As intenções poéticas do padre José de Anchieta
Julio Garcia Morejón [*]
Já falaram, neste histórico e
poético recinto - que conserva, como em vivo relicário, as pegadas do venerável apóstolo do Brasil -, os maiores especialistas
na vida e obra do sacerdote jesuíta canário. Que poderia acrescentar ao que aqui foi dito um humilde professor de literatura,
que acaba de aproximar-se trêmulo e emocionado dos versos de Anchieta, sem outra preocupação que não seja a de observar, através
do prisma da sensibilidade e da crítica, o conteúdo estético, formal e conceptual de uma obra que ainda não foi suficientemente
bem estudada?
Muito se investigou a biografia do taumaturgo; seus primeiros anos
insulanos; seu noviciado jesuítico em Coimbra; suas idas e vindas apostólicas pelo litoral brasileiro; suas façanhas espirituais
e políticas mais sobressalientes nestas terras; sua intervenção na fundação deste Colégio em que falamos, epicentro de uma das
maiores metrópoles do mundo. E extraiu-se de suas cartas e restantes obras em prosa muito material para a reconstrução de um
passado historiável sobre o qual se assenta um vertiginoso presente em constante projeção futura.
Se nos faltasse essa obra, que representa, por si só - a ação e a
obra escrita, em verso e prosa - um dos mais belos capítulos da história colonial brasileira, como reconheceu meu companheiro de
claustro universitário, o grande historiador Sérgio Buarque de Holanda, escapar-se-nos-ia a compreensão de quase tudo quanto deu
origem a um dos mais esplêndidos sucessos da história do Brasil, que é a história da fundação de São Paulo, cidade exemplar,
digna de aplausos pela capacidade e dinamismo de seus homens e pelo resultado de suas lutas, cidade sobre a qual todos deverão
sempre lançar um olhar de respeito e admiração, de compreensão e amor.
São Paulo é o resultado a que sem dúvida aspiraria - a São Paulo
de hoje e a de amanhã - um incansável e zeloso missionário como Anchieta, que dedicou todas as suas horas a Deus e ao povo, em
esforço super-humano de compreensão dos valores do espírito que o torna digno de subir aos altares.
Para entendermos a tarefa lírica de um homem como o Padre José de
Anchieta, vamos imaginá-lo afincado nesse meio primitivo e difícil que tão excelentemente soube descrever um escritor como
Péricles da Silva Pinheiro em seu livro Manifestações literárias em São Paulo na época colonial. O escritor extraiu dos
melhores historiadores e sociólogos brasileiros a matéria da descrição. Nuto Sant'Ana, Paulo Prado, Edith Porchat Rodrigues,
Affonso Taunay, Serafim Leite, Theodoro Sampaio, Alcântara Machado e Florestan Fernandes, entre outros, têm contribuído ao
desenho de uma paisagem e de uma sociedade primitiva sem cuja compreensão dificilmente poderemos valorizar, do ponto de vista
histórico-literário, a tarefa poética do venerável Anchieta.
"Os primitivos povoadores" - escreve Silva Pinheiro - "vivem entre o temor da morte e o da destruição da
vila, pelo assédio constante das hordas selvagens e belicosas. A fixação nesse núcleo, nas condições da época, corresponde à
guerra em estado de permanência com os tupinambá e demais grupos tupi do sertão". Nestas condições,
um homem como José de Anchieta, somente com as armas da cruz e a palavra, conquistou terras férteis para a Cristandade, em épica
jornada do espírito que lembra as gestas bélicas de um Cid Campeador, guerreiro de Deus à maneira da alta Idade Média.
Família de indios tupinambás, em gravura de Teodore de Bry, do livro de Jean de Léry
Imagem: enciclopédia Grandes Personagens da Nossa História, Ed. Abril,
S.Paulo/SP, 1969, vol. I
Enquanto o primitivo colonizador se opõe ao gentio aborígine e
tenta construir uma sociedade relaxada, sem princípios éticos vulgares, num afã desesperado às vezes de fugir da solidão e de
sufocar a saudade da pátria longínqua, o missionário, mesmo em troca de sofrer o martírio, lança-se à conquista dos espíritos
numa batalha de proselitismo integral que nos lembra a luta dos primeiros mártires da fé. Anchieta foi um desses esplêndidos
apóstolos, talvez o maior que pisou as terras do Brasil e que se entregou ao gentio e à paisagem para enriquecer o âmbito da
Cristandade, iluminado pela chama da fé ardorosa.
