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HISTÓRIAS E LENDAS DE SANTOS - OS ANDRADAS
José Bonifácio e a História de Santos

Com base em uma conferência pronunciada a 30 de janeiro de 1953, no Instituto Histórico e Geográfico de Santos, o pesquisador Francisco Martins dos Santos, autor da História de Santos e fundador dos institutos Histórico e Geográfico de Santos e de São Vicente, produziu esta monografia, que apresenta uma interpretação bem diferente dos acontecimentos que cercaram a vida do ilustre personagem santista.

A partir de uma série de perguntas intrigantes, ele desvenda novas facetas e relaciona, citando documentos da época, pontos antes obscuros na história de José Bonifácio, como sua prolongada ausência do Brasil (tramada pelo governo português que já pressentia nele o deflagrador do processo de independência brasileira), e sua "Viagem Mineralógica" de 1819/1820 (tramada para acobertar seus contatos com outras lideranças independentistas paulistas, preparando o processo libertador):

Interpretar para compreender - Interpretação nova do tema velho - José Bonifácio prisioneiro de Portugal, com a Europa por mensagem - Onde aparece um grande ministro português - A falsa mineralógica de 1820 - Uma Independência incruenta, realizada em três anos

A História é, entre as ciências sociais, a que mais pede interpretação para ser compreendida, como um autêntico aranhol de sutilezas. Uma página de História, por isso mesmo, não se pode dizer que seja velha, senão depois de a havermos interpretado e compreendido, pois somente assim deixará de conter novidade para nós. O conceito é elástico entretanto, e se aplica, afinal, a tudo e a todos neste mundo velho em que habitamos, e onde a compreensão é tão necessária à paz, à harmonia e à própria beleza da vida.

Depois que se vive bastante é que se compreende melhor estas coisas, pela experiência, cujos frutos amadurecem tarde e muitas vezes caem sem que os possamos ter colhido.

Poucos são aqueles, em verdade, que perdem tempo em interpretar, para compreender, tudo aquilo que disso dependa para ser completo. Daí a incompreensão de tanta coisa, a imperfeição e a falha de tantas páginas humanas, a fraqueza e subjetividade da História, a relatividade da própria Civilização, a fragilidade do próprio matrimônio.

A figura e a ação de José Bonifácio de Andrada e Silva, como na de Rui Barbosa, equivalente moderno do grande Andrada, e mais algumas assim, de grande porte, ainda estão por interpretar e compreender e talvez não cheguem à tradução total, porque nestes tempos de materialismo e de tendências vulgares, de ambições e utilitarismos sem classe, de comodismos e displicências, o indivíduo valoriza em excesso a hora que passa, sedento de fruí-la, e raramente se importa com os problemas do passado ou com os mistérios da cultura, que não lhe toquem ao corpo e ao interesse.

Assim pensando, foi que escrevemos que José Bonifácio foi a grande, a maior e a mais legítima expressão humana da nossa cidade e a mais autêntica personificação de sua terra. Talvez, por assim pensarem, foi que os deputados Amaral Gurgel e Carneiro de Campos, autores diretos da Lei 122, de 26 de janeiro de 1839, que elevou a Vila de Santos à categoria de Cidade, propuseram à Câmara que o nome Santos fosse, pela mesma Lei, trocado pelo de "Cidade Andradina" ou de "Cidade Bonifácia" - proposta que o plenário recusou, aprovando a continuação do nome antigo e tradicional.

É que ambos - José Bonifácio de Andrada e Silva e a Cidade de Santos - por seus aspectos especialíssimos, por suas sutilezas, por suas características e peculiaridades, por sua capacidade, sua atividade profundamente brasileira, suas ações e realizações, sua utilidade social e sua grandeza, apresentam, em possível cotejo, uma singular similaridade, e tiveram sempre, desoladoramente, a incompreensão, a ingratidão e o castigo, como recompensa aos seus méritos inumeráveis.

A interpretação de ambos, para sua compreensão, os tornará ainda maiores - a cidade e o homem - sendo nosso dever tentar interpretá-los.


Casa em que José Bonifácio nasceu e morou, na Rua Direita, 109, em Santos
Bico-de-pena de Ribs

Como fruto dessas incompreensões, perguntaram-nos, por que razão, se tão santista e tão brasileiro era o Patriarca, pôde ele viver sempre, ou quase sempre, fora de Santos e de seu país (dos 14 aos 55 anos, fora de Santos - dos 20 aos 55 fora do Brasil), como se os desdenhasse ou julgasse melhores as terras estrangeiras, deixando assim de beneficiar sua Pátria e sua terra, em todos os campos de sua imensa competência, com as luzes da sua presença avançada; e a essa pergunta injusta, mas infelizmente comum, que representa o resultado das falhas de interpretação dos nossos fatos e dos nossos bons homens, nós a responderemos melhor aqui, como responderemos ligeiramente ao nosso interlocutor, certos de que prestaremos algum serviço aos que estudam, e adiantaremos alguma coisa em favor da heurística de nosso país.

