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CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - LYDIA
Lydia Federici (4 - crônica 288)

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Clique na imagem para voltar ao índice desta seçãoEm mais de três décadas de atuação diária, Lydia Federici publicou milhares de crônicas no jornal santista A Tribuna. A Hemeroteca Pública Municipal de Santos criou um Espaço Lydia Federici, onde estão expostos desde sua máquina de escrever até os troféus desportivos, bem como os organizados álbuns de recortes reunindo todos os seus textos publicados. Esta crônica foi publicada em 12 de dezembro de 1962 em A Tribuna (ortografia atualizada nesta transcrição):
 
GENTE E COISAS DA CIDADE

Pasteis e outras frituras

Lydia Federici

Acredito que, mais dia, menos dia, o comércio de meias se extinga. Creio também que, por mais modas italianas que inventem, chegará o dia do fechamento das chapelarias. E do desemprego das chapeleiras.

Mas há um comércio, existe uma profissão, que nunca terminarão. Não enquanto os homens tiverem um estômago. De bom tamanho. Incapaz de se satisfazer com um comprimido. Ou uma pílula. Como pretendem fazer. Dizendo que aquilo substitui as proteínas de um bom bife. A gordura gostosas de qualquer fritura. Uhm. Pois sim.

É por causa disso, devido à existência feliz de um estômago humano, que restaurantes, casas de lanches, padarias, churrascarias, garantem o comércio comestível. A profissão de mestres cucas. Casas que cozinha, que assam, que liquidificam, que espetam, que fritam alimentos, tem vida garantida. Como padeiros, cozinheiros, empregadinhos de balcão de bar, descascadores de batatas, condimentadores, misturadores, amassadores, sempre terão emprego garantido. Embora não tenham o famoso "Cordon Bleu", qualquer paçoca apetitosa que façam tem sempre boa aceitação. Porque há estômagos, servidos por olhos famélicos, que aceitam até pedra britada. Se ela vier com um bom molho de cebolas douradas.

Vai daí a proliferação do comércio de casas que servem nosso humaníssimo apetite alimentar.

Repararam como brotam, pela cidade, pastelarias e mais pastelarias?

Repararam como são movimentadas? Não há masseiro e fritador que deem conta do serviço. Há sempre mais bocas pedintes que pastéis prontos. Pudera. Pastel ainda é coisa barata. Loiros como são, agradam aos olhos. Quentes, mostrando, através da massa fina, o escuro do recheio, são de fazer água na boca. Não há quem resista. E como resistir se eles, inchados, brilhantes, crocantes ao pular da grande frigideira, são, de fato, gostosos?

Acontece uma coisa, porém. Muita gente que, delicadamente, os mordisca, torce os lábios. Com certo desagrado. Não que a massa não lhes agrade ao paladar. Lembram-se, apenas, dos pastéis da mamãe. Ou dos pasteizinhos que a esposa, a bufar, frita no fogão de casa. Aqueles sim, é que são pastéis. Com bastante recheio. Bem temperados. Ora. Quanto ao recheio, concordo. Mas na questão do tempero, não. Explico-lhes o porquê.

Pastéis de pastelaria, não de todas, mas de algumas das pastelarias da cidade, são muito bem temperados. Além do quê, têm, por dentro, a mão que os coloca nos pratos de alumínio, com todo o cuidado, dá-lhes o tempero final. Repare só. Você chega ao balcão. Pede dois de carne. Estende uma nota. O rapaz recolhe o dinheiro. Faz o troco. Com as mesmas mãos endinheiradas pega os dois pastéis pedidos. E estende-os a você. Em sã consciência, honestamente, você pode dizer que os seus pastéis estão sem tempero? Pois se até o sal do dinheiro eles têm, meu amigo.


Imagem: reprodução do álbum de recortes de Lydia Federici, no acervo da Hemeroteca Municipal

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