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CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - LYDIA
Lydia Federici (4 - crônica 244)

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Clique na imagem para voltar ao índice desta seçãoEm mais de três décadas de atuação diária, Lydia Federici publicou milhares de crônicas no jornal santista A Tribuna. A Hemeroteca Pública Municipal de Santos criou um Espaço Lydia Federici, onde estão expostos desde sua máquina de escrever até os troféus desportivos, bem como os organizados álbuns de recortes reunindo todos os seus textos publicados. Esta crônica foi publicada em 18 de outubro de 1962 em A Tribuna (ortografia atualizada nesta transcrição):
 
GENTE E COISAS DA CIDADE

O muro

Lydia Federici

Antes de ir à exposição eu pensava: "que haverá de novo? Já vimos documentários. Jornais e revistas fartam-se de publicar fotos. Conhecemos a história toda. Pra que rever, rememorar tudo isso?"

Acontece, porém, que a exposição está sendo realizada em Santos. Vista por milhares de olhos. Comentada, com tristeza, por centenas de bocas. Bocas que gaguejam a estupefação sentida por centenas de corações.

E então, resolvi ir. Para poder sentir, de uma vez só, agrupados num pequeno espaço, flagrantes da vida de um muro que divide uma cidade. Indo, pelo caminho, eu pensava: "Berlim está longe. Não conheço aquela cidade. Nem ninguém de seu povo. Sinto pena, sim. Mas não posso imaginar como seja aquela vida. Está tudo, felizmente, tão longe de nós!" E é assim mesmo. Exatamente assim que se manifesta o egoísmo da distância. Lamentamos o que sucede em Berlim. Mas isso, embora aflorando-nos o coração, não nos chega a doer na pele. Está longe. Muito longe.

E, de repente, ali, na esquina da João Pessoa com a Riachuelo, na antiga loja dos "quatro e quatrocentos", logo na entrada da exposição, surge um grande quadro com o mapa de Santos. No alto, uma reprodução fotográfica do trabalho do cais. E uma foto tranquila das praias tranquilas. Cais e praias. Trabalho vigoroso e rico. Lazer vagabundo. Ensolarado ou fluorescente. Livre. Nosso. Orgulhosamente nosso! Mas, ao lado, num painel branco, letras pretas traçam um muro. Um muro hipotético a dividir a nossa cidade. A separar-nos dos amigos. A limitar-nos os passos. A aprisionar-nos. A amarrar-nos. A prender-nos dentro de uma rua. Essa visão de um muro imaginário, local, assusta-nos. Indigna-nos. Revolta-nos. Faz-nos sofrer. Seria possível isso? Aqui? Conosco?

Sentindo, então, de perto, a limitação do muro, começamos a andar. E a ver fotografias. São fotos de Berlim. Com praças, ruas e casas de Berlim. De uma Berlim, entretanto, que já não está tão distante. Um velho, numa janela eriçada de arame farpado, não é um velho alemão desconhecido. É um velho que nos olha daqui mesmo. Tão de perto que nos emocionamos. E a criança loira que enfia a mãozinha por um buraco do muro, à procura sabe lá Deus de quem, é como uma de nossas crianças. E a noiva que, com um binóculo, procura, do outro lado, ver a mãe mandando-lhe um beijo, abençoando-a, é uma moça igual às noivas felizes que se casam no Embaré ou na Igreja de Nossa Senhora Aparecida. Só que estas têm a família toda, livre, rodeando-a. E a de lá...

Não. Não consegui ver o resto do muro. Isso bastou-me bem. Saí pelas ruas enlameadas da cidade. Andei por onde quis. Inclusive pelas pedras britadas da João Pessoa. Torcendo o pé. Estragando sapatos. Que importava? A rua é minha. Ando por onde quero. Falo, de tudo, com todos. Isso é liberdade. Liberdade como nunca senti.

Vá lá ver a exposição, minha amiga. Para saber o bom que ainda temos. O bem de que ainda podemos gozar. Vá lá ver. E pense no que viu!


Imagem: reprodução do álbum de recortes de Lydia Federici, no acervo da Hemeroteca Municipal

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