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CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - LYDIA
Lydia Federici (4 - crônica 252)

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Clique na imagem para voltar ao índice desta seçãoEm mais de três décadas de atuação diária, Lydia Federici publicou milhares de crônicas no jornal santista A Tribuna. A Hemeroteca Pública Municipal de Santos criou um Espaço Lydia Federici, onde estão expostos desde sua máquina de escrever até os troféus desportivos, bem como os organizados álbuns de recortes reunindo todos os seus textos publicados. Esta crônica foi publicada em 27 de outubro de 1962 em A Tribuna (ortografia atualizada nesta transcrição):
 
GENTE E COISAS DA CIDADE

Quem trocaria?

Lydia Federici

E saiu. Saiu finalmente. Saiu na quarta vez. Sabíamos que, num descuido passageiro dos céus, o desfile sairia. Era pegar uma trégua. Começar. Começado, os santos, entretidos com sua beleza, não se lembraram de atrapalhá-lo com chuva. Foi o que aconteceu. Festa do Boqueirão, desfile de fanfarras. A beleza começou. E foi até o fim. Bonita de dar gosto. É verdade que não foram milhares de pés que, macia ou duramente, pisaram o asfalto da avenida da praia. Foram somente centenas de braços e de bocas a bumbarem, a clarinetarem a zona do Boqueirão. Mas que beleza, minha gente. Quanta beleza nessa mocidade colegial de Santos.

Um julgador severo, inflexível, duro, consciencioso ao extremo, de olhos milimetricamente perscrutadores, diria, torcendo o nariz:

"Muito bonito. Mas não perfeito". E, esnobemente, citaria o garbo, a paixão fanática, a riqueza de imaginação, a seriedade mística, a coorte infindável de desfiles presenciados na Alemanha, em Israel, nos Estados Unidos, na Espanha, na Rússia e na China. Lá é que a mocidade sabe apresentar-se.

Bolas! Sabemos de tudo isso. Mas, apesar de sabê-lo, e de, sob certo aspecto, admirá-lo, gostamos muito mais, infinitamente mais, da forma por que se apresenta a nossa mocidade. Brasileiro, felizmente, é brasileiro. Não perdemos a mania de macaquear. Mas, na nossa imitação, botamos logo, logo, um pouco da nossa alma. De nosso jeito de ser. Marchamos a bambolear-nos. Rufamos os tambores. Mas o tam-tam toma, no fundo, um ar de samba. Que nos anima a ir para a frente. Não em marcha. Mas numa dança alegre. Dança de vida. Dança de alegria.

Foi bonito o desfile das fanfarras colegiais no Boqueirão. Porque foi nosso. Apresentado pela nossa mocidade. E apreciado, com o coração aberto, pela nossa gente. Feito bem à nossa moda. Com alegria e prazer. Rapazes e garotas atroando, juntos, os ares. Eles, essencialmente rapazes. Vigorosos. Aprumados. Não se furtando, porém, dentro da formação disciplinada, a arriscar uma piscadela marota às meninas bonitas que os aplaudiam. Elas, a marchar, e a tocar, de forma visceralmente feminina. Graças a Deus. Com graça. Movimentos redondos e macios. inconscientemente mais dengosas diante dos aplausos maiores.

Quem se apresentou de forma mais impressionante? E quem, honestamente, vai poder dizer que foi mais, ou menos, o Montserrat que o Luiza Macuco? Como saber o que mais nos enterneceu? Se foi a pequenina fanfarra do Carmo ou a doçura das gaitas do Liceu São Paulo? A evocar-nos, de leve, com saudade, o "cai, cai, balão"? Ou se foi todo o impressionante ar de festa do Tarquínio? A comemorar, na festa do Boqueirão, a festa de seu 40º aniversário? Como escolher entre o Santista e o Canadá? Ambos a arrepiar-nos até a medula dos ossos?

Não. Que importa saber qual o colégio que mais impressionou? Nessas festas, uma só coisa interessa. Ver a beleza da nossa mocidade. Como, também, uma só coisa fica. Sentir um orgulho cheio de carinho por tudo isso que é nosso. Feito à nossa moda. Quem trocaria essa beleza? Só louco!


Imagem: reprodução do álbum de recortes de Lydia Federici, no acervo da Hemeroteca Municipal

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