Em
1962, foi publicado em Sorocaba/SP este livro de 200 páginas (exemplar no acervo do historiador santista Waldir Rueda), composto e impresso nas
Oficinas Gráficas da Editora Cupolo Ltda., da capital paulista (ortografia atualizada nesta transcrição):
Pequeno histórico da Mayrink-Santos
Meus serviços prestados a essa linha entre Mayrink e Samaritá
Antonio Francisco Gaspar
[...]
3ª PARTE
XXXII - Serviço, boa vontade e gentilezas
Crônica da Mayrink-Santos
Fui designado com Laureano Cunha para ir instalar um telefone seletivo no S. 21, 5ª
seção da linha Mayrink-Santos, a cargo dos engenheiros dr. Tomé Passos e Sinésio Barbosa.
Estávamos no ano de 1936, e faltava ainda terminar diversas obras de arte e aterros, a
fim de serem assentados os trilhos entre as seções 2ª e 5ª.
Era uma quarta-feira, 5 de fevereiro. Aprontamo-nos com ferramentas e materiais e, em
Mayrink, seguimos no único trem misto até Rio dos Campos, onde, chegando às 22 horas e 25 minutos, pernoitamos num vagão que servia de estação e
armazém.
Chovia regularmente. Com o tamborilar do aguaceiro na coberta de zinco do vagão,
dormimos incontinenti pelo motivo do cansaço que nos dominava o corpo.
Logo pela manhã, de Rio dos Campos seguimos num caminhão com as ferramentas e
materiais para a 5ª seção, cuja sede ficava no alto de um morro, entre os túneis nºs 27 e 28.
Dali, nos dias de bom tempo, contemplava-se o Oceano Atlântico ao longe, nas
imediações de Praia Grande e Itanhaém. Também dali avistavam-se as ilhas Queimada Grande, Queimada Pequena e Alcatrazes,
porém, quase sempre, a cerração intensa toldava o belíssimo panorama do litoral paulista.
Num dia em que estava límpido o espaço e que estive ali pela primeira vez, avistei no
imenso azul, sobre o oceano, seguindo diversas direções, três grandes navios: um, na linha da Argentina; outro, na rota para o Rio de Janeiro e
outro noutro rumo. Que belo panorama esse, do alto da sede da 5ª seção!...
Mas, voltemos ao assunto.
Nesse mesmo dia fiz instalação do aparelho Seletivo, e Laureano, com três
trabalhadores, levantaram três postes de madeira.
Dois dias estivemos ali, instalando o dito telefone e linha. Uma chuvinha impertinente
caiu enquanto levantávamos os postes. Estendíamos os fios e deixávamos funcionando o aparelho telefônico para serviço particular da seção.
Pronto o serviço, por volta das 16 horas do dia 7, resolvemos descer a serra até
Cubatão, a fim alcançarmos o último trem da S.P.R. para São Paulo, que passava por lá às 19 horas e 20 minutos.
O dr. Tomé queria que jantássemos primeiro, mas dispensamos a sua vontade e gentileza
e pedimos que nos fornecesse um caminhão para alcançarmos ainda o trem em Cubatão.
Foi então escalado o chofer sr. João Modesto, o mais prático e conhecedor da perigosa
estradinha de acesso às diversas seções em construção do leito da via férrea, na serra.
Tomamos assento ao lado do chofer e saímos, às 17 horas e 20 minutos, do alto da 5ª
seção, serra abaixo. Já na saída a cerração tinha dominado tudo. Não se via nada a cinco metros de distância e cada vez mais a cerração engrossava.
Eu disse ao Modesto, chofer, ir com mais precaução, pois eu já por ali tinha passado
diversas vezes e sabia que a estradinha não era para se abusar. Havia precipícios e abismos de trezentos e quatrocentos metros de altura e se
derrapasse na lama o auto, não se aproveitava nada de nós, humildes empregados que queríamos ainda regressar nesse dia a São Paulo.