Imaginemos o humildíssimo Padre José de Anchieta como "Azorin", um
dos maiores escritores espanhóis da geração de 98, imaginou a vida e inquietações de alguns dos maiores santos e poetas da
Espanha medieval e renascentista, com os quais o taumaturgo do Brasil não deixa de ter certos laços espirituais de parentesco.
Imaginemos o venerável Anchieta como "Azorin" imaginava ao terno
riojano Gonçalo de Berceo, tão próximo em espírito e em obras ao pacificador dos tamoios. Gonçalo de Berceo contempla, da janela
de sua cela, no Mosteiro de San Millán de la Cogolla, uma paisagem fina e elegante. E lê manuscritos velhos, secos textos em
latim que falam da Virgem e que ele vai vertendo ao castelhano, dotando-os de suco lírico e candor, enquanto lhe sai da alma um
halo de unção mística, de devoção mariana.
Ante um ingênuo auditório de fiéis, Berceo recita os milagres da
Virgem e narra as vidas de Santa Ória, San Millán, São Domingos, num afã proselitista de reafirmação de fé. José de Anchieta,
pouco mais de três séculos depois, procura a solidão no meio do gentio brasileiro, em suas lutas íntimas de pacificador e
missionário. Emprega as mesmas armas do monge medieval: invocações marianas, exaltação da vida de santos, preces e cantigas
religiosas.
A poesia de Gonçalo de Berceo, com suas alegorias e rudes
metáforas, com seu sabor ao bom vinho da terra, fundiu-se no mesmo cadinho que séculos mais tarde vai receber a inspiração de
Anchieta: no da devoção cristã. E enquanto um é jogral da Virgem num meio ingênuo e primitivo de ouvintes cristãos que anelam o
amadurecimento de suas crenças e escutam boquiabertos as façanhas espirituais dos santos de sua região para aprofundarem na fé
de seus pais, é outro o jogral de Cristo e da Virgem num meio hostil e cheio de obstáculos, num meio selvagem e semi-selvagem,
que exige sacrifícios plenos e desprendimentos integrais para a conquista das almas.
O resultado estético desta luta em ambos é bem parecido: um
encadeamento de sentenças e conselhos dos quais de vez em quando emana uma centelha de poesia, mesmo reconhecendo a distância
que em muitos momentos os separa, tendo em conta que Berceo é o primeiro grande poeta espanhol e Anchieta chega com atraso a um
Renascimento que não acaba de abraçá-lo.
O apóstolo do gentio brasileiro escreve em pleno Renascimento e
primeiros fulgores do Barroco, porém ainda adscrito, pela distância, a esquemas de composição medievais de transição. Alguma
culpa disto deve ser atribuída também à sua educação escolástica e ao meio no qual exerce suas atividades poéticas. Assim
souberam valorizar seus versos historiadores e críticos como Afrânio Coutinho, José Aderaldo Castello e Eduardo Portella, entre
outros. Este último escreve, em sua edição antológica das poesias do frade jesuíta para a coleção Nossos Clássicos, da
Editora Agir: "Anchieta pode ser considerado ainda um legítimo poeta primitivo; naquele sentido de
que, na estética do primitivo, interferem elementos didáticos e religiosos", e acrescenta no final:
"convém lembrar ainda que, em certos momentos, a poesia do Padre José de Anchieta denuncia a
presença de um humanista".
Àquele que ler com atenção esta poesia não parecerá estranho nada
do que disse o crítico citado. Verá, ao mesmo tempo, o primitivo e o moderno, o medieval e o renascentista, em marchas e
contramarchas de expressão poética que dão a essa obra, do ponto de vista estético, um timbre peculiar, uma fisionomia própria.
Eis a interrogação que agora esperamos: José de Anchieta - que,
sem sua obra em verso, teria assegurado o lugar que hoje ocupa na história de São Paulo e do Brasil - foi um grande poeta? Não é
fácil responder, se nos apegamos a preconceitos nacionalistas, de caráter histórico. A maioria dos críticos e historiadores das
letras brasileiras - desde que, em 1923, Afrânio Peixoto divulgou na coleção Clássicos Brasileiros as poesias do
taumaturgo, num livro intitulado Primeiras Letras - não deixaram de reconhecer nele o primeiro grande poeta destas
terras.
Esta impressão é confirmada por aqueles que, a partir de 1954,
aproximaram-se dos poemas de Anchieta por intermédio da edição que a professora Maria de Lourdes de Paula Martins fez em
comemoração ao IV Centenário de fundação de São Paulo, preciosa edição crítica e paleográfica das poesias de Anchieta segundo o
manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi, o qual se conserva no arquivo da Companhia de Jesus em Roma.
