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CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - LYDIA
Lydia Federici (4 - crônica 157)

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Clique na imagem para voltar ao índice desta seçãoEm mais de três décadas de atuação diária, Lydia Federici publicou milhares de crônicas no jornal santista A Tribuna. A Hemeroteca Pública Municipal de Santos criou um Espaço Lydia Federici, onde estão expostos desde sua máquina de escrever até os troféus desportivos, bem como os organizados álbuns de recortes reunindo todos os seus textos publicados. Esta crônica foi publicada em 5 de julho de 1962 em A Tribuna (ortografia atualizada nesta transcrição):
 
GENTE E COISAS DA CIDADE

Vá, mãezinha

Lydia Federici

Está difícil a vida, eu sei. Todas as horas do dia não chegam para o que temos a fazer. Há uma estranha incongruência no progresso do mundo. Quanto mais coisas inventam para facilitar a nossa vida, mais trabalhamos. Menos horas de lazer encontramos pela frente.

Luta a dona de casa rica. Sobre a dona de casa pobre. Uma tem posses para pagar quem a sirva. Outra não tem tempo sequer para servir à própria família. É tintureiro a chamar. Por quem esperar. É roupa a lavar, a passar, a guardar. É cozinheira que falta. É almoço à hora certa para o marido. São crianças a chegar da praia ou do meio da rua. É a escolha do modelo para o vestido de baile. A luta com a costureira. Ou é o remédio nas calças de trabalho dos dois moleques mais velhos. É a ida ao médico. A fila nos ambulatórios do instituto. São as compras. As chiques ou as absolutamente indispensáveis.

Rica, milionária, remediada ou mendiga, não há dona de casa que não tenha o seu programa diário tomado do primeiro ao último minuto. Variará, quando muito, a espécie de compromisso.

No entanto, no entanto, neste fim de semana, nestes quatro dias que vão de hoje até domingo, uma hora livre tem que ser encontrada por todas as mães da Baixada Santista. Principalmente pelas que têm filhos cuja idade se compreende dos 3 meses aos 4 anos.

Vá, mãezinha. Vá a um dos postos de vacinação Sabin.
Mais vale comer feijão queimado, num dia, que engolir remorso e amargura pelo resto da vida.

Mais vale deixar os cabelos vermelhos por mais uma semana que vê-los branquearem de agonia.

Mais vale sacrificar uma matinê, tomando conta dos filhos da vizinha, que ver o caçulinha louro, desgraçadamente, mais tarde, arrastar a perna pela vida afora.

Mais vale deixar, por um dia, os outros filhos sem banho, que levar anos banhando uma pobre perninha fraca.

Mais vale largar, por uma hora, a quentura do lar, que sentir, depois, a qualquer febrezinha do Carlos, da Valéria ou do Sérgio, o calor infernal do remorso.

Sim, mãezinha. Sim, minha amiga. Sim, amigo meu.

Perdoem-me a insistência. Mas vale ser insistente, meter o bedelho, bancar a chata, como estou sendo, que, depois, arrepender-se por não ter feito o possível para que todas as nossas crianças recebam a "gota que salva".

Vá, mãezinha. Vá ao posto mais próximo de vacinação Sabin.

vá, mãezinha. Vá! Vá! VÁ!


Imagem: reprodução do álbum de recortes de Lydia Federici, no acervo da Hemeroteca Municipal

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