Clique aqui para voltar à página inicialhttp://www.novomilenio.inf.br/santos/h0102z13b.htm
Última modificação em (mês/dia/ano/horário): 09/20/04 10:13:12
Clique na imagem para voltar à página principal
HISTÓRIAS E LENDAS DE SANTOS - ESTRADAS
O adeus da Sorocabana (2)

Leva para a página anterior
Foi com certo alívio que a população santista recebeu o anúncio do fim das atividades com carga da Fepasa/Sorocabana no trecho urbano. Havia a perspectiva de acabarem assim inúmeros problemas urbanos, como passagens de nível insuficientemente sinalizadas, causando acidentes, e as demoradas manobras dos trens, paralisando e congestionando o trânsito urbano. Parte dos planos então anunciados acabou sendo alterada com a privatização do sistema ferroviário, promovida logo depois. Porém, na época, a perspectiva era otimista, como se verifica nesta matéria, publicada em 3 de novembro de 1995 (um domingo) pelo jornal santista A Tribuna:
 
A Fepasa sai do desvio com trens no 3º trilho

1 - O grande corredor ferroviário de exportação Araguari-Santos será totalmente eletrificado pela Fepasa nos próximos dois anos e está com recursos garantidos do BNDES para as obras, que incluem remodelação de trechos, aplicação do 3º trilho para trens simultâneos de bitola métrica e de 1,6 metro, duplicação das linhas e sinalização eletrônica, operada à distância num comando único centralizado;

2 - Será totalmente reaproveitado o trecho da Serra do Mar da ex-Sorocabana, que engenheiros brasileiros de grande visão projetaram e construíram com arrojada técnica na década de 30. Os 125 quilômetros de linha férrea entre Mairinque, região de Sorocaba, e o porto, terão o 3º trilho para duas bitolas, além de tração elétrica nas locomotivas, sem necessidade de grandes obras. Pontes, viadutos e túneis estão prontos há mais de 50 anos, na expectativa dos trens da extinta Paulista, que devem alcançar a Baixada no final de 1986;

3 - Comissão mista da Rede Ferroviária Federal e da Fepasa estuda o tráfego simultâneo de trens com duas bitolas no trecho Cubatão-Santos, que será eletrificado. Com isso, a Fepasa conquistará acesso ao porto também pela Alemoa, reduzindo substancialmente os trens de carga que cortam o perímetro urbano da Cidade, causando congestionamentos do trânsito.


Com a aplicação do 3º trilho na bitola métrica, 
o transporte de cargas na Fepasa ganhará novas dimensões
Foto: Juan Esteves

Áureo de Carvalho

O transporte ferroviário no Estado está saindo do desvio com o reinício, sexta-feira, dos trabalhos do Plano de Eletrificação da Fepasa, que abrangerá um total de 1.692 quilômetros de linhas e proporcionará significativa redução nos custos operacionais da ferrovia.

A reativação dos serviços foi possível com a assinatura de um contrato de financiamento entre a Fepasa e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no valor de 55 milhões de dólares. O empreendimento reveste-se de grande importância também para a indústria ferroviária, que há dois anos e meio aguardava a retomada desse contrato para entregar as encomendas de matérias feitas em 1983.

Dessa forma, serão reativados os canteiros de obras de montagem da rede elétrica aérea e das subestações em diversos pontos da malha da Fepasa, bem como os projetos de sinalização e telecomunicações para o trecho Ribeirão Preto-Santos, via Campinas. Na Europa, o contrato Fepasa-BNDES deu sinal verde para o embarque dos equipamentos e materiais fabricados sob encomenda, entre os quais duas locomotivas, que deverão chegar em fevereiro ao Porto de Santos.

O empreendimento, objeto de outros contratos, é no valor total de 550 milhões de dólares e envolve, além da eletrificação dos 550 quilômetros iniciais de Ribeirão Preto até Santos, também a instalação do sistema eletrônico de sinalização e telecomunicações, para tornar as operações dos trens mais seguras e mais rápidas. Prevê, ainda, o reforço no sistema já eletrificado da ferrovia estadual, em cerca de 1.142 quilômetros, através da modernização da rede energizada e subestações, inclusive com a implantação de algumas unidades novas.

Serão adquiridas 80 novas locomotivas elétricas, sendo 70 de bitola métrica e 10 de bitola de 1,6 m, o que permitirá à Fepasa ampliar de 42 para 76% a participação da tração elétrica em suas operações, garantindo uma redução da ordem de 50 milhões de litros de óleo diesel, consumidos por um ano em suas operações.