Saudava a edição da professora Maria de Lourdes de Paula Martins o
eminente especialista em problemas anchietanos, Reitor deste Colégio em que falamos, Padre Hélio Abranches Viotti, com estas
palavras: "Se nenhum outro mérito possuíssem estas Poesias de Anchieta, o fato só de
constituírem um documento praticamente único no seu gênero pertencente ao século XVI, verdadeiro pórtico da literatura
brasileira, justificaria o alvoroço com que hão de estudar o aparecimento desta obra todos aqueles a quem a ilustração mental, o
amor ao passado de sua pátria, o justo apreço pelas manifestações culturais de nossos antepassados concedem a capacidade de
avaliar a significação do acontecimento".
Eis, em síntese, como têm reagido alguns críticos ante a obra
lírica de Anchieta: Celso Vieira afirma que o frade jesuíta, excelente autor de mistérios e diálogos, foi, em Piratininga,
comediógrafo e poeta ao mesmo tempo, médico e artesão, oráculo e missionário, taumaturgo, mestre-escola e arquiteto, quer dizer,
a personalidade multiforme da vida colonial, o super-homem necessário naqueles meios sociais ainda não diferenciados. Celso
Vieira vê o poeta dentro de um conjunto de atividades que dão a verdadeira dimensão do apóstolo.
Afrânio Coutinho explica que Sá de Miranda teria necessidade de
chegar aos quarenta anos para que nascesse o poeta menor que haveria de representar no Brasil o espírito e a forma do
Cancioneiro de Resende: José de Anchieta. "Graças, portanto, a este poeta, ostentou a poesia
brasileira, em seus primeiros passos, o sinete - pouco rútilo embora - daquela fase da literatura portuguesa que teve seus
expoentes nos nomes de Gil Vicente, Berrnardim Ribeiro e Cristóvão Falcão. Isto significa que Anchieta constitui, isoladamente,
um capítulo da poesia ibérica na América Portuguesa". Acredita o ilustre crítico do Rio de Janeiro
que nos manuscritos do taumaturgo há páginas que oferecem a verdadeira dimensão das possibilidades líricas desse autor. E
assinala, para prová-lo, as trovas a Santa Inês, poema em que, certamente, detiveram-se quase todos para demonstrar a capacidade
poética de Anchieta.
Maria de Lourdes de Paula Martins, em outra de suas obras sobre
nosso escritor, reconheceu que, extraordinariamente, em algumas páginas, o poeta domina o missionário: quando se aprofunda em
seus momentos de solidão, nessa solidão da imensidão destas paisagens; deste sentimento de solidão brotam-lhe os melhores
versos, espontâneos e irresistíveis, ardentes e sempre comovidos.
Ronald de Carvalho reconhece que o catequizador de Piratininga
possuía as virtudes indispensáveis para chegar a ser um grande escritor. Porém, as circunstâncias lho impediram: a vida difícil,
a natureza de suas ocupações, a estreiteza do meio; tudo isto o desviou do seu rumo natural de grande poeta. O estilo de suas
poesias - acrescenta -, sem relevo, porém puríssimo, dá uma boa idéia da medida de sua imaginação viva e colorista.
O Padre Luiz Gonzaga Cabral se entusiasma ao falar do missionário
do Brasil. Pensa que sua poesia, duplamente inspirada por ser humilde reflexo das circunstâncias locais, é um dos mais belos
documentos dos primeiros tempos da história pátria. Anchieta - afirma o Padre Gonzaga Cabral - entoa harmonia na alvorada da
nacionalidade. E chega a compará-lo a Gil Vicente, e a acrescentar, inclusive, que supera o português na musicalidade dos
versos.
Nelson Werneck Sodré, em sua História da Literatura Brasileira,
reconhece, na obra lírica de Anchieta, imaginação viva, o prazer em contar as coisas que vê, a dedicação à língua do gentio. O
estilo destas poesias não será perfeito - acrescenta -, os assuntos não terão grande variedade, facilmente se achará certo tipo
de rudeza em sua imaginação e suas composições, mas, apesar disto, foi grande e único. "As suas
orações possuíam calor, os seus autos tinham frescura de inspiração".
Arthur Motta pensa que os versos do jesuíta representam os frutos
de sua devoção cristã e são importantes como documentos para o estudo de sua ação prodigiosa no primeiro período colonial.
José Aderaldo Castello, que dedicou catorze páginas de seu livro
Manifestações literárias da era colonial à análise da obra literária de Anchieta, conclui que esta figura de jesuíta
impõe-se como a de um precursor-iniciador de "alguns aspectos e tendências ou temas de nossa
tradição literária, particularmente durante a era colonial da formação do Brasil".