O Modesto disse que dava tempo de alcançar o trem em Cubatão e descíamos a sinuosa
estradinha em regular marcha, ora desviando o leito do traçado da via férrea em construção, ora subindo morros e descendo profundos vales, tudo isso
no meio de intensa cerração e já bem escuro, pois eram mais de 18 horas. Os faróis acesos do auto não serviam para nada, estávamos sem guia no meio
daquela baralhada serra cheia de medonhos baratros.
De repente, o Modesto estacou o auto violentamente. - Puxa, seu Gaspar, disse ele,
descendo do seu lugar e sumindo no meio da cerração. - Que foi?!... perguntei eu, um tanto desconfiado.
- Nada. Felizmente estamos salvos. Apesar de conhecer bem o caminho e passar por aqui
todos os dias, errei e estamos à borda de um precipício de quatrocentos metros de altura. Peço descerem do auto e eu vou dar marcha a ré e virar o
caminhão com cuidado.
Feita a manobra, continuamos a descer a perigosa estradinha. Passamos Pai Matias, Mãe
Maria e chegamos já bem tarde no S.5, Bar do Ceriaco, 2ª seção.
Com as manobras e precauções que tivemos até ali, perdemos muito tempo. Consultei o
relógio. Eram 19 horas... Não era mais possível alcançar em Cubatão o trem da S.P.R. A chuva agora dominava toda a serra. Assim mesmo, partimos para
a nossa meta.
Nos vai-e-vens da sinuosa estrada, do S.5 a Cubatão, gastamos quase duas horas, pois a
todo momento o auto derrapava e era mister que o Modesto o detivesse continuadamente para não haver um desastre.
Às 21 horas e 20 minutos, chegamos em Cubatão. Não havia mais trens para São Paulo e
nem para Santos. O último ônibus também já tinha ido para Santos e não mais havia condução que nos levasse para lá.
O auto somente trouxe-nos até ali e incontinenti regressou para a sua sede, 5ª seção.
Ficamos sem saber o que fazer e agora a fome nos estava apertando. Lembrei-me de
cercar, na estrada, qualquer automóvel que passasse para Santos. Passaram alguns em chispada, cujos choferes não nos atenderam. A chuva continuava
impertinente.
Fomos à estação da S.P.R. e pedimos deixar guardadas até o dia seguinte as nossas
malas e ferramentas. O telegrafista acedeu e ficamos livres de nossa bagagem.
Fomos então à ponte da estrada de rodagem sobre o rio Cubatão, distante um quilômetro
da via férrea S.P.R. Ali esperamos o primeiro automóvel que passasse. Eram 22 horas e 30 minutos quando apareceram os dois faróis de um carro de
passeio. Fiz sinal ao chofer e ele parou imediatamente.
Eu e Laureano nos demos a conhecer, fazendo-lhe ver quem éramos, mostrando-lhe as
nossas cadernetas de identidade da Sorocabana e ele, que estava só ao volante, abriu a porta do carro e mandou-nos entrar.
Perguntei quanto ia cobrar pela corrida até Santos.
Disse que entrássemos e que não perdêssemos tempo.
Daí a 20 minutos estávamos na Praça dos Andradas.
Falamos-lhe que íamos ainda jantar àquela hora, pois estávamos com fome. Perguntamos,
ainda, quanto era o seu serviço de nos trazer até ali.
- Não é nada, respondeu.
- Então vamos tomar cerveja.
- Não bebo.
- Então cobre a corrida.
- Não é nada, já disse, e, despedindo-se de nós, saiu em disparada, não dando tempo,
ao menos, de eu ver o número desse automóvel, a fim de algum dia procurar seu dono e, mais uma vez, lhe agradecer a sua vontade de nos conduzir a
Santos, sem cobrar nada.
Que Deus proteja sempre esse abnegado chofer ignoto, que jamais soubemos quem fosse.
Entramos num restaurante e comemos, com apetite e vontade.
Às 24 horas, tomamos o bonde e fomos à estação de Docas, da Sorocabana, onde
pernoitamos na oficina da 5ª Zona Telegráfica, para no dia seguinte seguirmos para São Paulo, via Cubatão, a fim pegar nossas malas que aí tinham
ficado guardadas.
