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CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - LYDIA
Lydia Federici (4 - crônica 234)

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Clique na imagem para voltar ao índice desta seçãoEm mais de três décadas de atuação diária, Lydia Federici publicou milhares de crônicas no jornal santista A Tribuna. A Hemeroteca Pública Municipal de Santos criou um Espaço Lydia Federici, onde estão expostos desde sua máquina de escrever até os troféus desportivos, bem como os organizados álbuns de recortes reunindo todos os seus textos publicados. Esta crônica foi publicada em 5 de outubro de 1962 em A Tribuna (ortografia atualizada nesta transcrição):
 
GENTE E COISAS DA CIDADE

E então?

Lydia Federici

Ela acordou sentindo um sobressalto alegre no coração. Assim com a gente acorda quando tem algo de especial para fazer. Estendeu os braços, espreguiçando-se. Passou as mãos sobre o rosto. Virou ligeiramente a cabeça, em direção à janela. E, com os olhos fechados, ficou ouvindo os barulhos que vinham da rua.

Muito de longe, chegou-lhe aos ouvidos o bimbalhar alegre de sinos. Ouviu, sorrindo, o ploc-ploc das patas do burrinho que levava, sobre o lombo, restos de comida que o dono encontrava nas latas de lixo. Saltos altos cantavam na sua calçada. E, de dentro de casa, meio abafado, chegava o tinir da cafeteira. Não sobre o fogão. Ainda na pia. Sob a torneira.

Poderia continuar na cama. Descansando um pouco mais. Até a hora em que sua irmã viesse chamá-la. Ajudá-la a vestir-se. A lavar-se. Apalpou as duas pernas paralíticas. Quando ficaria boa? Já fizera duas operações. Pouco tinham adiantado. Verdade que agora, calçando os aparelhos, já conseguia ficar de pé. Apoiada sobre as muletas. Era um progresso. Antes só vivia na cadeira de rodas.

Estava sentada na cama quando a irmã abriu, devagar, a porta do quarto. "Já estava acordada?", perguntou em voz baixa. A escuridão do quarto, no primeiro instante, não lhe permitiu ver a irmã semierguida na cama.

"Bom dia, mana. Descansou bem? Continua com a vontade de ir votar? Ou já desistiu?"

"Claro que vou. Pra que foi que consegui o título?", perguntou, num desafio.

Na hora de pôr o vestido, pediu o estampado. Aquele de cores alegres. Porque era um dia de festa. um dia de alegria. Iria votar pela primeira vez. E isso precisava de ser marcado com o seu vestido mais bonito!

"A que horas eles vêm me buscar?", perguntou ao terminar o último gole de café. Sacudia, da saia, as migalhas de pão.

"Quando você quiser ir, é só telefonar". Ligou para os amigos que tinham carro. "Em 10 minutos eles estão aqui. Quer ir para o terraço?" Levou-a para fora. Amparando, erguendo, carregando quase o corpo da irmã.

Meia hora depois, a moça, de muletas, estendeu o título, novo e perfeito, ao presidente da mesa. Recebeu a cédula única com os dedos a tremer. Ali, ela marcaria a sua voz muda de eleitora brasileira! Como calar-se se ela, apesar de inválida, adquirira o direito de manifestar-se?

Ampararam-na até a cabine. Sozinha, com lágrimas escorrendo-lhe dos olhos cegos, ela correu os dedos, com cuidado, sobre o papel todo pontilhado. Levou tempo para certificar-se se o nome era aquele. No quadrado correspondente, com orgulho, marcou uma cruz!

***

Meu amigo. Minha amiga. Se uma cega-paralítica, esquecendo contratempos, vota, como poderá você desprezar essa regalia? Esse direito?


Imagem: reprodução do álbum de recortes de Lydia Federici, no acervo da Hemeroteca Municipal

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