Eduardo Portella, em livro já citado, explica que existe uma
característica que individualiza a lírica do taumaturgo. Anchieta, ao exprimir seu "universo
interior, seus sentimentos pessoais e íntimos, não se mostra adscrito a qualquer tipo de individualismo, porque cede à chamada
do que no poema pertence menos ao eu que às circunstâncias. É este, com efeito, o principal elemento identificador
da poesia de Anchieta".
Em geral, como acabamos de ver, a crítica brasileira tentou
apresentar-nos a figura de Anchieta, do ponto de vista estético, como poeta de grandes qualidades. Porque isolaram suas criações
do contorno ibérico de seu tempo. Quase todos tiveram o cuidado de não comparar a produção poética do canário com a que então
era abundante na Península, e se limitaram a circunscrevê-la ao meio do qual surgia. Os menos tímidos, como o Padre Gonzaga
Cabral, puderam afirmar que em musicalidade e flexibilidade rítmica superava a Gil Vicente.
Mas o que interessou à maioria dos críticos é o seguinte: que
Anchieta foi o criador da poesia brasileira e que, por sê-lo, virtudes estéticas que em qualquer poeta da Península
desapareceriam, nele brilham com luz diferente. As análises foram mais intuitivas que científicas, mais afetivas que racionais.
Chegou-se até a extrair uma poética brasileira, de extração nacional, de várias passagens da obra, principalmente de sua
produção em tupi e em português, sem que se tenham detido suficientemente na produção em espanhol e em latim, que é, em nossa
opinião, onde se pode achar o maior lirismo do poeta. A poesia em português, salvo poucas exceções, e a poesia em tupi, é mais
comprometida, como é do gosto de hoje dizer, que a escrita em latim e castelhano.
Todos, porém, estão de acordo nisto: que Anchieta é um poeta que
pertence, por inteiro, à literatura brasileira, tanto através de suas composições em português e tupi como através das que
compôs em latim e castelhano. Somente um historiador o separou deste esquema, como separou outros escritores brasileiros que não
nasceram nestas praias. Anchieta pertence, sim, à literatura brasileira por sua capacidade de recriação e interpretação do meio,
do qual extrai o material de sua expressão.
Alceu Amoroso Lima, em sua Introdução à Literatura Brasileira,
acentua, com razão, que mais que a língua, que é um simples instrumento, o que importa para a caracterização de uma literatura é
a experiência humana que ela transmite, o sentimento, a visão de uma determinada realidade. Sílvio Romero já havia afirmado que
não é a língua, nem o lugar de nascimento, critério decisivo para explicar a nacionalidade literária, tese que tantas vezes
defendeu Fidelino de Figueiredo ao enfrentar-se com o bilingüismo dos escritores portugueses do Século de Ouro, ante a
obstinação de um homem como Menéndez y Pelayo que fazia espanhóis homens como Gil Vicente, Camões e Francisco Manuel de Mello,
embora o ensaísta português não quisesse inteirar-se das dimensões iberistas que o polígrafo santanderino oferecia a seus
raciocínios.
"O que faz que um autor participe de
uma literatura nacional - diz Sílvio Romero - é sua integração
espiritual nessa literatura". Pois bem, pode aplicar-se isto ao Padre Anchieta? Até que ponto o
missionário de Piratininga poderá integrar-se numa literatura, ou melhor, num momento histórico literário no qual ele é ao mesmo
tempo começo e apogeu? Porque antes de Anchieta não existia no Brasil movimento literário algum em idioma românico. Por
conseguinte, para explicar o nacionalismo literário de nosso autor, o critério de Sílvio Romero a que acabamos de nos referir
não tem validade por razões temporais.
Mas não convém duvidar daquilo que a maioria dos críticos afirmou:
que Anchieta pertence à literatura do Brasil tanto por sua obra em português como por sua obra em latim e castelhano. E pertence
a esta literatura porque, desgalhado do tronco peninsular ibérico, afincou tão profundamente na paisagem espiritual do Brasil as
suas raízes sentimentais que sua alma se empapou de brasilidade, o que lhe permitiu uma ação catequística e política, no mais
limpo sentido da expressão de dilatadas proporções.
A poesia de José de Anchieta representa, pois, o ponto de partida
esplêndido de uma literatura que bem logo vai começar a encontrar seus "momentos decisivos", como diria Antônio Cândido. É
preciso levar em conta que o autor do poema A Santa Inês compõe suas trovas atento a esquemas que, a essas alturas,
tinham sido completamente superados já na Península Ibérica. E ao tentar poetizar longe dos círculos criadores peninsulares, em
plena madureza estes, necessariamente vai processar-se um retrocesso, porque é preciso adaptar a uma nova paisagem social,
semi-selvagem, fórmulas apropriadas para este fim. E estas fórmulas são oferecidas pela poesia lírica de tipo tradicional ainda
comprometida com a Idade Média.