Perguntaram-nos, ainda, que ligações tivera o Patriarca santista com o ensino em sua Pátria e em sua terra, e que influência teria ele exercido nesse campo da nacionalidade... Ora, enquanto foi colônia (até aí decorreu a vida de José Bonifácio), não pôde o Brasil manter veleidades e instrução e de cultura. Tudo lhe fora sempre impedido, proibido, nesses campos como em outros, artísticos, científicos, literários, econômicos e financeiros, como processo de posse tranqüila pela Metrópole portuguesa, e os poucos que conseguiram estudar, deviam fazê-lo à custa de posses regulares, nos colégios da metrópole, para que fossem, exatamente, poucos e controlados, e não fossem depois formar quistos culturais e filosóficos, na colônia natal, que resultassem em agitações cívicas e doutrinárias ou em movimentos de separação.

O hábito difundido entre os indivíduos comuns, de poucas letras, era o de os pais ensinarem aos filhos o que sabiam e que com tanta dificuldade haviam aprendido e acumulado, ou de estudarem com os frades e padres do seu lugar. Isso explicava a debilidade ou falta de densidade da sociedade tipicamente brasileira até princípios do século XIX, explicando, ao mesmo tempo, a continuação da posse lusitana do Brasil.

Somente depois da vinda do príncipe D. João, fugindo aos franceses, e ainda assim, vários anos decorridos depois de sua chegada, foi que puderam e começaram a aparecer em nosso país os primeiros mestres régios de primeiras letras (como em Santos só apareceram pela altura de 1812), os primeiros artífices autorizados e primeiros mestres de alguns ofícios, como os primeiros sinais de ensino artístico e literário, de envolta com as suas primeiras práticas livres e públicas, e isso, talvez, porque não queria o príncipe que, em seu redor, reinasse a treva colonial, incômoda, importuna, tediosa, que reinara sempre como meio único de suportá-la.

A vida brasileira, realmente brasileira, começou tarde, e quando ela começou iniciou-se a separação, verificando-se, hoje, que o príncipe, depois rei D. João VI, foi, por isso mesmo, e involuntariamente, o grande preparador da nossa Independência política e social.

Como poderia, pois, o nosso grande sábio favorecer diretamente a instrução e a cultura do seu país, fornecendo-lhe ou proporcionando-lhe coisas proibidas ainda, quando ele já passara dos seus cinqüenta anos? Por que não voltara então para isso? Tal seria a pergunta a que anteriormente nos referimos e que responderemos na dissertação, não sem dizer, porém, que entre outras propostas feitas pelo grande Andrada em benefício do Brasil, logo que isto foi permitido, constaram exatamente três ou quatro, que interessavam profundamente à sociedade brasileira e que, se adotadas naquele tempo, bastariam para fazer do nosso país, não em 1930 ou em 1950, mas lá pelos recuados dias de 1850, antes mesmo da grande revolução americana (do Norte), uma nação rica, forte, instruída, progressista e respeitada, tais foram:

"Estabelecimento de uma corrente imigratória, para introdução do colono branco e do braço livre, como libertação gradual dos escravos e a criação concomitante de escolas para seus filhos; criação e nomeação de mestres-escola, para difusão das primeiras letras em todas as províncias do Brasil, principalmente nas mais pobres e mais atrasadas ou abandonadas; criação de missões e postos oficiais de proteção e aproveitamento junto aos índios do Brasil, com estabelecimento de um Conselho Geral e de um Diretório que superintendesse os postos e missões, administrando-os em última instância, com a finalidade de atrair os silvícolas à civilização e seus confortos, incorporando-os depressa à população útil do país, formando vilas e cidades regulares e com fornecimento de mestres de primeiras letras portuguesas para apressar a conquista e divulgação dos ensinamentos geológicos e mineralógicos para incutir no homem brasileiro uma consciência local, o conhecimento e amor à terra, o apego ao chão, à gleba, a noção de Pátria natural com a convicção da necessidade de sua defesa".

Essas quatro propostas, fundamentadas por longos estudos, não pareciam de um homem que estivera tantos anos fora de sua pátria e teriam o mérito de criar de fato, em pouco tempo, um Brasil forte, se de pronto aceitas, e embora fossem muito mais tarde adotadas em parte, tanto pelos poderes públicos como pelos particulares (razão distante do avanço paulista, entre o desenvolvimento dos demais), tiveram, na ocasião, o mérito de apear seu proponente do Poder, e de iniciar as suas desventuras, começando pelo seu desterro ignominioso e miserável, logo em 1824, no mais podre dos patachos ancorados na Guanabara, o velho Luconia, o navio-fantasma que, fazendo água no próprio ancoradouro, foi utilizado propositadamente, pela ingratidão prematura e impulsiva de D. Pedro, para que naufragasse logo à saída no oceano, levando com ele os três irmãos importantes, o que não permitiu o destino, a força astral que velava.