Nas nossas diligências em serviço da Sorocabana, sempre encontramos pessoas idôneas e
de boa vontade que, com gentileza, nos auxiliaram, em situações precárias como essas, que passamos nessa data, e que acabamos de narrar.
Perfil longitudinal da linha de Mayrink a Santos -Estrada de Ferro Sorocabana/5ª
Divisão - Estudos e Construção (engenheiro chefe: Mário Souto)
Gráfico dos volumes extraídos e a extrair por ml. e por trecho - Ano 1928
(clique na imagem para ampliá-la)
Imagem e legenda reproduzidas do livro
FIM
Livros de Antônio Francisco Gaspar
Trovador do
Sul - Livro de canções, modinhas, lundus etc., editado em 1921 pelos srs. Antônio de Maria & Cia., Rua Três de Dezembro, 5a, em São Paulo.
Reminiscências
de um Ferroviário - Narrativas interessantes de fatos ocorridos no município de Itararé, E. de S. Paulo; ornado com finíssimas fotografias e
editado em 1925 pelos srs. Heitor L. Canton & Cia., Rua Ribeiro de Lima, 22 em São Paulo.
O Mistério
da Água Vermelha - Novela Sorocabana narrando toda a história da origem da Capela N. S. Bom Jesus do Bom Fim, erigida por João de Camargo, o
saudoso taumaturgo da Água Vermelha, Sorocaba, E. de São Paulo. Este livro foi impresso em duas edições: em 1925 e 1927, pela gráfica Eugenio Cupolo,
Rua do Seminário 187, em São Paulo.
A Cruz de
Cedro - Drama em 1 Prólogo, 3 atos e Apoteose. Extraído do romance do mesmo título do inesquecível literato sãoroquense Antônio Joaquim da Rosa.
A ação deste drama passa-se em São Roque, E. de São Paulo. Impresso em duas edições, em 1926 e 1938, Tipografia Cidade Sorocaba e Tipografia São
Luiz, em Sorocaba.
Histórico
da Fundação da Estrada de Ferro Sorocabana - Fundação, início, construção e inauguração do tráfego dessa estrada - 1870-1876 -, ornado com
inúmeros clichês, mapas e desenhos. Editado em 1930 pela gráfica Eugenio Cupolo, Rua do Seminário 187, em São Paulo.
Corbelha de
um Ferroviário - Assuntos ferroviários, em versos, e sobre a linha Mayrink-Santos. Ornado de sugestivas e interessantes fotografias, editado em
1936 pelos srs. Heitor Cunha & Cia., Rua Duque de Caxias, 25, em São Paulo.
Luís
Matheus Maylasky - Antônio Gaspar e Aluísio de Almeida. Biografia em homenagem ao centenário do nascimento desse vulto eminente - 1832-1932 -
que fundou no Brasil cinco estradas de ferro, inclusive também o porto de Vitória, E. do Espírito Santo, e que por seus relevantes atos foi
agraciado pelo rei de Portugal, D. Carlos I, com o elevado título de visconde de Sapucahy. Editado, este livro, pela gráfica Eugenio Cupolo, Rua do
Seminário 187, em São Paulo.
Fantasmas e
Assombrações - Aspectos, lendas e costumes de Sorocaba antiga. Publicado em 1941, este livro, em foletins no jornal sorocabano O Comércio,
de propriedade do sr. Antônio J. Castronovo, Rua Dr. Braguinha 45, em Sorocaba.
Bodas de
Brilhantes - Colaboração em homenagem aos 75 anos de entrega ao tráfego público da E. de F. Sorocabana. Impresso em 1950 pela Oficina Gráfica
Editora Cupolo Ltda., Rua do Seminário, 187, em São Paulo.
Cruzes e
Capelinhas - Tradições sorocabanas que desaparecem.
O Monge do
Ipanema - Melodrama em 4 atos. Histórico sobre a vida de um ermitão que viveu numa gruta na encosta do morro do Araçoiaba, município de
Sorocaba, em 1844. Este melodrama foi escrito em 1944, centenário da apresentação desse monge em Sorocaba.
Sorocaba de
Ontem.
Padre
Joaquim Gonçalves Pacheco. |