Anchieta pôde, pois, ter sido um grande poeta. Não lhe faltou
capacidade para isso. Mas foi impedido por seu compromisso pedagógico. Não lhe faltaram as intenções e a disposição. Faltou-lhe
o estímulo de meios mais avançados. O isolamento, por um lado, e seus propósitos catequísticos, por outro, limitaram suas
possibilidades expressivas. Isto o conduziu à criação de uma poesia de estruturas muito elementares, espontânea e natural, sim,
mas defeituosa muitas vezes, principalmente do ponto de vista da forma.
A obra poética de Anchieta está a exigir um estudo estilístico,
uma meditação profunda, para que se possa encontrar o vértice do seu verdadeiro valor dentro da literatura brasileira. Um estudo
estilístico e temático, bem como uma análise das fontes. É evidente que no curto espaço de uma conferência ninguém ousaria levar
a cabo semelhante tarefa. Mas não podemos deixar passar a oportunidade de observar que, do ponto de vista da língua, o material
que esta lírica oferece é considerável, uma vez que o poeta compôs em quatro idiomas.
Os poemas em tupi são tão importantes que, se nos faltassem,
desconheceríamos alguns aspectos curiosos dessa língua. Anchieta chegou a escrever, como se sabe, uma Gramática tupi. A
sua obra em latim prende-se diretamente à tradição poética escolástica, que o aproxima a alguns humanistas do Renascimento. Mas
percebe-se por baixo o eco dos escolásticos da Idade Média, adscritos aos monastérios famosos daquele tempo. O poema à Virgem,
escrito nas areias de Iperoig, é uma das suas obras-primas, extraordinário esforço de mais de cinco mil versos e uma das maiores
alturas a que chega a poesia mariana em latim durante a época em que se produziu. Poema tardio também, porque o latim
eclesiástico já fora suplantado, definitivamente, pelas línguas nacionais.
As composições em tupi estão mais próximas da cultura do folk
que as restantes em outras línguas. Se, contudo, deixando essas de lado, considerarmos as escritas em português e em castelhano,
devemos reconhecer que existem diferenças temáticas e estilísticas. Do ponto de vista estético, parecem-me inferiores as poesias
em português, salvo exceções. No que diz respeito à intenção, os poemas em português estão mais próximos dos escritos em tupi.
Têm intenção catequizadora evidente. E os poemas em tupi, não os salva nem a versão defeituosa do Padre João da Cunha nem a boa
de Maria de Lourdes de Paula Martins.
Os poemas do Padre Anchieta em língua portuguesa ajustam-se a
cânones bastante primitivos, bem mais primitivos que os espanhóis. Todos os críticos têm reconhecido a clara filiação
catequética dos mesmos. Aquela simplicidade toda do sistema de imagens e metáforas, muito pobre, elementar, dessas poesias - por
exemplo, a dedicada ao Santíssimo Sacramento - é a única coisa que produz certo encanto em determinados momentos. A ode ao
Santíssimo Sacramento, de claros propósitos litúrgicos, destila, às vezes, a fragrância de velhos tempos. Mas o sentido
pedagógico acaba por deitá-la a perder. Poemas que correspondem àquele âmbito de tendências medievais, cujos andaimes estéticos
se submetem a estruturas didático-morais.
Até formalmente, um poema como este dedicado ao Santíssimo
Sacramento nos traz à memória um mundo ultrapassado, esse imenso acervo de poesia alegórico-didática e moral de cunho litúrgico.
Não está, contudo, tão falta de recursos que não vibre nela, de vez em quando, certa gradação de afetos, principalmente quando o
poeta passa do plano da invocação para o da explicação do fenômeno eucarístico. Anchieta busca avidamente a especificação do
mistério. E rodeia a matéria com afetos, até chegar ao centro da convicção. Quando se processa a ascensão ou avanço místico,
irrompe um rudimentar mundo metafórico, como nestas estrofes, por exemplo:
Ar fresco de minha calma,
fogo de minha frieza,
fonte viva de limpeza,
doce beijo.
Mitigador do desejo,
com que a vós suspiro e gemo,
esperança do que temo
de perder.
Pois não vivo sem comer
como a vós, em vós vivendo.
Viva a voz, a vós comendo
doce amor.
