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CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - LYDIA
Lydia Federici (4 - crônica 21)

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Clique na imagem para voltar ao índice desta seçãoEm mais de três décadas de atuação diária, Lydia Federici publicou milhares de crônicas no jornal santista A Tribuna. A Hemeroteca Pública Municipal de Santos criou um Espaço Lydia Federici, onde estão expostos desde sua máquina de escrever até os troféus desportivos, bem como os organizados álbuns de recortes reunindo todos os seus textos publicados. Esta crônica foi publicada em 19 de janeiro de 1962 em A Tribuna (ortografia atualizada nesta transcrição):
 
GENTE E COISAS DA CIDADE

Sandálias japonesas

Lydia Federici

Faz tempo que elas andam por aí. As primeiras que vi estavam embrulhadas, aos montes, em papel de jornal japonês. Onde? Num canto meio escondido duma peixaria de nipônicos. Contrabando, sabe como é.

Interessantes na forma, alegres nas cores. Nada mais que um pedaço retangular de borracha macia, formando a sola, e duas tiras em V, cujo vértice devia ser encaixado entre os dois dedos maiores dos pés. Dedos dos pés não, Artelhos. Práticas pareciam ser. Baratas não muito. A dúvida eram as tiras separando dedos que, em todo o mundo calçado, sempre viveram espremidos uns contra os outros.

Custaram um pouco, no começo, a ter saída. Coisa rara, pois santista, como bom brasileiro que é, gosta das coisas vindas de fora. Mas depois, quase que de hora para oura, parece que todo mundo recebeu o estalo, descobrindo quão práticas, higiênicas e cômodas eram as sandálias coloridas do Japão.

E então foi isso que por aí se vê. Em qualquer pé. Em todo o lugar. É sandália de 8 centímetros para o bebê que mal se equilibra sobre as perninhas gordas. É sandália para pés nodosos de velhos que titubeiam sobre as pernas varicosas. É sandália que parece mimosa no pé do broto. E parece atlética no pé do Tarzan. E isso na praia, nos bondes, no cais, nos clubes, nos cinemas, de manhã à noite. Até em festas, sim senhor. Nas ditas informais.

É claro que há os que ainda olham para essa novidade – novidade velha – com certo desgosto. Bobagem. As sandálias japonesas, agora muito bem fabricadas em nossa terra – prova-o a facilidade com que, logo no primeiro dia, as tiras se soltam – são realmente extraordinárias.

Com elas, aprende-se a evitar as topadas. A dor límpida e direta é uma grande mestra, nem há dúvida. Aprende-se a andar com elegância, elevando-se mais os pés, pois que uma sola arrastada dá impressão de cansaço e de desânimo. E, até aprender a não fazer aquele ridículo "ploc-ploc", da sandália batendo contra o calcanhar, anda-se um quilômetro em casa, o que é um ótimo exercício extra.

Quanto à bolha que estufa, a pele que sai, o calo que se forma entre os dois principais artelhos de cada pé, são inconvenientes tão pequenos diante da certeza de acompanhar a moda e de estar em dia com o que nos fizeram cismar que seja prático, econômico, higiênico, interessante e confortável, que nem vale a pena dar-lhes importância.


Imagem: reprodução do álbum de recortes de Lydia Federici, no acervo da Hemeroteca Municipal

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