Era o princípio da recompensa a quem tanto fizera para criação da Pátria livre e a quem tanto ainda faria para engrandecimento dela, em sua volta do desterro, com esquecimento das ingratidões e das misérias do seu Imperador e da sua gente, que, infelizmente, não cessariam, continuando mais tarde, até levá-lo a um banco de réu na Justiça comum, como traidor da Pátria, levando-o, por fim, a um exílio voluntário e definitivo, no retiro amoroso e reconfortante da natureza de Paquetá e Niterói, onde ele passaria os últimos dias de sua vida e descontaria as longas queixas da política e dos homens, desfiando o rosário do seu desprezo e do seu nojo nobremente silenciosos.


Casa da Rua Palais Gallieu, 173,  em Bordéus, no Sul da França, 
onde José Bonifácio passou os anos de desterro
Foto: Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, (GB)/RJ, reprodução de Grandes Personagens...

José Bonifácio de Andrada e Silva retirou-se de Santos aos 14 anos; passou a São Paulo; daí passou ao Rio de Janeiro, e aos 20 anos já cursava a famosa Universidade de Coimbra; era o caminho comum aos paulistas chamados às lides da Justiça, da política e do Direito. Quatro anos depois já estava em Lisboa, acompanhado de uma fama literária de bom vulto e com suas tendências científicas, políticas e filosóficas bem declaradas, "alarmantemente bem definidas" diante da concepção portuguesa.

Era isso em 1788, e quando, no calor dos seus 25 anos, traçava ele seus planos de atividade brasileira com a volta a sua pátria, até que o surpreendia uma ordem da Rainha: "Devia embarcar para a França, para uma viagem de estudos, sem tempo determinado, a expensas do Real Erário".

Não discutiu, nem podia discutir; embarcou - imprevistamente realizaria outros sonhos que tinha e que considerava irrealizáveis. Estranhava apenas que o presenteassem assim, "com o que nem ao menos pedira". Não conhecia a Gestapo (N.E.: ao fazer a conferência em 1953, pouco depois do término da Segunda Guerra Mundial, não era necessário então explicar ser esta a polícia política secreta do ditador alemão Hitler, que usou como comparação) de D. Maria I, e não sabia que a sua "história" de moço, e de estudante genial, já estava em mãos da máquina política e administrativa de Portugal, e que, para aquela Gestapo, de profundas cogitações coloniais, que obedecia às aspirações e às ordens do ministro Martinho de Melo, não era conveniente a sua presença no Brasil, naquela altura, nem tão cedo, para que não fosse por lá fazer alguma revolução... Era o seu destino de grande homem, que se cumpria pela mão do egoísmo, do atraso e da ignorância.

Em 1790, José Bonifácio lá estava em Paris. Chegara pouco antes, mas sem tempo de assistir àquela coisa popularmente enorme, que fora a Tomada da Bastilha. Ali, em Paris, respirou ele, de 1790 em diante, e quase ininterruptamente, o ambiente revolucionário da chamada capital do mundo, onde viviam os ecos de 14 de julho, assistindo à maior parte do terremoto social em que desabavam um sistema e uma época, em que ruíam a sociedade feudal, os privilégios dinásticos e da casta, e se proclamava a igualdade do homem perante a lei, abolindo-se a realeza.

Dos 27 anos cheios de violência, de entusiasmos e de sabedoria aos 37, o Andrada temperara seu espírito entre a filosofia de Voltaire, de Rousseau, de Diderot, de Condorcet, de Montesquieu, embebendo-se daquele postulado profundamente humano que era o "Liberté, egalité, fraternité", contaminando-se da demagogia de Marat, exibida em tempos violentos no Ami du Peuple, que um dia haveria de levá-lo à demagogia superior e científica de O Patriota e de O Tamoio.

Toda aquela feérie de eloqüências, patriotismos e atividades que compunha o ambiente da Revolução Francesa, que ia ao verbo inflamado de Mirabeau e da impotência de Robespierre ao desassombro de Danton e Chanier, cumulando na interjeição heróica e musical da grande marcha de Rouge de Lisle (N.E.: a Marselhesa), constantemente ouvida entre o povo, e que agitava ainda mais o mar inflamável das suas idéias e pensamentos, fazia do santista ilustre um jovem inspirado e genial que contemplasse de perto o espetáculo inédito, e para ele necessário, de vulcões em vulcões de chamaradas, sem que o atingissem as lavas que varriam a terra, transformando a terra e o cenário, preparando outro meio para as novas gerações - outro solo para as novas safras...


José Bonifácio de Andrada e Silva, o Velho
Óleo de A. Godói, na Câmara Municipal de Santos/SP

Regressando a Lisboa, ele vinha saturado de sabedoria cosmológica, haurida em dez anos, porejando ciência, ressumando idéias avançadas, como um Himalaia de cultura, com vastos e imensos contrafortes filosóficos, que devessem encaixar-se naqele maremagnum de outeiros e coxilhas cercado de todos os medos e pavores da politicalha metropolitana.