Enquanto que a maioria dos poemas em língua portuguesa se inspiram
na Virgem Maria e na vida de alguns santos, mostrando o júbilo da chegada de alguma imagem às primitivas vilas brasileiras, os
poemas em espanhol se inspiram, geralmente, nos feitos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Há um vaivém temático e argumental do
gótico ao românico, e a filiação medieval destes poemas é mais clara. Não errou o alvo o crítico Eduardo Portella quando se
referiu ao primitivismo do poeta. Até as intenções dramáticas da maioria destes poemas são boa prova disto. Porque essas poesias
de Santos são poesias com assunto, nas quais o sentido programático e doutrinário está patente.
Exemplos típicos do que acabamos de dizer são os versos dedicados
a São Maurício, a Carta da Companhia de Jesus ao Seráfico São Francisco, À Santa Úrsula, ao Dia da Assunção, entre
outros. O argumento de São Maurício reaparece na glosa intitulada Villa, canto de louvor, como outros, à chegada de uma
imagem de Santa Úrsula à Capitania. Este sistema de glosas é constantemente utilizado pelo poeta, em suaves quintilhas ou
redondilhas. E o apóstolo de Piratininga revela-se um genuíno jogral medieval da Virgem à maneira de Afonso X, o Sábio, Gonzalo
de Berceo, Gautier de Coincy ou Vicente de Beauvais.
Há ocasiões em que ao afâ catequético se mescla certo sentimento
patriótico, de orgulho da terra, de respeito à Capitania. Não se deve esquecer que Anchieta pertence à Ordem de Santo Inácio e
que, portanto, a sua missão de catequista não deixa de estar acima de qualquer outra aspiração, no momento em que os esforços da
Contra-Reforma se faziam sentir em todos os lugares. O diálogo elementar entre forças do bem e do mal, entre anjos e demônios, é
um recurso dramático que esteriliza bastante a ação poética, mas enaltece a dramática, e é uma antecipação de processos barrocos
de convicção.
Se em algo se ergue Anchieta a alturas universais é através da
cândida doçura popular de alguns dos seus poemas, que estremeceriam de júbilo os fiéis. Boa mostra disto oferece-nos este
poemeto dedicado ao Padre Visitador Bartolomeu Simões Pereira, onde se lê:
Para que queres andar,
Periquito tangedor?
Onde vais tão apressado,
Periquito tangedor?
E que não faltou a Anchieta graça e donaire para dominar os seus
ouvintes - porque toda a sua poesia tem tom jogralesco -, para chegar ao centro do popular, nem a ponta suficiente de
humor para dosar os afetos, demonstra-o sua célebre poesia O pelote domingueiro, embora se tenha discutido a paternidade
da mesma. Este humor e esta finura, estilizados no poema que é talvez um dos melhores do Brasil-colônia, aquele intitulado: A
Santa Inês, é característico dos melhores momentos líricos do Padre Anchieta.
As poesias em tupi não são tão desprovidas de interesse que não se
perceba nelas certo espírito nativista embrionário, com uma débil e inicial acentuação da paisagem, o que faz com que não seja
absurdo afirmar que o apóstolo de Piratininga foi um dos primeiros poetas e escritores que levantaram o material temático do
Romantismo, elevando o selvagem e a abrupta paisagem americana a categórica estética. Como poderiam ter agradado Rosseau, se os
tivesse conhecido, estes versos:
Aqui estão os selvagens
que vimos hoje do mato
Inda que somos mui toscos
todos vimos a festejar-vos.
Não se deve esquecer que Fagundes Varela, em 1871, se inspirou na
figura de Anchieta, num dos seus poemas mais longos - Anchieta ou o Evangelho das Selvas:
... envia, oh, mestre,
envia-me o segredo da harmonia
que levaste contigo!
com o que, segundo Antônio Cândido, no seu livro Formação da
Literatura Brasileira, dilata o território poético através da reconquista espetacular da poesia religiosa do venerável
taumaturgo. Mais de um crítico quis encontrar semelhanças entre estes versos de Musset, que vamos citar a seguir, e a última
redondilha da ode ao Santíssimo Sacramento. Diz Musset a Ninon: "La nuit, quand de si loin le monde nous sépare... J'ouvre
comme un trésor, mon coeur tout plein de vous". E escrevera Anchieta:
Quando na minh'alma entraes
e d'ela fazeis sacrário
de Vós mesmo é relicário
que vos guarda.
Poder-se-iam respigar facilmente em outros poemas vislumbres ou
antecipações românticas, como no que se intitula Reritiba, no qual encontramos este elogio de aldeia que nos lembra
célebres versos de Casimiro de Abreu:
Reritiba é minha terra,
aldeia mui virtuosa.
