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CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - LYDIA
Lydia Federici (4 - crônica 47)

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Clique na imagem para voltar ao índice desta seçãoEm mais de três décadas de atuação diária, Lydia Federici publicou milhares de crônicas no jornal santista A Tribuna. A Hemeroteca Pública Municipal de Santos criou um Espaço Lydia Federici, onde estão expostos desde sua máquina de escrever até os troféus desportivos, bem como os organizados álbuns de recortes reunindo todos os seus textos publicados. Esta crônica foi publicada em 18 de fevereiro de 1962 em A Tribuna (ortografia atualizada nesta transcrição):
 
GENTE E COISAS DA CIDADE

Terra desconhecida

Lydia Federici

Eram cinco moças sozinhas, no meio de duzentas famílias, a bordo de um navio que deixava o Japão. Com os olhos rasgados bem abertos, ficaram vendo a sua ilha sumir para trás. Ilha grande e querida, com toda a terra cultivada: com montanhas altas dominadas por um vulcão enfeitado com um eterno colar de neve, aldeias graciosas, cidades grandes. Disseram adeus a tudo. A única família que conheciam na única terra que sempre fora sua.

Com o vento desmanchando-lhes os cabelos pretos, que uma permanente afofara em ondas largas, as cinco moças viram a sua vida de 20 anos ir desaparecendo aos poucos. Choraram? Com toda certeza. Lágrimas amendoadas de saudades. Que saudade dá em qualquer povo. E lágrimas correm de quaisquer olhos.

Ficaram no mar sobre um barco em cujo mastro, toda manhã, uma bandeira branca com um sol vermelho lhes dizia que aquilo ainda era o seu Japão. Cortaram o mar de meio mundo, descobrindo que, dia após dia, era sempre o mesmo mar. Essa descoberta tranquilizou-as um pouco.

Em Belém viram o primeiro porto da nova terra em que iriam viver. Quanto chão para ser trabalhado. Olharam com curiosidade para a risonha Recife. As montanhas de picos atrevidos e as ilhas poéticas do Rio encheram-nas de respeito e ternura. Mas era Santos que elas queriam ver. Como seria?

A cidade onde desembarcariam – depois de apresentadas cerimoniosamente aos maridos que conheciam com meio mundo de permeio, através de cartas e fotos, apareceu-lhes de manhã bem cedo.

Duas montanhas verdes e ensolaradas fecharam, num abraço, o pequenino navio que entrava na barra. Uma praia redonda, branca, cheia de luz, muito tranquila, enviou-lhes, de longe, um beijo de paz. As cinco moças sentiram promessas boas nesse beijo de boas vindas, tão respeitoso, suave e amigo tocou-lhes ele o coração apertado. Sorriram. A nova terra recebia-as bem.

No porto viram trabalho. Muito trabalho. E como havia gente de olhos iguais aos seus, mas muito alegres, a esperar os novos amigos que vinham do Japão. Com o coração aos saltos, foram apresentadas aos rapazes que formariam a sua nova família. Sorriram mais uma vez, meigas, submissas, sem medo. Com eles viveriam numa terara que as recebera com curiosa simpatia, toda enfeitada de sol e de mansidão, esperando a generosidade de seus esforços, prometendo-lhes trabalho, bem estar, sossego e fartura.

As cinco japonesinhas gentis pisaram o chão sujo do cais. Sentiram-no firme. Olharam, de manso, para o povo que lhes sorria amigo. Sim. Estavam na sua nova terra. Seus filhos seriam brasileiros. E elas não se incomodariam com essa ideia. Sentiam que iriam amá-la. Parecia ser boa e amiga.

E é, pequeninas e doces japonesas do Japão. É a sua nova terra.


Imagem: reprodução do álbum de recortes de Lydia Federici, no acervo da Hemeroteca Municipal

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