Não era apenas o aluno de Lavoisier, de Chapal e Fourcroy e depois de Jossieu e Hauy, na França, ou de Werner, de Lempe, de Kohier, de Kjozsch, de Friesleben e de Lampadius, na Alemanha, que os pigmeus temiam, era mais o gigante impulsivo e universalista, de pulmões franceses e cérebro do "Terceiro Estado" que a França criara, pela inadvertência de Martinho de Melo.

Naquele instante, podia dizer-se, pesava mais na consciência político-social portuguesa a presença de José Bonifácio, do que a possibilidade da repetição do terremoto de 1755 (N.E.: que destruiu grande parte de Lisboa). O grande maçom, porque ele voltara maçom da França, assustava o ambiente político e religioso da velha Lisboa.

Fácil é assim compreender-se por que José Bonifácio se tornava um caso único na história das duas pátrias e talvez na do mundo - tornando-se "propriedade" do governo português, sem o direito de fixar-se onde o entendesse, e menos ainda de voltar para o seu país. Era grande e era sábio demais, para que se incorporasse ao povo de uma colônia, porque essa incorporação seria a sua desincorporação da metrópole. Eis por que lhe pagavam passeios e estudos e o cumulavam de cargos e funções em sua volta, como processo de retenção, distraindo-o da terra distante:

Lente de Metalúrgica na Universidade de Coimbra (1803);

Intendente de Polícia da Cidade do Porto (1806);

Superintendente do Rio Mondego e Obras Públicas de Coimbra (1807);

Diretor Fundador da Sociedade Marítima de Lisboa (1807).

Tudo isso ele foi sendo, com o passar dos anos, enquanto realizava pesquisas por todo o solo português, por ordem e por conta do Estado, enchendo o resto do tempo que lhe poderia sobrar...

Muitos anos antes da Independência brasileira, "já os poderes portugueses o consideravam capaz de promovê-la, com a sua simples volta a seu país". Admira, pois, que houvesse alguém em nossa altura capaz de desconhecer ou ignorar estas coisas, para poder negar a José Bonifácio a paternidade da nossa separação, a autoria civil e intelectual da Independência do Brasil, aliás comprovada em documentos.

Até mesmo a sua investidura no posto de coronel, à frente do batalhão de estudantes de Coimbra, contra as forças de Napoleão, na invasão de Portugal, em 1808, autoriza-nos a pensar hoje num plano diabólico daquele mesmo Martinho de Melo, conselheiro eterno da rainha louca, para dar cabo do brasileiro que crescera demais e que constituía um perigo permanente a pairar sobre as conveniências coloniais lusitanas.

De fato: por que "ele", o sábio, o revolucionário inato, o brasileiro, e não os outros maestros, homens de rotina e portugueses, que eram tantos? Por que ele, brasileiro, aos 45 anos de idade, civil, professor, cientista, jurista e Desembargador do Reino, com atividades declaradamente científicas e de gabinete, amigo da França e membro das suas principais instituições, embebido do espírito francês, e não um coronel do Exército regular, um tarimbeiro da Guarda Real, ou da própria Polícia, com mais prática naquele campo, com mais conhecimentos estratégicos, e mais adequado naquelas atividades tão contrárias às suas? Não seria mais lógico e natural que, fugindo o príncipe D. João para o Brasil, com ele levasse, em sua Corte, e seu conselho, ou em seu séquito, o cientista, o poliglota, o diplomata, o brasileiro ilustre de 45 anos, que melhor do que os outros fidalgos e ministros portugueses natos, o introduziria em sua própria Pátria e o entrosaria com a sociedade brasileira?

Não pecará, pois, quem, por indução lógica e análise, disser que havia, entre os ministros e conselheiros da rainha louca e do príncipe regente de Portugal, uma idéia, apenas disfarçada, de truncar, em 1808, a carreira e a vida daquele homem, cuja presença, apenas, poderia arrancar o Brasil de Portugal.

Melhor oportunidade para a volta do grande Andrada ao Brasil e a Santos não havia, do que a fuga total da Corte portuguesa. No entanto, enquanto fugiam os portugueses legítimos, e tantos militares de patente, ficava o brasileiro, por ordem real, para trancar a marcha de Junot.

Isso tudo demonstra que José Bonifácio não voltava à sua pátria porque não o quisesse, e sim porque não o permitiam, como se ele fora, estranha e excepcionalmente, uma propriedade do Estado, demonstrando ainda como não cresceria nele a vontade de voltar e de quebrar, de vez, os grilhões que acorrentavam o grande ao pequeno, o maior ao menor, o Brasil a Portugal, como faria assim que pudesse.