Duas bitolas - A Fepasa, que absorveu entre outras a antiga Companhia Paulista de Estradas de Ferro, dispõe de dois grandes troncos com bitola de 1,6 m que vão até Santa Fé do Sul e Panorama, junto às fronteiras de São Paulo com Mato Grosso do Sul. Os dois troncos se fundem em Itirapina e chegam a Campinas, onde, por razões técnicas, a Fepasa se vê obrigada a entregar os trens (e os fretes) à Rede Ferroviária Federal para alcançar o porto e a Baixada.

As razões técnicas: só a Rede Ferroviária Federal dispõe de bitola de 1,6 m entre Campinas e Santos, um monopólio herdado da extinta SPR, encampada pela União em 1945. Mas essa situação vai mudar, segundo a Fepasa, com a implantação do 3º trilho na ligação Campinas-Mairinque-Santos, que dispõe somente da bitola métrica: o 3º trilho, correndo ao longo da bitola de 1 metro, permitirá o trânsito simultâneo das duas bitolas, empregando os mesmos vagões e locomotivas.

"Parece um ovo-de-Colombo", explica o diretor de Transportes da Fepasa, João Roberto Zaniboni, "mas não é. Há um pequeno vagão de adaptação, que a locomotiva de bitola de 1,6 m pode transportar e que lhe permite operar também com a bitola métrica. Sem truques e nem é novidade, mas só agora está sendo introduzido, como solução racional e lógica".

O 3º trilho de Campinas a Santos, via Mairinque, beneficiará também o trecho Campinas-São Paulo-Santos da Rede Ferroviária Federal, livrando a região metropolitana da Capital da incômoda presença dos trens de carga, cujas linhas encontram-se permanentemente congestionadas pelas composições de subúrbio.

Por extensão, será substancialmente reduzido o número de trens de carga de Paranapiacaba a Cubatão, onde a tração da cremalheira está chegando à saturação pelo minério transportado para a Cosipa.


Vagões carregados para o porto, uma rotina na linha de Mairinque
Foto: Juan Esteves

Trilho adicional exigiu nova ferrovia. Ou quase

A Fepasa entregará ao tráfego no próximo dia 16 mais um trecho, agora de 33 quilômetros, da nova linha entre Botuxim e Guaianã, construídos no Município de Mairinque, no Planalto. É o segundo a entrar em operação na variante Helvética-Guaianã (os primeiros 10 quilômetros foram liberados em agosto do ano passado) e integra o Plano de Modernização da Ligação Ferroviária Campinas-Santos, que a Estrada de Ferro do Estado desenvolve, para aumentar a capacidade e a confiabilidade do tráfego de cargas do corredor de exportação.

O novo trecho substituirá o ponto mais crítico da centenária Estrada de Ferro Ituana, construída na última década do Século XIX, e que aos poucos vai sendo substituída pela variante Helvética-Guaianã. Localizada em região montanhosa e apresentando curvas e rampas acentuadas, as condições geométricas da linha antiga limitam a capacidade de transporte nesse corredor, responsável por cerca de 40% do volume de cargas movimentadas pelos trens da Fepasa.

Com a liberação do trecho Botuxim-Guaianã, haverá benefícios imediatos para o transporte de cargas, no que se refere à economia de combustível, prevendo-se a redução do consumo de óleo diesel em uma média diária de 3.600 litros. O benefício da segurança virá na eliminação de inúmeras passagens de nível. Some-se a isso a redução do tempo de percurso, de uma hora no sentido Campinas-Mairinque-Santos, e o custo de manutenção da via permanente e material rodante.

Nas condições operacionais o melhoramento do novo trecho está ligado ao aumento da capacidade de tração por trem, que é de duas mil toneladas, rebocadas por três locomotivas, passando para três mil toneladas transacionadas por duas locomotivas.

Além disso, a eletrificação de 17 dos 33 quilômetros do trecho, a partir do pátio da Estação de Engenheiro Acrísio Paes Cruz, permitirá o acesso direto dos trens de bitola estreita do corredor de exportação à linha que liga São Paulo a Presidente Epitácio (antigo tronco da Estrada de Ferro Sorocabana), eletrificada em 1950. A substituição da tração diesel para elétrica será feita no próprio pátio de Engenheiro Acrísio.

As características - O trecho de 33 quilômetros entre Botuxim e Guaianã liga a antiga Estação de Botuxim, da extinta Estrada de Ferro Ituana, ao ramal Mairinque-Santos. Em Pantojo, nas proximidades da Estação de Mairinque, a variante cruza a linha da ex-Sorocabana em forma de viaduto, e tem ligação com essa linha, tanto no sentido Presidente Epitácio-São Paulo como no inverso, através de duas alças.

