FESTAS EM FAMÍLIA
Papai não gostava de
festas, mas mamãe compreendia o desejo dos filhos e as organizava. A vitrola era levada para a grande sala de aula, que oferecia um bom espaço para
a realização de uma reunião dançante. Com sua extraordinária habilidade culinária, preparava algumas guloseimas para oferecer aos visitantes.
Nas festas juninas, também promovíamos comemorações que traziam alegria a todos.
Naquele tempo era permitido soltar balões, pois não havia os impedimentos de hoje.
Meus irmãos levavam dias confeccionando lindos balões coloridos que, quando soltos,
faziam com que ficássemos extasiados, acompanhando-os até sumirem completamente.
Na avenida dos jambolões eram penduradas lanterninhas feitas de papel de seda, com um
toco de vela dentro. Depois de acesas, davam um alegre colorido ao local.
Mas, para mim, as mais gratificantes eram as festas de Natal. Uma grande árvore era
armada na sala de música, com bolas de todas as cores e outros enfeites.
Na tarde do dia de Natal, reunida toda a família e amigos, iniciava-se a comemoração.
Eu mal respirava de tanta ansiedade! Aguardava a chegada do Papai Noel, trazendo às costas um grande cesto com presentes para todos, além dos que já
estavam colocados no chão, embaixo da árvore.
Começava a distribuição e as exclamações de alegria eram gerais. Mamãe tinha algumas
amigas do tempo de sua adolescência, que, em virtude de terem ficado viúvas, lutavam muito. Mamãe as ajudava bastante e, no Natal, sempre
compareciam com os filhos, que ficavam felizes com os presentes que recebiam.
Durante anos essa cena se repetiu e eu não percebi sequer que o Papai Noel era minha
irmã Tina... O número de pessoas presentes era tão grande, que eu não dava por falta dela.
Certo dia, o Doca, pensando que me prestava um grande serviço, contou-me que Tina é
que se caracterizava como o bondoso velhinho.
Disse até em que local era guardada a roupa, botas e a barba branca. Com o coração
sobressaltado, fui conferir. Era a verdade que eu não imaginava!
Escondi-me num canto da casa e chorei silenciosamente. Alguma coisa se quebrou dentro
de mim, uma coisa tão bonita, tão marcante na minha infância!
As crianças eram bem mais felizes, quando acreditavam no Papai Noel, no coelhinho que
trazia os ovos de Páscoa, na cegonha que trazia os nenês! Quanto encanto se desvaneceu sob o impacto das realidades.
Dizem os estudiosos que a riqueza é uma difícil experiência. Implica em não se
envaidecer com ela, em saber aplicá-la e em não se desesperar quando a perde.
Papai saiu com galhardia dessa árdua prova. Não se envaideceu, soube ajudar a todos os
menos favorecidos, às casas de caridade e, nos vários reveses que teve, portou-se com comovente aceitação.
E, o mais importante, é que tinha uma garra, uma fibra extraordinária. Sempre se
ergueu das várias quedas, com determinação e entusiasmo, conseguindo sua reabilitação.
Acho oportuno contar aqui uma festa de Natal organizada na Vila Pires, em São Bernardo
do Campo. Em razão da pouca idade, eu era sempre uma simples expectadora, poucas vezes podia colaborar, pois eram ainda evidentes as limitações.
Com bastante antecedÊncia, meus irmãos fizeram o cadastro de todas as crianças da
periferia da nossa chácara. Cada um recebeu um cartão, que documentava sua inscrição e garantia o direito de receber um brinquedo.
À frente da casa havia um grande pinheiro, onde foram pendurados os presentes. Cada
criança chegava com o cartão e o entregava a um dos meus irmãos, recebendo então o presente de Papai Noel. Jamais se apagou de minha mente a alegria
que se estampou naqueles rostinhos, muitos deles já sofridos!
Outra comemoração levada a efeito em minha família era o Carnaval, naquele tempo uma
diversão sadia, em que as famílias se irmanavam dentro de igual alegria. Em tempo hábil, mamãe começava a tomar todas as providências. Como não
gostava de Carnaval, papai se isolava em alguma fazenda.
