Os automóveis ocuparam o lugar das áreas verdes, porque os 3 estacionamentos
do projeto original ofereciam pouco mais de 100 vagas
São 97 prédios e mais de três mil apartamentos
A história do Conjunto Habitacional Humberto de Alencar
Castelo Branco tem muito a ver com a Revolução de 1964. Só para dar uma situada geral: em 64 os trabalhadores perdem boa parte dos direitos
conquistados em anos e anos de luta. Há muita insatisfação e revolta principalmente entre as categorias portuárias de Santos. O governo fala em
garantir moradia para o povo, cria o Banco Nacional da Habitação (BNH) e os operários começam a sonhar com a casa própria.
E é justamente em Santos que nasce a primeira cooperativa habitacional, que resultou da união de quatro grupos:
sindicatos portuários, Metalúrgicos, Orla Marítima e União Sindical. Número de inscrição no BNH: 001.
Uma vez formada a cooperativa, o passo seguinte foi a aquisição de uma área de 146 mil 792 metros quadrados, que
pertencia ao INPS e, em outros tempos sediou o Jóquei Clube de Santos. Em 1967, começa a surgir um conjunto residencial com obras a cargo das
construtoras Ecel e Guarantan e sob a supervisão do Instituto Nacional de Orientação às Cooperativas (Inocoop).
Os arquitetos Oswaldo Correa Gonçalves e Paulo Buccolo Ballario elaboraram o projeto que resultou em 97 prédios
de quatro pavimentos, num total de 3.288 apartamentos. São 208 apartamentos com um quarto e demais dependências; 1.600 com dois quartos; 912 com
três; e 568 também com três quartos, só que estes, do chamado plano quatro, são mais espaçosos.
Segundo os diretores do Centro Comunitário, moram no conjunto quase 17 mil pessoas, sendo 3.800 crianças; três
mil na faixa entre 12 e 17 anos; três mil entre 18 e 20 anos; 5.500 entre 32 e 60 anos; e 700 com mais de 60 anos.
Antigamente, o Castelo Branco formava um só bloco e um síndico respondia por todos os 97 prédios. Hoje, está
dividido em 12 blocos - Argentina, Chile, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana Inglesa, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e
Venezuela - cada qual com seu síndico.
Em 1970 chegam os primeiros moradores: pedra e lama nas ruas - Em 1970 foram entregues as primeiras
unidades e os moradores depararam com ruas cheias de lama e pedra e sem iluminação. Para se instalar os primeiros telefones foi um custo, sem
contar que o pessoal constatou na prática que os três estacionamentos comportavam pouco mais de 100 carros. E como uma conseqüência natural, os
carros tomaram o lugar das áreas verdes.
Enquanto os moradores chegam e se debatem com os primeiros pequenos problemas, imóveis das imediações se
desvalorizam. Donos de várias casas próximas trataram de elevar os muros ou colocar cacos de vidro sobre eles. A simples idéia de proximidade com
um conjunto popular assustou muita gente.
Hoje, passados 11 anos, a situação já não é a mesma: as casas readquiriram seus reais valores e todos parecem
convencidos de que os moradores do conjunto não são bichos, não pretendem sair assaltando nem estuprando ninguém.
E o comércio das imediações, até então muito capenga, ganhou forte impulso diante da perspectiva de contar com
pelo menos 16 mil compradores potenciais. O pessoal pode até escolher entre as seis padarias, três supermercados e duas farmácias, distribuídos
pelas avenidas Pedro Lessa e Epitácio Pessoa e ruas Alexandre Martins e Pirajá da Silva. Sem contar que há feira todas as terças-feiras, na
Vergueiro Steidel.
Transporte coletivo também não é problema, pois nas proximidades circulam ônibus das linhas 61, 49, 54, 93, 39,
29, 4 e 50, sem contar as linhas de seletivo.
Colégio também tem, dentro do próprio Castelo Branco. Mas, em compensação, há apenas um ponto de táxi. É claro
que, com as coisas caras do jeito que estão, ninguém pode se dar ao luxo de andar de táxi a toda hora. Mas, levando-se em conta os casos de
emergência e a população, um único ponto é realmente pouco.
União, solidariedade e festas conjuntas bem no meio da rua - Por sorte, a solidariedade conquistada
nesses 11 anos de convivência compensa a falta de táxis. Só um exemplo: se há alguém doente ou alguma mulher grávida, os vizinhos ficam de
sobreaviso e não reclamam se precisarem acordar no meio da madrugada para dar uma carona.
E os moradores cada vez mais se juntam para promover festas. A última delas reuniu o pessoal do Condomínio
Bolívia. A criançada dançou quadrilha e até o Leonardo, de apenas dois anos, entrou na farra. Os ensaios aconteceram no meio da rua, sob a
coordenação de Denise, Cely e Dulcinéia. E, em pleno período de festas juninas, já pensavam em montar um presépio no Natal. |