A vida de José Bonifácio situou-se, pois, para nós, como a de um planeta incendiário, entre duas forças - uma de repulsão e a outra de atração -, a de repulsão representada na pessoa de Martinho de Melo, ministro de D. Maria I, que para afastá-lo do Brasil afastou-o também de Portugal, custeando-lhe um vasto passeio de dez anos pela Europa "para que não fosse fazer uma revolução em sua pátria", repulsão continuada por outros e coroada, em seu final, na pessoa do ministro Silvestre Pinheiro Ferreira; "a de atração", na pessoa de Thomaz Antônio de Vilanova Portugal, ministro de D. João VI, que desejou essa revolução e por isso ordenou a sua volta ao Brasil, exatamente para que "incendiasse a sua pátria, libertando-a dos liames velhos, e soltando-a no espaço".

Thomaz Antônio de Vilanova Portugal, cujo nome, tão profundamente português, não pode ser esquecido pelos brasileiros, autor intelectual da elevação do Brasil à categoria de Reino, já em 1816, por ocasião da aclamação do príncipe regente como rei, lhe falara claramente, mostrando que a união do Brasil com Portugal não podia durar muito tempo, dizendo-lhe que, se Sua Majestade tinha saudades do berço de seus avós, regressasse a Portugal, mas, se queria ter a glória de fundar um grande e poderoso Império, e fazer da nação portuguesa uma das maiores potências do globo, ficasse no Brasil, acrescentando: "Aonde Vossa Majestade ficar, será seu; a outra parte se há de perder", ao que o rei respondeu: "Pois que se perca Portugal".

Foi esse homem que, "havendo-se resolvido a nomeação de um brasileiro, para ajudante de ministro assistente ao despacho", e que, ao depois de dar provas de sua fidelidade no exercício desse novo emprego, fosse elevado a Ministro de Estado, em uma das repartições para a qual se mostrasse mais habilitado, escolheu para seu ajudante a José Bonifácio de Andrada e Silva, que se achava em Coimbra, como mestre da famosa Universidade, para onde fez expedir ordem: "Que fosse José Bonifácio enviado ao Rio de Janeiro".

Antonio Carlos Ribeiro de Andrada e Silva
Imagem da Biblioteca do Serviço de Documentação Geral da Marinha (Rio de Janeiro)
Havia tantos brasileiros ilustres, naquela altura, residentes no Brasil, capazes de assumir um tal lugar, por que havia de ser aquele que lá estava tão longe, nos misteres da cátedra? Evidenciava-se a intenção do ministro e, mais do que isso, a sua convicção "de que era aquele homem o único capaz de tentar e de fazer" a separação da sua pátria, com créditos e confiança de sobra entre os brasileiros.

A Regência de Portugal "não obedeceu àquela ordem"; representou contra ela, "e fundou a sua representação no perigo que lhe parecia dever correr a paz pública", se José Bonifácio, aquele homem de 55 anos, voltasse ao Brasil. Era pois a tradição antiga, que vivia ainda em 1818, e que vinha daquele Martinho de Melo, ministro da Marinha e do Ultramar, no reinado de D. Maria I, com atividade na Regência joanina, continuando a considerar José Bonifácio uma propriedade do governo, e um punhado de dinamite, capaz de anular o arrocho colonial: "Era a prova última e definitiva" da retenção deliberada do brasileiro por tantos anos, e de que, antes mesmo de o ser, já os portugueses o consideravam autor provável e futuro da próxima Independência do Brasil.

Thomaz Antônio Portugal "insistiu com nova ordem", e a regência metropolitana, lavando as mãos como Pilatos, "e só então", obedeceu, e José Bonifácio chegou ao Rio de Janeiro em 1819, sob a impressão portuguesa, antecipada, de que tudo em breve estaria perdido para Portugal.

Calcula-se, então, como não seria vigiada a sua ação no Brasil, e como não deveria disfarçá-la para que pudesse agir, apesar do apoio do ministro providencial. Dá-se um fato estranho e extraordinário, em que ninguém reparou, porque nunca foi denunciado ou considerado em nossa cultura. O homem ilustre, que viera, declaradamente, para ser o ajudante do ministro assistente ao Despacho, não assumiu o seu posto junto a Thomaz Antônio Portugal, e botou-se de malas e bagagens para a sua província natal a embrenhar-se nas suas solidões, para estudos mineralógicos e petrográficos. Como poderia ele voltar as costas ao ministro do rei e fugir à tácita objetivação das suas ordens? Como poderia, naquele momento histórico, em que já roncava no subsolo social o terremoto nacionalista, iniciar uma calma e, naquele instante, despropositada digressão científica? Como faria isso se a isso não estivesse autorizado por quem podia autorizá-lo?

Não era também estranho que ele começasse a sua esquisita e improvisada "Viagem mineralógica" pela sua província e pela sua terra, pela Vila de Santos, sabidamente incluída entre os terrenos "arqueanos" do País, onde predominavam as mais velhas rochas conhecidas, integrando equivalentes altamente metamorfoseados, de todos os tipos de sedimentares e plutônicas, com predominância das últimas, caracterizada por gnaisses graníticos, atravessados por batolitos de granito e diques de pegmatito, com ausência total de fósseis e de metais preciosos, despida, assim, de mais interesse científico ou econômico?