Mamãe ficava só, com todo o trabalho e, principalmente, com a responsabilidade da
família. Alugava dois carros que podiam arriar as capotas. Encarregava a costureira de providenciar os trajes a serem usados.
Adquiria lança-perfumes, confetes e serpentinas. Mandava armar um palanque junto à
grade, onde ficava comigo, que ainda era pequena e não participava dos folguedos...
A um canto, eram colocados os estoques acima referidos, uma tina com gelo para
refrescar guaranás e águas tônicas. Ainda não existia a coca-cola. Uma grande bandeja coberta com alva toalha, era depositária de caprichados
sanduíches.
Na hora do corso, saíam meus irmãos e os amigos convidados, para a grande brincadeira.
O corso se fazia entre o Gonzaga e o Canal 4.
As voltas eram demoradas, pois os carros eram muitos. Como era bonito atirar as
serpentinas nos carros que circulavam em sentido oposto. Todos cantando as músicas carnavalescas.
De vez em quando, empregados da limpeza urbana, munidos de grandes gadanhos, retiravam
a serpentina que se acumulava na pista, chegando a impedir a circulação dos carros.
Quando os carros de nossa família paravam em frente da casa, mamãe distribuía os
pãezinhos e refrigerantes, e renovava o estoque de serpentinas, confetes e lança-perfumes, cujo uso era o adequado.
O corso terminava às vinte e uma horas, na praia. Alguns iam para a cidade, danado
continuidade a ele. Outros preferiam ir para casa, preparar-se para os bailes. Meus irmãos e irmãs iam ao Clube XV, acompanhados por Beatriz e
Clóvis.
Um carnaval totalmente diferente do de hoje. As tradições foram morrendo, os hábitos
totalmente modificados.
FORA DO CASARÃO
A situação do comércio
cafeeiro ficava cada vez mais difícil. Muitas firmas encerraram suas atividades, inclusive a Rodrigues Alves & Cia., premida pelas dívidas que se
acumulavam.
Passou-se o ano de 1934 e, em 1935, papai decidiu que saíssemos do casarão, cujo valor
reverteria para pagamentos inadiáveis. Ele s desfez de todas as suas propriedades. Jamais deixaria de honrar seus compromissos, como sócio que era.
Alugamos uma ótima casa térrea na mesma avenida no nº 55, procuramos nos ajeitar da
melhor maneira possível. Arnaldo e sua família foram morar conosco, uma vez que ele trabalhava com papai e sofreu igual queda.
Mas, quando há harmonia e compreensão na família, tudo se resolve.
Não estivemos ali muito tempo, mas foi uma fase boa, pois os vizinhos eram todos
maravilhosos. Eram os Raposo de Almeida, os Pierry, os Golzi, os Aranha de Rezende, os Salgado. Muitos jovens, como nós. À noite, a turma ia para a
calçada, numa evidente alegria por esse grato convívio.
E quantos casais de namorados! Esses namoros acabaram em casamento. A Andréia Rezende
(Lulu), com Mário Pierry. Marina Pierry, com Francisco Gil. Gilda Raposo, com José Schneider. Maria Raposo, com Eugênio Sadocco. Stella
Caiaffa Esquivel, com Frederico Sandall (Fritz). Eu e o Cyro.
Comecei a namorar o Cyro ainda no casarão. Creio que ele nem saiba ainda onde eu
morava, quando aconteceu um fato extraordinário. Apareceu, na Ponta da Praia, uma enorme baleia, que despertou muita curiosidade em toda a cidade.
A Cia. City colocou bondes extras com reboques, que circulavam
lotados. Eu estava no terraço de cima, no casarão, vendo o movimento, quando deparei com o Cyro no estribo do bonde. Não é preciso dizer que fiquei
pacientemente esperando a sua volta... Tinha eu 14 anos. Como é bom recordar!
Repetidas vezes organizávamos reuniões dançantes, quase sempre na casa dos Raposo, ou
na de Ivone Russel e Herbert Sandall (Tico), recém-casados, que moravam na esquina da Rua Inglaterra.
Nesse tempo, eram afamadas as festas promovidas pelo sr. Luiz Caiaffa, em sua chácara,
no Boqueirão da Praia Grande, no mês de junho. Todos de traje caipira. Eu fazia um vestido de chita, de babados com
bordado inglês, chapéu de palha com grande laço de fita vermelha. Como eram gostosas essas festas, esperadas com grande ansiedade.
