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CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - LYDIA
Lydia Federici (4 - crônica 124)

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Clique na imagem para voltar ao índice desta seçãoEm mais de três décadas de atuação diária, Lydia Federici publicou milhares de crônicas no jornal santista A Tribuna. A Hemeroteca Pública Municipal de Santos criou um Espaço Lydia Federici, onde estão expostos desde sua máquina de escrever até os troféus desportivos, bem como os organizados álbuns de recortes reunindo todos os seus textos publicados. Esta crônica foi publicada em 24 de maio de 1962 em A Tribuna (ortografia atualizada nesta transcrição):
 
GENTE E COISAS DA CIDADE

Casa de marimbondo

Lydia Federici

Mês de maio, para quem tem jardim, é mês de trabalho extra. A tesoura de poda entra em ação. Era o que ela fazia. Chapelão de palha na cabeça. Uma luva na mão direita. E a tesoura. Era um rapa dos bons. Pouca coisa sobrava. Só o que estava no lugar certo. De tamanho certo. O resto - e era quase tudo - caía. Jardim é jardim. Não é floresta.

Estava na metade da banqueta quando, de repente, ela viu a casa dos marimbondos. Dos amarelos, grandes. Já os conhecia. Ferroada daquilo era íngua. Garganta quase fechada. Coração disparando. Uma dor desesperada que lágrimas involuntárias saíam de esguicho.

O susto foi tão grande que ela ficou imóvel. Depois recuou devagar. De longe, respiração normalizada, pôs-se a coçar a nuca. Com luva e tudo. Teria que interromper o trabalho só por causa daqueles bichos? Absurdo.

Foi aí que ouviu as pancadas. Vindas dos fundos. Devia ser o vizinho a lidar com o machadão. Era lenho vivo, cheio de seiva, a sofrer. Que madeira seca tem outro som. Não geme assim tão doído. Foi até lá. Curiosar, papear, expor o seu problema.

"Marimbondo? Dos amarelos? Tá doido. Com esses a gente não brinca. Nem de longe". Mas ela era teimosa. E mulher, quando cisma, é o diabo. Encasquetara que havia de limpar toda a banqueta. "Como se pega marimbondo?"

Vero riu. Coçou o pescoço queimado, todo sujo de pó e lascas de grumixabeira. "Desses, eu pego de noite. Enfio a casa, com eles dormindo, dentro de um cartucho. Fecho a boca e jogo dentro do forno aceso. Em cinco minutos, não sobra um. Está tudo torrado. Mas de dia? Só queimando. Amarre um jornal numa vara. Taque fogo. Quando as labaredas estiverem bem altas, enfie por baixo da casa. As chamas queimam as asas dos marimbondos, eles caem e pronto. Se algum, por acaso, escapar, não se mexa. Prenda até a respiração. Eles não atacam uma coisa imóvel. Se você quiser experimentar".

Foi o que ela, morrendo de medo, fez. Arrumou uma vara, amarrou, numa ponta, uma dúzia de folhas de jornal. Ficou parecendo uma bola. Ateou-lhe fogo. Esperou as chamas crescerem. Olhou para a casa pendurada num galho e záz. Chegou-lhe o fogo. Os marimbondos pareciam flechas a voar para todas as direções. Inclusive na sua. O coração falhou uma batida. Seu estômago apertou. Com os lábios apertados soltou um gemido de pavor. Mas ficou firme, imóvel, sem respirar, sem iscar. Dura, com os olhos esgazeados, começou a perceber que os marimbondos respeitavam a estátua branca em que se havia convertido. Um minuto depois, livre do ar, começou a respirar.

Só que, naquele dia, não terminou a poda. A experiência gastara-lhe toda a energia. Fora uma prova muito dura. E eles, coitados, enquanto houve luz, ficaram por ali, procurando sua casa. Pra mim, essa é que foi a razão principal da interrupção do trabalho.


Imagem: reprodução do álbum de recortes de Lydia Federici, no acervo da Hemeroteca Municipal

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