Mas se se podem encontrar contactos com o espírito que depois
insuflaria o Romantismo, muitos mais se poderiam encontrar com o espírito e formas da poesia dos grandes místicos espanhóis, dos
quais esta poesia está a um passo, embora padeça imperfeições que derivam, sem dúvida, da ausência de experiências místicas
concretas no poeta. Apesar disto, existem algumas cantigas em tupi que têm a entonação do júbilo místico, e há estrofes que
lembram algumas de Santa Teresa, como esta:
Com saudades do menino
eu deixei a minha casa.
Vinde, senhor pequenino,
de minha alma fazei morada.
Falou-se bastante do provável misticismo da lírica do Padre
Anchieta. E para entender bem este capítulo, é preciso passar do domínio do português para o do espanhol. É nas poesias em
espanhol que se podem descobrir, creio eu, vislumbres do bom poeta que José de Anchieta desejava ser. Tanto pelo domínio da
forma, como dos materiais indispensáveis à construção do tema, o poeta se alça a maior altura nestas poesias que nas outras.
Escreveu estes versos em castelhano para si mesmo, construindo-os a sós com sua solidão.
Ao examinar este capítulo, deparamo-nos, sem dúvida, com um belo
monumento da lírica peninsular, aquele representado pelos poetas das cortes de Juan II, Enrique IV e dos Reis Católicos. Alguém
viu na poesia de Anchieta formas e espírito do Cancioneiro de Resende. Mas é preciso ir mais longe. O temperamento dramático de
Anchieta se aproxima muito ao de Juan del Encina e ao de Lucas Fernández, bem como, no que se refere às formas poéticas, se
coloca ao lado dos anti-italianizantes, ao lado do tradicionalista Cristóbal de Castillejo. Muitos dos poemas em espanhol, e
também em português, são dramas embrionários ou sementes de dramas. O espírito do mistério e do auto medieval pode ser neles
pressentido, e um eflúvio quase místico emana dessas formas elementares.
Se Anchieta, repetimos, não conseguiu alçar-se aos cumes do
universal foi, em primeiro lugar, por falta direta de experiências místicas, e, em segundo, por ter estado sempre demasiado
preso aos objetivos da catequese. Mas nele mais vale a intenção que a concretização, e para as letras do Brasil não deixam de
ser esplêndidas estas experiências.
Dizíamos, pois, que é, talvez, nos poemas em espanhol que se podem
encontrar as mais belas expressões líricas de Anchieta; o que, aliás, outros críticos já reconheceram. O primeiro poema da já
citada edição de Maria de Lourdes Paula Martins, intitulado El buen Pastor, é um belo exemplo da possibilidades líricas
do nosso poeta. Poema de clara entonação mística, aproxima-se bastante a outros de corte semelhante dos grandes místicos
espanhóis do momento. Nele, a forma é mais perfeita que na maioria dos poemas escritos em português. Há nele o domínio do
mecanismo lingüístico, e a sua originalidade se fundamenta na simplicidade sem rebuscamentos e na ternura espontânea. O mesmo
ocorre com a composição intitulada Jesus e o pecador, na qual se destacam as famosas antíteses dos místicos:
Yo nací porque tú mueras,
porque vivas moriré,
porque rías lloraré
y espero porque esperas,
porque ganes perderé.
As formas tornam-se mais breves. Acentua-se a ascensão mística. A
fronteira entre o popular e o litúrgico é mínima. E é nestas poesias de arte menor que Anchieta proclama a sua clara estirpe
popular e tradicionalista, se tomamos como ponto de apoio a lírica peninsular. Porque quando se agarra às estrofes de arte
maior, fracassa totalmente. Anchieta não dominava o decassílabo italiano. Prova disto é o poema Desconsolada, no qual
encontramos versos de 11, 12 e 13 sílabas. O ritmo é pesado, e não tem melodia agradável.
São, pois, os metros ligeiros, quintilhas e redondilhas, fáceis
glosas à maneira dos fins da Idade Média, o forte de Anchieta. A Cantiga que vem depois do poema Desconsolada, e
que se inspira neste, prova a diferença que vai de usar Anchieta metros populares a usar metros eruditos ou cultos. Anchieta
sente-se mais à vontade no terreno popular, como dissemos, no terreno das redondilhas, maior e menor. A cantiga há pouco
referida respira o profundo espírito democrático do autor. Quando o poeta vai a outras esferas, malogra.