Entre essa casa, na qual fomos residir, e o Canal 4, todas as famílias se conheciam.
Eram os Caiaffa, os Ribeiro dos Santos, os Olavo Ferraz, os Bento de Carvalho, os Vahia de Abreu, os Linares, os Sion, os Inácio Pascoal Bastos, os
Del Nero, os Moraes Barros, os Rocha Leite.
Sempre fomos muito amigos da da. Rosa e do sr. Jonas de Campos Pacheco, pais de
Miryam, Waldir e Milene. Eles residiam na Rua Padre Visconti. Quando ainda morávamos no casarão, depois do jantar, eu e Beca aguardávamos o
casal com suas filhas, que iam até o Gonzaga e nos levavam com elas.
No Gonzaga, o costume era os casais se sentarem às mesas do Bar do
Atlântico, saboreando um sorvete ou qualquer bebida. As moças passeavam da esquina da Rua Aymorés (atual Othon Feliciano),
até à esquina da praia, junto à Rua Marcílio Dias. Os rapazes postavam-se na beira das calçadas. Assim se flertava e muitos namoros assim começaram.
Entre eles, o meu...
Na Rua Padre Visconti morava a Hilda Campos, que viria a ser a grande cantora
Leny Eversong. Ainda nessa rua morava o casal Alice França e Frederico Ditt. Seus nove filhos e a Lourdes França, irmã e
cunhada, que acabaram de criar. Formavam uma linda família!
Beca ia aos bailes do Clube XV, com Miryam e seus pais. Eu ainda freqüentava
apenas as matinês. Em 1935, fui ao primeiro baile de carnaval.
Organizamos um bloco. As moças, de marinheiras; e os rapazes, de fuzileiros navais.
Impossível lembrar o nome de todos, mas cito Elias Arlindo Caiaffa Esquivel e Alcino de Carvalho. Quando entramos no salão do XV, ao som da marcha "Aí
vem a Marinha", abriram alas para que circulássemos pelo salão. Uma glória!
Dessa casa, fomos para uma casa muito grande, na Avenida Marechal Deodoro nº 82. Ali
morando, me formei no Colégio São José, noivei, casei e também nasceu o Ciro Júnior. Papai já se levantara da última queda e exercia sua atividade
como gerente da Sociedade Anônima Levy, de onde saiu, alguns anos depois, para ser fazendeiro em Pompéia, próximo de Marília. Sempre no seu devotado
culto ao café.
Na Marechal Deodoro, também tínhamos ótimos vizinhos: os Antônio Medeiros Bulle, os
Clotário de Mello, os Almeida Leite, os Ernesto guerra bem ao nosso lado. Quando a Edith Boturão Guerra sentava ao piano, eu ficava no terraço,
enlevada pelos clássicos que ela executava. Um pouco mais adiante, um casal lindo: Mafalda e Emílio Barrionuevo, recém-casados.
Do outro lado da nossa casa, morava uma família que dava pensão para rapazes. Ali
residia o Orlando Afonso Mendes, colega de meu irmão Orlando no Ginásio Santista. Continuamos amigos até hoje.
Foi nesse período que Orlando se casou com Mary de Lourdes Las Casas, o Olavo com
Velsia de Souza e Maria Isabel com dr. Waldomiro Isique.
Nessa época, passamos a participar de outro grupo. Eram as Burgos, as Peirão, a
Lourdes Santos, o Mario e a Heleninha Guerra. Naquele tempo, Yedda era apenas uma garotinha, não participava de
nossos programas. Mantemos hoje uma grande afinidade, somos muito amigas, e a diferença de idade parece ter desaparecido. Quando nos encontramos,
muitas vezes recordamos as reuniões na casa do dr. Burgos, na Rua Djalma Dutra.
Hoje, parece-nos que a solidariedade é construída em termos convencionais, mas,
naquele tempo, ela era espontânea. Lembro-me de uma noite em que havia uma festinha na casa do dr. Guerra, na Rua Timbiras. De repente, chega a
notícia da morte súbita do sr. Quíncio Peirão, que era prático de barra.