A variante cruza também a Rodovia Castelo Branco, em forma de túnel, e a Rodovia Raposo Tavares, através de viaduto. Conta ainda com cinco viadutos, três dos quais sobre o Ribeirão Mato Dentro, o Córrego Santa Rita e o Córrego do Lago, e os demais para evitar aterros de meia encosta, que poderiam causar problemas futuros de estabilidade da plataforma. Possui ainda 26 passagens superiores e inferiores, construídas para eliminar passagens de nível, além de três estações com os respectivos pátios de manobras, somando mais de 12 quilômetros de via destinada à troca de tração e cruzamentos de trens.

Além de substituir o percurso de piores condições técnicas da antiga Ituana, cheio de curvas fechadas e rampas íngremes, a variante de 33 quilômetros descongestionará o pátio de Mairinque - que recebe por dia, em média, um trem de carga de meia em meia hora -, sem prejuízo da circulação dos trens de passageiros e dos inúmeros subúrbios.

Sob o ponto de vista de segurança, haverá significativa redução nos índices de acidentes registrados na antiga linha, principalmente descarrilamentos e ruptura dos engates, contribuindo para isso a eliminação de 101 curvas das 124 existentes no trecho, onde a velocidade passará dos 10 quilômetros por hora atuais para 60 quilômetros por hora no dia 16.


Construído há 50 anos, trecho da Serra do Mar tem mais de 30 túneis
Foto: Juan Esteves

A região do cerrado, mais perto do porto, via corredor

O corredor de exportação da Fepasa tem a projeção de unir Araguari, no Sul de Minas, ao Porto de Santos. Araguari fica junto de Uberlândia e Uberaba, no chamado Triângulo Mineiro, onde se concentram os maiores silos de grãos do Brasil, produzidos ali mesmo, na região do Cerrado que, a médio prazo, se transformará no maior centro produtor agrícola da Nação, segundo o Ministério da Agricultura.

Na expectativa da produção do Cerrado, a Fepasa vê a necessidade de adequação dos seus trilhos, uma solução macro para o equacionamento do transporte ferroviário de cargas no Estado.

Mais do que a simples eliminação de um ponto de estrangulamento do trânsito de trens, o plano de modernização da estrada de ferro paulista, que começou em 1982, objetiva também a substituição da bitola singela de um metro pela bitola mista, que dá novas dimensões à ferrovia estadual, permitindo uma ampliação da competitividade com o seu mais direto rival, o caminhão. As obras estão a cargo da Companhia Brasileira de Projetos e Obras (CBPO), e já receberam até agora recursos da ordem de US$ 121 milhões (cerca de Cr$ 242 bilhões).

O empreendimento, o maior no gênero em andamento no Brasil, foi concebido a partir de minuciosos estudos de viabilidade, que mostram a necessidade de se introduzir nas linhas da Fepasa os melhoramentos necessários ao crescimento da demanda de carga registrada nos últimos anos.

Parte da ligação ferroviária do Distrito Federal com o Porto de Santos e o Sul do País, o corredor de exportação tem cerca de 900 metros sob a jurisdição da Fepasa (Araguari-Santos), dos quais grande parte já sofreu retificações ao longo dos últimos anos.

Os trens da Fepasa, na grande maioria das linhas, ainda empregam o obsoleto sistema de staf, que consiste num bastão que o chefe da estação entrega ao maquinista do trem. O bastão significa que o trem está com a linha desimpedida à frente, até a estação seguinte, mas quando o bastão retorna às mãos da chefia da estação, o significado do staf é diferente: o trem autorizado pára, dando vez para outro trem na linha única.

Tudo isso vai mudar, segundo o diretor de Transportes da Fepasa, João Roberto Zaniboni, nos próximos dois anos. O staf será substituído por modernos semáforos, acionados eletronicamente à distância, e o equipamento também mudará as chaves dos desvios e linha, sem nenhum serviço manual.

"Vamos instalar o CTC, ou Controle de Tráfego Centralizado", disse ele, "compatibilizando todos os sistemas e subsistemas em uso, tirando um atraso de pelo menos 30 anos em relação às modernas ferrovias. Isso dará mais mobilidade à Fepasa, aumentando a velocidade dos trens, que antigamente, para serem velozes, exigiam linhas duplas, de difícil conservação e de construção proibitiva pelos altos custos. Com o CTC, em lugar da linha dupla e das múltiplas cabinas de operação, basta um conjunto de fios e luzes, além de um operador atento, que vê no painel onde se encontra o trem, sabe a sua velocidade e pode detê-lo a qualquer momento, em poucos segundos. Tudo isso a 100, 150 ou 200 quilômetros de distância. Com toda a segurança possível e imaginável, sem sair da cabina de comando".

Amanhã: os trens da Fepasa descendo a serra sem a complexa e limitada cremalheira. A Cidade pode se livrar das manobras da Sorocabana, que cortam o trânsito das grandes avenidas.

Leva para a página seguinte da série