Ilustração: Max, na reprodução parcial da página
CRÔNICA
O cãozinho Biriba
Vicente Cascione (*)
O futebol semeou imensas nostalgias que hoje ainda
despontam intensamente em mim, apesar do largo tempo vivido.
Não se faz futebol como antigamente. Com todo o respeito pelas gerações mais recentes
dos contemporâneos de um futebol moderno com seus ídolos de ouro, afirmo que os cenários dos estádios dos novos tempos sofrem da ausência do
romantismo que magnetizava o futebol do passado.
Tenho lembranças antigas, de quem começou a entrar nos estádios aos 3 anos de idade,
pelas mãos de meu pai, speaker esportivo – como eram chamados no rádio daquele tempo os narradores de futebol.
No campo da Vila Belmiro, de arquibancadas de madeira, as cabines destinadas às
emissoras de rádio situavam-se onde hoje existem as cadeiras sociais, sob a marquise do estádio.
Ali o paciente Jovino de Mello, técnico incomparável, instalava os aparelhos
necessários à transmissão radiofônica da voz de meu pai. Ao lado, revezavam-se na tarefa de cuidar do filho do Cascione, o comentarista Antonio
Guenaga e os jornalistas Rubens Ulhoa Cintra, o Torito, Antenor Rodrigues Duarte e De Vaney.
Através do vidro da cabine eu via os jogadores e a bola, ouvia o som das arquibancadas
e o grito do gol que perdurava além dos estádios, na voz grave de meu pai.
Vi o São Paulo com o grande Leônidas, o Vasco com Ademir de Menezes, o Palmeiras de
Oberdã, a Portuguesa de Pinga, o Nacional de Charuto, o Ipiranga de Rubens, a Portuguesinha de Pavão, o Jabaquara de Ciciá, o Corinthians de Cláudio
e Baltasar e o Santos de Leonídio, Artigas e Dinho, Nenê, Pascoal e Alfredo, Cento e Nove, Antoninho, Nicácio, Odair e Pinhegas.
Eram os craques que enchiam meus olhos e meu álbum das Balas Futebol. Certo dia,
surpreendi minha mãe, quando ela descobriu que eu aprendera a ler sozinho, graças à vontade de soletrar os nomes dos jogadores, figuras da coleção
no álbum que, um dia, se perdeu.
Havia uma vaga elegância no traje dos torcedores. Não se desnudavam nem se
embriagavam, nem havia batalhas campais, nem os palavrões ecoavam no coro da multidão, e não era preciso a continência dos alambrados para impedir a
fúria criminosa dos que hoje invadem os campos e fazem reféns as pessoas normais.
Certa vez, veio ao velho estádio da Vila, o Botafogo, do Rio. Trouxe Pirillo e o
novato Santos, anos depois transformado num enciclopédico Nilton Santos.
O Botafogo trouxe Biriba, o cãozinho mascote, que ingressou com o time no gramado e
deu uma volta olímpica saudando os enternecidos torcedores.
Ele tinha as cores do clube.
O menino, na cabine, ouviu o pai descrever a cena que o encheu de encantamento e o
marcou para sempre: a entrada de Biriba e sua corrida em torno do gramado.
Nunca mais o vi. Mas repeti muitas vezes esse momento nítido que jamais se dissipou em
minha lembrança.
Nesta semana abri as páginas de uma publicação recebida como presente de Natal. Uma
coleção de fotos e textos, de rara beleza, com o título: Brasil, um Século de Futebol – Arte e Magia.
Folheei cada página e, de repente, eis as fotos dos sonhos de minha infância, entre os
flagrantes do passado que não conheci e as imagens dos tempos de minha mocidade, da idade adulta e as atuais, destes meus tempos de veterano
observador do mundo do futebol.
A emoção contida e suave rompeu o dique de meu coração, quando revi, na foto, o
cãozinho Biriba depois de tantos anos, de tanto tempo, nessa imagem que nunca adivinhei tornar a ver.
Então, a saudade do menino voou até a cabine inexistente de um rádio que já não há e
ouviu o silêncio de uma voz que já não se escuta.
O futebol de hoje não tem o sabor das lágrimas feitas de minhas saudades.
(*) Vicente Cascione é advogado, professor decano
de Direito Penal da UniSantos e deputado federal. Contato:
dep.vicentecascione@camara.gov.br.
Time que venceu o América por 4x0, em 1949.
Em pé: Gerson. Osvaldo. Nilton Santos. Avila. Juvenal e Rubinho.
Agachados: Paraguaio. Geninho. Cesar. Otavio. Braguinha e Biriba, o mascote do clube
Foto: Museu dos Esportes
Esta foto do Botafogo pode ser histórica. Foi um jogo contra o América no dia 13 de
agosto de 1950. O mascote do Botafogo, em 1948, era o cão Biriba que já estava aposentado. Neste dia 13, o presidente Carlito Rocha, escalou
novamente o Biriba para entrar em campo com os jogadores do Botafogo. Era a primeira vez que Biriba entrava no Maracanã. O América tinha um bom time
e chegou a disputar o titulo de campeão com o Vasco. E naquela tarde de 13 de agosto, com o Biriba, o Botafogo perdeu para o América por 4x2. O time
da foto aparece assim - Em pé: Osvaldo. Indio. Nilton Santos. Richard. Avila e Rubinho. Agachados: Braguinha. Souza. Ariosto. Zezinho e Jaime que
está segurando o cão mascote Biriba
Foto: jornal Tribuna da Imprensa, publicada no
Museu dos Esportes
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