Imediatamente encerramos a reunião e fomos para a casa da Laura Peirão, casada com o
sr. Germano Melchert de Castro, na Rua Euclides da Cunha. Ali seria o velório. As filhas do casal, Maria Helena e Maria Heloísa, estavam doentinhas,
acho que era catapora, e começaram a chorar muito, vendo aquele movimento inusitado. Fui ao quarto delas e procurei acalmá-las, contando histórias e
lhes dando carinho. Ali passamos até madrugada, solidários com a família amiga.
Voltando à trajetória do casarão, devo dizer que ele passou a ser propriedade da Cia.
Sul América de capitalização, que a alugou, ali se estabelecendo uma pensão, por cerca de dois anos.
Foi quando surgiu o senhor Antônio Canero, um espanhol que fizera fortuna negociando
ferro-velho. Encantado com o casarão, veio a adquiri-lo. Papai teve idéia de lhe oferecer os móveis, que estavam guardados e poderiam ser facilmente
readaptados na casa.
Mas o sr. Canero não teve noção de como aqueles móveis valorizariam a propriedade, não
se interessando em ficar com eles. Aos poucos, eles foram distribuídos entre os familiares.
A família Canero zelou pelo imóvel com muito carinho, conservando-o na sua
originalidade. Apenas acrescentaram uma garagem, no fundo do terreno, e uma caixa d'água, logo depois da cozinha.
Quando o sr. Canero faleceu, sua viúva, da. Luiza, manteve a casa até 1972, quando
partiu na grande viagem. A propriedade passou a pertencer aos sete herdeiros. É natural que eles quisessem vendê-la, para que cada um pudesse dispor
de sua parte. Mas seu valor era alto, dificultando a sua negociação.
RAZÕES PARA PROSSEGUIR
Encerro, neste capítulo, a
primeira fase deste livro, em que transmiti aos leitores a época áurea do famoso casarão branco. Quem o leu com interesse, sentiu certamente a
beleza que se respirava no lar de uma família muito unida por nobres sentimentos. Uma família que foi feliz nos bons tempos e que soube enfrentar
com galhardia os maus momentos. Que não vacilou na fé em nenhum instante, confiando em Deus, que jamais nos desampara.
Abri meu coração e o arquivo das minhas lembranças, para que vocês pudessem participar
de tantos fatos marcantes de minha família. Numa retrospectiva, torno a ver na tela do meu pensamento o nome de todos que foram citados em minha
narrativa. Alguns já se encontram em dimensões mais elevadas. Outros, porém, continuam percorrendo os mesmos caminhos. Plagiando o pensamento de
minha amiga Yedda... "misturando as marcas de nossos automóveis".
E agradeço a Deus por ter me dotado de tão boa memória, de me conservar ainda lúcida,
para viver a alegria de um passado, que se perde nas brumas do tempo! Agradeço ainda pela felicidade de saber amar o próximo, de valorizar as
amizades. Quando encontro amigos, que durante muito tempo estiveram ausentes, sinto a mesma alegria, o mesmo calor de bons tempos de íntimo e
freqüente convívio.
Felizes os que sabem guardar, no lado esquerdo do peito, esse sentimento grandioso que
desafia o correr dos anos. Quem possui amigos é espiritualmente rico.
São amigos os que nos incentivam para o bem. Emprestam seu calor nas horas frias de
solidão. Enxugam nossas lágrimas com o lenço de seu carinho. Vibram com nossos triunfos. Transformam nossa desesperança em coragem, o amargor da
saudade em doçura, os cardos que nos ferem em flores.
Afinal, precisamos sempre de quem chore, ria e cante conosco. De quem nos enxugue as
lágrimas no momento certo, que nos aceite como somos...
Passaremos à segunda parte, para mim muito dolorosa, que marcou a decadência de nossa
antiga casa, do vandalismo que tão duramente a atingiu. Quero terminar o livro fazendo justiça a todos que batalharam para que fosse salvo e
recuperado. Faço-o, porque hoje o casarão é um patrimônio de nossa cidade e é preciso que sua história seja conhecida pela posteridade. Não se ama
aquilo que não se conhece! É preciso que todos saibam que o casarão sobreviveu pelo amor de muitos. |