Santos era, todavia, e em contraposição, o mais forte núcleo de separatismo brasileiro, tão forte quanto o próprio Rio de Janeiro (de maior qualificação apenas política), e era a base, o cérebro e os pés do independentismo paulista, sendo ainda a sua porta de entrada e saída, espiritual e material.

Aqui existiam seis fortalezas (mais do que no Rio de Janeiro), um regimento misto, altas patentes militares, barcos de guerra, e muitas culturas individuais, além de vários parentes do Andrada. Todos fortemente separatistas, como Martim Francisco e o padre Patrício Manuel de Andrada, seus irmãos (Antônio Carlos, naquela altura, estava preso e condenado na Bahia, por sua participação na Revolução Pernambucana de 1817), como José Ricardo, o seu grande e sábio sobrinho, e Antônio Manoel da Silva Bueno, além do tenente-general Manuel Martins do Couto Reis, o brigadeiro Joaquim Mariano Galvão de Moura Lacerda, o general e sertanista Cândido Xavier de Carvalho e Souza, os generais João e José Olinto de Carvalho e Silva, os capitães de milícia Luiz Rodrigues da Cunha e Antônio José de Oliveira Lima, o tenente de milícias Francisco de Albuquerque Rolim, o sargento-mor de infantaria José Joaquim dos Santos Prado, todos, comandantes de fortalezas e de guarnições locais e regionais (fortalezas e guarnições que o príncipe D. Pedro, exatamente, visitaria em setembro de 1822), abrangendo São Vicente e Bertioga, com jurisdição até Iguape para o Sul e até S. Sebastião e Ubatuba para o Norte, e mais o cônego João Ferreira de Oliveira Bueno, os Vieira Barbosa, os Vieira de Carvalho, e tantos outros, "que pensavam como ele e pensariam com ele à sua chegada".

Verifica-se aí, sob a capa da "Viagem mineralógica" de 1819, que os pontos da província, que José Bonifácio percorreu, não foram os pontos geológicos ou mineralogicamente interessantes, mas política e socialmente importantes, que iria encontrar os complementos humanos necessários à sua obra, ao desenvolvimento dos seus planos, argamassados pelo espírito maçônico que revolvia montanhas e consolidava até mesmo as areias: São Paulo, Itu, Sorocaba, Tietê, Porto Feliz, Parnaíba, Taubaté, Pindamonhangaba, Guaratinguetá, Lorena e outros mais, onde já existia uma consciência cívica, favorável à renovação e acentuadamente paulista ou brasileira, onde ele iria encontrar uma continuação humana da sociedade santista, aquelas figuras que seriam fundamentalmente no movimento da Independência na província do seu nascimento, como Francisco de Paula Souza e Melo, o padre Ildefonso Xavier, o coronel Antônio Leite da Gama Lobo, o capitão-mor Manoel Marcondes de Oliveira Melo, o padre Antônio Moreira da Costa, e o famoso padre Diogo Antônio Feijó, além de muitos outros, que seria longo enumerar, e que seriam os rastilhos nacionalistas no seio das suas vilas, das suas cidades e do seu povo.

O que se iniciava, pois, com a "Viagem mineralógica" de José Bonifácio e Martim Francisco (que entrava na viagem como elemento de camuflagem), era a seqüência de atividades que, apoiadas pelo grande ministro Thomaz Antônio, levaria José Bonifácio ao Governo Provisório de sua própria província, e em seguida ao Ministério e Conselho do Príncipe Regente, após a partida do rei, para as últimas providências necessárias à separação e à Independência, cujas exteriorizações, ou manifestações públicas, seriam as poucas coisas conhecidas em nossa cultura.

Thomaz Antônio de Vilanova Portugal fez, entre os políticos e homens públicos de Portugal, a exceção bastante, para ser, como foi, com esquecimento dos estudiosos, a mão do Destino, que devia conduzir o gigante santista à libertação de sua pátria.

Outro fato, subseqüentemente àquele primeiro, e que seria a primeira agitação programada por José Bonifácio, foi a chamada Revolta Francisco Chagas, chefiada pelo Chaguinhas e seu companheiro Joaquim Cotindiba, ingenuamente olhada por  nós, como o resultado de um simples descontentamento de soldados humilhados e mal pagos, inferiorizados às praças portuguesas da mesma guarnição santista.

Ora, quando eclodiu a revolta no Quartel de Santos, José Bonifácio acabara de organizar, astuciosamente e por delegação do povo, o Governo Provisório da província, recusando-lhe a presidência e colocando-se na vice-presidência "por trás de um elemento português", que era no caso o ex-capitão general João Carlos Augusto de Oyenhausen, e que ele colocara, propositalmente, na Prefeitura.

