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CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - LYDIA
Lydia Federici (4 - crônica 37)

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Clique na imagem para voltar ao índice desta seçãoEm mais de três décadas de atuação diária, Lydia Federici publicou milhares de crônicas no jornal santista A Tribuna. A Hemeroteca Pública Municipal de Santos criou um Espaço Lydia Federici, onde estão expostos desde sua máquina de escrever até os troféus desportivos, bem como os organizados álbuns de recortes reunindo todos os seus textos publicados. Esta crônica foi publicada em 7 de fevereiro de 1962 em A Tribuna (ortografia atualizada nesta transcrição):
 
GENTE E COISAS DA CIDADE

Praia sem sol

Lydia Federici

É a mesma praia com a mesma areia, à beira do mesmo mar. Mas quando não há sol, não é a mesma coisa.

Só gente de fora é que tem coragem de procurá-la. E de lá ficar. Santista não. Bom. Para os de cá, um dia cinzento é apenas aborrecido. Principalmente o domingo. Mas o prejuízo não é muito grande. Haverá, no ano, mais 51 domingos com possibilidades de uma boa tostada, um grande mergulho e a bênção de uma caipirinha gelada.

Mas para o visitante, com 20 dias contados de férias à beira-mar, um dia chuvoso é quase um drama. Do qual, porém, com teimosia, ele ainda arranca uns bons pedaços. Se não de banho de sol, pelo menos de banho de mar. Que importa que ele esteja revoltado, encapelado, turvo de areia, com ressaca e frio? Mar, para ele, é sempre mar. O mesmo mundaréu de água.

Veja, na manhã de céu baixo e cinzento, essa pajem de uniforme branco, sob o braço um guarda-sol colorido, que atravessa a avenida. Três crianças louras, aos tropeções, agarram-se às suas mãos. Ei, menina. Pra que o guarda-sol? Não vê aquela nuvem? É chuva que vem. Bem, e daí? Guarda-sol pode ser guarda-chuva também, não pode?

O rapaz de costas brancas e curvas corre, desajeitado, para a praia. Dizer-lhe que é inútil sua caminhada? Que o tempo está mais para chuva que para sol? Mas quem se atreveria? Ele economizou um ano para poder vir a Santos. Está pagando mais de dois mil por dia. Como vai deixar de tomar seu banho de mar?

E assim, na manhã cinzenta, a praia vai recebendo seus habitantes.

A areia molhada e escura não é o colchão quente e macio dos dias de sol. Santista ali não se sentaria nem por decreto de Deus. Mas as crianças de fora nem notam a diferença. Cavam buracos, fazem bolos, erguem castelos. Com a mesma alegria dos dias dourados.

Caem os primeiros pingos. A praia se alvoroça. Mas nem os casais idosos, que banham os pés, abandonam o mar.

Só uma pessoa volta da praia. É a japonesa de pernas arqueadas. Que vende bolas e boias de plástico, banquinhos de lona colorida. Com uma pilha de metro de chapéus de pala equilibrada na cabeça, volta quase a correr.

"Chuva estaraga tudo, ?"


Imagem: reprodução do álbum de recortes de Lydia Federici, no acervo da Hemeroteca Municipal

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