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CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - LYDIA
Lydia Federici (4 - crônica 3)

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Clique na imagem para voltar ao índice desta seçãoEm mais de três décadas de atuação diária, Lydia Federici publicou milhares de crônicas no jornal santista A Tribuna. A Hemeroteca Pública Municipal de Santos criou um Espaço Lydia Federici, onde estão expostos desde sua máquina de escrever até os troféus desportivos, bem como os organizados álbuns de recortes reunindo todos os seus textos publicados. Esta crônica foi publicada em 28 de dezembro de 1961 em A Tribuna (ortografia atualizada nesta transcrição):
 
GENTE E COISAS DA CIDADE

Mercado de Santos

Lydia Federici

Manhã de domingo. Últimas compras de Natal.

Quando o ônibus fez a curva do canal, o mau cheiro deu um soco no nariz de todos. "Foi um caminhão de ovos que fez fritada"…

Na praça que rodeia o mercado a confusão era geral. Um guarda, numa esquina, deixa os carros avançarem. Depois, sorridente, trila o apito e aponta a placa de contramão. Os choferes param, tentam dar marcha-a-ré, buzinam, fazem sinais para os de trás desviarem. Engarrafamento. Mas ninguém discute. É véspera de Natal. Mulheres de chinelos, com as sacolas estourando, tentam atravessar as ruas, sacudindo-se, parando, desviando, avançando, recuando assustadas. Homens equilibram embrulhos mal feitos nos braços. O mau cheiro põe todo mundo a correr.

Acotoveladas, espremidas, duas senhoras alcançam, por fim, a banca das frutas. Pelo lenço perfumado com que tapam o nariz, a voz sai rouca: "A quanto a caixa dos pêssegos?" A japonesa afogueada olha-as de relance e grita: "Pra senhora, 900". Compram abacaxis. Fogem envergonhadas. Só se reconfortam quando vão descobrindo abacaxis nas cestas dos outros.

No mercado ao lado, o mau cheiro de fora se mistura com o dos peixes. Compradores ansiosos e meio desanimados pulam, aos trancos, de banca em banca. Há gente que compra. Gente vermelha, de fala cantante. Que, sem pestanejar, troca notas de mil por lulas, camarões-pistola, pescadas de 3 quilos. O vendedor nem olha para os fregueses habituais.

Lá fora, no ar sufocante, a balbúrdia parece maior. Todos correm. Empurram-se. Mas não sai briga. Não é véspera de Natal?

No poste amarelo, dois homens de calça de zuarte e camisa de meia observam a fila e riem. Quando o 10 aparece, há um suspiro de alívio. Uma mulher gorda sobe com dificuldade. A segunda não perde tempo. Ergue a sacola de onde emergem dois longos palmitos e sobe os degraus. Os palmitos levantam a saia da primeira. Um palmo. Dois palmos. "Se o palmito fosse mais comprido, hein, Zeferino?" E os baianos caem na risada, com um ar safado. Um embarcadiço alegre vai varando. "Não pode viajar com bicho vivo". O rapaz olha para o cobrador, para a saca. A cabeça de uma galinha aparece dentre as folhas de verdura. Mas meu chapa. Eu mandei matar. Ela está nas últimas". O cobrador ri. O homem raspa pela borboleta, aboleta-se no único banco ainda livre. A galinha bica a couve. Cantarola baixinho o seu "có! có"" quando a mão calejada do nortista empurra sua cabeça para baixo.

Mercado de Santos em véspera de Natal? Uma festa. Vai haver outra no dia 31.


Imagem: reprodução do álbum de recortes de Lydia Federici, no acervo da Hemeroteca Municipal

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