GENTE E COISAS DA CIDADE Turistas
Lydia Federici
Não. Não somos egoístas. Nem excessivamente regionalistas. Também não somos maus nem vivemos mal humorados. Acontece apenas que, como todo
mundo, gostamos de sossego. Coisa natural. Amamos, de forma humana, as nossas coisas. Mal humorados ou estúpidos seremos apenas por uma questão de vingança: levamos e damos.
Mas procurem compreender-nos. O que percebemos, de imediato, assim que vocês descem dos trens e dos ônibus, ou dos carros cheios de travesseiros, são coisas desagradáveis: nossas plantas são pisoteadas, perdemos nosso lugar no bonde, não somos
atendidos nas lojas, pegamos um miserável rabo de fila para o cinema.
O melhor pé de alface já foi escolhido por mãos sardentas, no nosso pedaço de areia sete crianças se rebolam e gritam, nos passeios do Gonzaga rapazes louros nos empurram. E não se encontra mais
sorvete de chocolate nos carrinhos amarelos, o que, positivamente, é um desaforo.
Como perder isso tudo sem uma certa raiva?
A invasão, nestes últimos tempos, foi feita de forma muito violenta. Mas deem-nos tempo para compreender o que seja o turismo. Deixem-nos entrar no bolso e pelos olhos uma migalha do quanto representa, para todos nós, esse turismo de fim de semana,
de temporada. Cheio de cores, de alegria, de vida buliçosa, de mais arranha-céus, de melhorias, de dinheiro. De beleza. Sim. Quando compreendermos, sorriremos. Encontrando-nos sorridentes, vocês também sorrirão, sem empáfia.
Perderão esse ar agressivo de donos do mundo. De volta da cidade, já não olharão com ar de pouco caso para a comerciária que, coitada, se espreme num canto do ônibus que vocês entopem sem cerimônia,
como coisa sua. Vendo-nos calmos, vocês, talvez, percam a pressa. Essa pressa desnecessária da grande metrópole de trabalho, que não mais se justifica na cidade balneária que vocês escolheram para vir passar as férias. As férias deveriam ser
passadas com calma, sem essa sofreguidão de fim de mundo que vocês usam nem sei para quê.
Tenham calma, turistas. Santos não vai desaparecer. Aproveitem, daqui, tudo quanto for possível aproveitar. Rolem, à vontade, na areia da praia. Ela não se gastará. O mar será sempre o mesmo. A cerveja, nos bares, será substituída. Haverá pão
suficiente para todos nós, santistas e turistas.
Mas tenham calma. Não nos pisem. Venham com jeito. Respeitem-nos, se quiserem ser respeitados. Antes de falar mal de nós, invertam, com honestidade, os papéis. E vejam se, enquanto não nos
compreendermos, vocês não representam, como nós para vocês, uma bela e boa praga.
Imagem: reprodução do álbum de recortes de Lydia Federici, no acervo da Hemeroteca Municipal
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