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CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - LYDIA
Lydia Federici (4 - crônica 294)

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Clique na imagem para voltar ao índice desta seçãoEm mais de três décadas de atuação diária, Lydia Federici publicou milhares de crônicas no jornal santista A Tribuna. A Hemeroteca Pública Municipal de Santos criou um Espaço Lydia Federici, onde estão expostos desde sua máquina de escrever até os troféus desportivos, bem como os organizados álbuns de recortes reunindo todos os seus textos publicados. Esta crônica foi publicada em 19 de dezembro de 1962 em A Tribuna (ortografia atualizada nesta transcrição):
 
GENTE E COISAS DA CIDADE

Um nome

Lydia Federici

Festa de formatura é coisa solene. Pode ser simples. Uma reunião para entrega de diplomas apenas. Mas é festividade carregada de emoção. Porque representa o coroamento de uma fase de luta. Muitas vezes dura. Quase impossível de ser levada a cabo. Mas que o foi.

Aquela festa era simples. Uma das muitas que se repetem a cada fim de ano. Realizava-se no ginásio de um dos clubes da cidade. Que os diplomandos eram muitos. E muitos mais os familiares dos felizardos estudantes. No palco havia uma mesa. Florida. Mas não era para os pingos de ouro, a surgir das frescas folhas das avencas, que todos olhavam. Muito menos para as autoridades que já se tinham cerimoniosamente sentado atrás de todo aquele ouro. Os canudos brancos, quase três centenas, empilhados nas extremidades da mesa, é que dominavam e concentravam toda a alegria do ambiente.

Fazia calor na tarde. Um calor abafado que fazia os meninos se remexerem, irrequietos, em suas cadeiras. Um calor que, esquentando o capacete de laquê das meninas, lhes dava um ar estonteado. Nas arquibancadas, leques, folhas de papel dobrado e lenços procuravam, sem sucesso, dar impressão de frescura.

A festa começou. Muito em ordem. Com o Hino Nacional cantado pelas crianças. Ouvido, com religiosidade quase, por todos os que, agora imóveis e emocionados, pouco antes se remexiam e zuniam com impaciência. Terminada a nota final, silenciadas as palmas, a diretora inicia a chamada dos diplomandos. Diz o primeiro nome. Espera que o garoto, atrapalhado com as pernas, suba até o palco. Só depois da entrega do canudo branco é que ela chama o segundo. Há palmas. Apertos de mão. Dois olhos infantis que brilham muito felizes. Aqui e ali, na arquibancada, sempre um sorriso orgulhoso dos pais. Sorriso molhado por lágrimas. E mãos que não se cansam de aplaudir.

Na altura da décima diplomação, a diretora consulta o relógio. Enviesa um olhar para a pilha que não diminui. Sem hesitação, resolve apressar o ato. E principia a chamar dois, três, quatro, cinco e até seis nomes de cada vez. os entregadores de diplomas que se virem.

Meninos cruzam-se e recruzam-se pelo palco. As meninas giram e regiram os aventais engomados. As autoridades, levantando-se, entregando diplomas, apertando mãos, perguntam, em tom abafado, quem é José Roberto. Da Silva? Não. Rodrigues. Apesar da aparente confusão tudo vai bem. Os fotógrafos batem chapas. As crianças sorriem. Cada vez mais felizes. No meio do vai e vem, da alegria, das palmas, uma voz nervosa, mas nítida, se eleva.

"Maria Tereza"? Onde estaria a dona do diploma?

Aquele "Maria Tereza", cheio de ânsia, interrompe a diretora. Todos os da mesa, sem querer, se põem a rir. A menina bonita, sem compreender, recebe, meio encabulada, o seu diploma.

Não foi nada, não, Maria Tereza. nada com você. A culpa é do coronel Limoeiro. Que, àquele apelo, surgiu repentinamente no palco. À procura da sua Pitusquinha.

Ah! Chico Anísio. Triste sina têm as Marias Terezas. A culpa é sua.


Imagem: reprodução do álbum de recortes de Lydia Federici, no acervo da Hemeroteca Municipal

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