Como secretário do Interior e da Fazenda, aparecia Martim Francisco, o seu irmão e companheiro de viagem mineralógica. Bastavam  estas presenças, para se saber que o Governo Provisório de São Paulo era um governo de conspiração disfarçada, nacionalista, separatista, destinado a começar a Independência, cujos movimentos, necessariamente, deviam ter início nos quartéis e fortalezas. Foi o que houve.

Os soldados brasileiros das guarnições paulistas não recebiam seus salários havia dois ou três anos e esses mesmos na proporção de metade do salário de um soldado português, que, todavia, o recebia mais ou mesmo com pontualidade. A exacerbação era, pois, constante, no espírito dos soldados nascidos no Brasil, que, segundo as informações da época, nem roupa, nem calçado tinham, que pudessem saír à rua, e que os humilhava ainda mais, tirando-lhes entretanto a possibilidade de fuga e deserção e mais ainda de ajuntamento e protesto.

Que excelente campo não apresentavam, portanto, os quartéis para um levante nacionalista? Estavam dormindo os separatistas de Santos? É lógico que não. Aguardavam, apenas, que José Bonifácio e Martim Francisco se tornassem governo, para que pudessem agir com segurança, com utilidade e com menos perigo.

O Decreto das Cortes, de 24 de abril daquele ano de 1821, declarando todos os governos provincianos do Brasil independentes do Rio de Janeiro, desmoralizando e pretendendo anular a Regência do Príncipe D. Pedro, propiciava a ação e até exigia a eclosão imediata do movimento irredentista, evidenciando que ou ele eclodia ou seria tarde demais para eclodir, pelas providências que decerto tomaria Portugal.

O famigerado decreto chegara a São Paulo em junho; a 23 desse mês verificava-se a posse do Governo Provisório, no mesmo dia em que um mês atrás estourava na Capital a "Bernarda de Francisco Ignácio", de inspiração portuguesa, e já na noite de 27 para 28 do mês de junho - apenas quatro dias depois - estourava, no velho quartel santista, a revolta de um nobre soldado, que não se alimentava, que não se vestia nem se calçava que não tinha um tostão de seu, e nem uma carabina velha para dar um tiro.

Martim Francisco Ribeiro de Andrada e Silva
Imagem da Biblioteca do Serviço de Documentação Geral da Marinha (Rio de Janeiro)

Quem não vê logo que havia alguém por trás daquele homem, sustentando-o, apoiando-o, encorajando-o e fornecendo-lhe os elementos morais, espirituais e materiais para o levante? Os fatos são conhecidos, mas não analisados e interpretados, razão por que nunca lhes foi dada a devida importância no conjunto dos fatos da Independência. Francisco das Chagas tomou conta de Santos, vencendo os homens do coronel Bento Alberto da Costa, e lutando com vantagem contra a corveta real fundeada no porto, apossando-se do Forte da Praça e assentando suas peças pesadas contra o vaso de guerra da Coroa. Ora, tudo isso seria excessivo para um pobre soldado, ignorante e em estado de miséria, numa terra com tanta tropa e tantas fortalezas.

Naquele instante, o Governo Provisório, vigiado pelo Partido Retrógrado ou Português, que prevalecia em São Paulo, por sua força militar e financeira, e que, já acossado pelo levante colonialista do coronel Francisco Ignácio, precisava fingir severidade, mandou então suas forças para Santos, sob o comando dos coronéis Lázaro José Gonçalves e Daniel Pedro Müller, sendo este Vogal pelas Armas, do próprio Governo Provisório.

Ora, estes dois homens, a quem caberia vencer o levante e aprisionar os poucos soldados de Chaguinhas, logo depois apareciam integrados no movimento nacionalista e mais tarde ainda aceitaram a grande naturalização, tornando-se brasileiros e celebrizando-se por realizações de alto cunho nacional e progressista, o que demonstra que os seus sentimentos, em 1821, não eram portugueses senão na aparência, tanto assim que não ficaram mal vistos pelos paulistas por sua ação aparentemente antibrasileira e ainda renunciaram à sua antiga nacionalidade. É a única dedução possível.

Mas, para concluir, Francisco das Chagas foi condenado à morte e devia ser executado na forca. Não se pode acreditar que José Bonifácio e Martim Francisco consentissem nisso ou que alguém não aparecesse também naquela hora, para evitar a morte daquele pobre soldado, que agira, por conta dos nacionalistas de Santos... O que aconteceu na execução daquele homem demonstra a nova trama...

"A corda nova, de linho, importada naqueles dias", como citam os documentos, rompeu-se por três vezes nas três primeiras tentativas de execução... Era muito romper para uma corda nova... era uma excessiva coincidência. A força do olhar dos separatistas presentes não cortaria a corda de linho... A multidão protestava, convencida da inocência do acusado e pedindo a aplicação da lei de clemência usada em tais casos... Mas o Governo Provisório não cedeu, ou, por outra, os Andradas fingiram não ceder... A execução do condenado foi efetuada, "somente na quarta tentativa", com um laço de tropeiro, e quando já haviam descido as primeiras sombras da noite invernosa...

