiu. Tinha que comprá-las. Combinou com uma amiga também novidadeira. comentaram a beleza que seria. E a compra ficou resolvida. A partir desse dia, ambas passaram a debruçar-se sobre o noticiário santista. Ou mais precisamente sobre o movimento do porto de Santos. Ah! Esquecia-me de contar que elas não são daqui. A não ser em curtas temporadas. Seu pouso mais demorado é em São Paulo.

Assim que descobriram que o 'Federico C' aportaria na manhãzinha de um dia qualquer, arrumaram as grandes bolsas. Cujo principal conteúdo, desnecessário é dizê-lo, era um porta-notas bem estufado. Bem turistas, muito alegres, desceram a serra. Na véspera, note bem. Para não terem que correr à toa. Pararam na cidade. Na Alfândega, tiraram a licença para entrar a bordo. Poderiam, na hora, entender-se com um fiscal. Mas nunca o fariam. Que elas não são dessas. Gostam de fazer as coisas às direitas. Como manda a lei.

No dia seguinte, quando o navio apareceu, bonito, muito branco, por traz da Ilha das Palmas, elas, saltitantes, verificaram se as licenças estavam nas bolsas. Se os porta-notas, recheados, continuavam nos seus lugares. Depois de um último olhar ao espelho, fecharam o registro do gás. Trancaram a porta do apartamento. Dez minutos depois, rodavam, num DKW roncador, rumo ao cais.

Tiveram que esperar um bom tempo pelo aparecimento do navio. enquanto ele. com muito jeito, procurava encostar-se ao paredão cinzento, embasbacaram-se a olhá-lo. Maravilharam-se com a beleza que a ilusão sempre empresta a qualquer coisa, grande ou pequena, que navegue sobre o mar. E, finalmente, com os pés doloridos, içaram-se, coração a bater forte, escaler acima.

Meteram-se, alvoroçadas, pelos corredores. Por lá é que deveriam encontrar os camaroteiros. Principalmente o que lhes interessava. O Guidi. Baixinho, loiro. Seria difícil localizá-lo? Encontraram-no logo.

Encontraram-no e aí é que começou o pedaço difícil. Elas eram de São Paulo. Mas não sabiam falar italiano. Com as mãos funcionando para cima e para baixo, inventando palavras em espanhol e em francês, conseguiram com que o rapaz as entendesse. Queriam meias. Meias de senhoras. Longas. Não de seda. Nem de nylon. Queriam a última novidade italiana. Meias de alumínio.

O rapaz mandou-as esperar numa cabina vazia. Sumiu e reapareceu. Dos bolsos das calças, de dentro da jaqueta, tirou quatro pares de meias. Todas iguais. Tamanho 10? Muito grandes. Elas tinham os pés pequenos. Queriam números menores. Menores? Impossível! Ele só tinha número 10.

Claro que elas as compraram. Não era a última novidade? como poderiam não comprá-las?

Usam-nas, com muito orgulho, de ponta dobrada. Que importância tem?


Imagem: reprodução do álbum de recortes de Lydia Federici, no acervo da Hemeroteca Municipal

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