Anchieta não é, portanto, o poeta místico que alguns têm querido
que fosse. É um poeta religioso. O místico verte as suas experiências, o que fica depois de ter experimentado o encontro, em
circunlóquios coalhados de imagens e de sutilezas de difícil compreensão. O religioso expressa um louvor, reza, tem afãs
moralizantes. Está ao lado da pedagogia. E o místico oferece matéria à Teologia. Um poema como o intitulado Enhorabuena
demonstra o que queremos afirmar. E melhor ainda, demonstra-o aquele intitulado Enamorados, escrito em liras à maneira de
Fray Luis de León e de San Juan de la Cruz. Coteje-se um fragmento do Cântico Espiritual, deste úiltimo, com um fragmento
de Anchieta:
Esposa muy querida,
yo sólo quiero ser de ti amado,
pues muero, por tu vida,
y sy crucificado
para te dar, sin fin, glorioso estado.
Embora tal poema seja dos que estão mais próximos dos poemas
místicos de San Juan, com todos aqueles ingredientes que se vêm arrastando através da literatura desde o Cantar de los
Cantares, falta a Anchieta a vivência da união, que encontramos nestes versos de San Juan de la Cruz:
En soledad vivia,
y en soledad ha puesto ya su nido,
y en soledad la guía
a solas su querido,
también en soledad de amor herido.
Anchieta não conseguiu alcançar aquele ponto culminante e preciso
em que os valores da intuição poética coincidem com exatidão com os valores de genuína expressão correspondente. Há quase sempre
nele um desequilíbrio em favor do conceito. Por exemplo, no poema Enhorabuena, o gesto sublime da Crucificação não
encontra transposição poética individual, intransferível e, portanto, universal, por apegar-se o poeta em excesso ao significado
literal litúrgico.
Não se pode negar que estejam ausentes da poesia de Anchieta
certos anseios alcançados. Mas são poucos. Vale mais a semente que a espiga. O embrião não chega a desenvolver-se por completo.
Falta concentração. Há demasiada concessão ao povo. Há demasiada catequese. Historicamente, não cabe dúvida quanto ao grande
valor dos seus poemas. Mas esteticamente, salvo muito poucas exceções, os acertos são superficiais.
O poeta deleita-nos e enleva-nos quando se cinge aos recursos
tradicionais da composição do verso. Quando se aproxima do molde do vilancete em poemas como Prima e De Nossa Senhora;
quando oferece esquemas dramáticos rudimentares, como no Diálogo de Cristo con Pero Dias, ou se prende a fórmulas de
corte trovadoresco, como no poema El ciego amor, transplantando ao divino, o que se costumava fazer em sua época na
Península, fórmulas amorosas platônicas. De vez em quando assoma o mesmo tipo de didatismo moral dos poetas da Corte de D. Joan
II ou do Cancioneiro de Resende. E não andam longe da primorosa poesia de Jorge Manrique estas estrofes de Cantiga:
Los que muertos veneramos
por su Dios,
si no los seguimos nos
qué ganamos?
Assim, Anchieta, para expressar o seu universo interior, os seus
sentimentos pessoais, não consegue tornar-se independente das circunstâncias que costumavam motivar os seus versos. Cede ao
chamado do que no poema pertence menos ao eu que às circunstâncias. Eduardo Portella caracterizou bem isto ao afirmar que ao
taumaturgo se "ajusta melhor o título de homem-ponte entre um medievalismo e o renascimento
peninsulares...", embora Anchieta possa "ser considerado ainda um
legítimo poeta primitivo: naquele sentido de que, na estética do primitivo, interferem elementos didáticos e religiosos".
Não faltou a Anchieta temperamento criador, condições para o
encontro. Mas, examinadas com atenção as suas obras, em conjunto, observa-se que o trai o momento sublime do ajuste, como
dissemos, esse ajuste do intuído com os materiais exatos e correspondentes da expressão, isso que é o centro único e
intransferível de toda comunicação lírica de ressonância universal. Faltou-lhe o chamado definitivo da graça poética. Não lhe
faltou, ao que parece, o chamado da graça sobrenatural, porque a sua missão apostólica, no que se refere à história do Brasil,
está por cima de qualquer outro valor. A santidade está por cima da poesia temporal. É a poesia integral. E esta foi conquistada
pelo venerável Padre José de Anchieta à força de desprendimentos, de trabalhos, de dar-se aos outros, de buscar incansavelmente
possibilidade de comunicação.
Para a formação da nacionalidade brasileira e a fundação de uma
metrópole como a de São Paulo, é importantíssima a intenção, porque o resultado está por cima da Estética. A poesia de Anchieta
como material de cultura e civilização, vale, pois, tanto que, se nos faltasse, se abalariam os alicerces da formação da Pátria
brasileira.
[*] Palestra proferida a 30 de junho de 1965, no Pátio do Colégio, na capital paulista, no ciclo
de conferências promovido pela Comissão Nacional do Dia de Anchieta. |