Mas seria ele mesmo, Francisco das Chagas, o executado do Governo Provisório? A lenda diz que sim, e o espírito religioso do povo, sempre à margem da verdade, acompanhou a lenda, erigindo, sobre aquele lugar da grande injustiça, uma Igreja, a famosa Santa Cruz dos Enforcados, que ainda hoje existe em São Paulo, consumindo 200 quilos de velas de cera por dia, junto à parede dos milagres...

Mas o velho Toledo Piza, em seu precioso livrinho Crônicas dos Tempos Coloniais, afirma que não, "porque assim lhe contaram um homem do tempo dos Andradas", um homem de vasta cultura, filho por sua vez de outro homem que fora companheiro, colega e confidente de Martim Francisco, homens que, por coincidência, eram tio e avô do autor destas linhas. Francisco das Chagas fora substituído por outro condenado comum, sob a proteção do capuz e das sombras da noite que caía... Uma coisa na voz do povo, outra coisa na voz do testemunho legítimo e da verdade.

Provava esta burla histórica a prisão de Martim Francisco, efetuada pelos portugueses, ao saberem dela pouco depois; dele que era membro proeminente do Governo Provisório, irmão de José Bonifácio, e que fora o mais intransigente na execução do soldado santista... Sua prisão, sem motivo aparente, provava a traição cometida pelo Andrada, a mistificação realizada, e fuga preparada e permitida a Francisco das Chagas, para os sertões do Tietê...

Monumento aos Andradas, na Praça da Independência, em 2002
Foto: Decom/Prefeitura Municipal de Santos

E que papel fazia José Bonifácio? O Patriarca, que era o autor intelectual de tudo, tudo fazia para contemporizar e preparar melhor o terreno onde a Independência devia ser feita. Era preciso dar aos paulistas a impressão "de que um paulista fora sacrificado pelo Governo Provisório, por exigência portuguesa", para levantá-los contra Portugal, e essa foi a única razão de não haver perdoado, ou feito perdoar publicamente Francisco das Chagas.

O conhecimento da traição de Martim Francisco pelos portugueses, levando-os à exaltação e à prisão do próprio Martim Francisco e seu envio sob escolta para o Rio de Janeiro, foi exultação para José Bonifácio, que via levantarem-se ainda mais os paulistas, ao mesmo tempo em que não via perigo algum para seu irmão, que logo haveria de libertar.

Não fora assim, e José Bonifácio não seria chamado para o Rio de Janeiro logo depois e não seria feito, muito depressa, ministro e conselheiro do príncipe D. Pedro, quando este já se achava em plena luta contra Portugal, para libertar seus irmãos, Martim Francisco, preso pelos portugueses de São Paulo, e Antônio Carlos, condenado pelo tribunal português da Bahia.

O resto é conhecido e foi conseqüência da viagem mineralógica de 1820. O grande Andrada encaminhou D. Pedro para a separação, enviando-o para São Paulo e Santos, através do caminho que passava por Lorena, Pindamonhangaba e Taubaté, para o ambiente que ele preparara, e onde o Príncipe receberia todos os apoios e todas as manifestações, além de todos os apelos no sentido da separação. A idéia do Andrada era fazer a Independência em São Paulo, e, mais do que em São Paulo, em Santos, sua terra, que nunca esquecera, e onde mantinha uma presença feita de ausências, porque era uma presença espiritual impedida de concretizar-se pela força metropolitana portuguesa, que lá vimos atrás, e por tantos anos.

Uma indisposição do Príncipe, iniciada no dia 5 de setembro, daquele ano de 1822, impediu que o sonho total do Patriarca se realizasse; ele apressara a volta; a comitiva apressara a marcha, e os mensageiros de José Bonifácio, conduzindo os documentos que provocariam a revolta do Príncipe e a Proclamação da Independência, foram encontrar aquele que seria o primeiro Imperador do Brasil, já na colina do Ipiranga, para que ali, e não mais em Santos, se consumasse a inspiração profética e benemérita, embora esquecida, de Thomaz Antônio Vilanova Portugal, e se imortalizasse como "Pai da Pátria e Patriarca da Independência Brasileira" aquele moço de 27 anos, que os temores de um ministro haviam temperado na Revolução Francesa, no maior ambiente da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade universais, para que um dia ele libertasse a sua pátria, e para que a sua presença eterna, ainda maior depois da morte, conduzisse São Paulo à grandeza de hoje, pela execução dos seus ensinamentos e postulados, conduzindo Santos, sua terra natal, à sua constante imitação, pela constante invocação do seu nome e da sua memória, na sua própria elevação, na sua história, nas praças, nas ruas, nos monumentos, nos institutos, nas escolas e nos grêmios, que recebem, assim, a sua grande influência, a influência do seu  nome, puro, grande, miraculoso e santo, mística e bandeira, de que precisam, tantas vezes, indivíduos e coletividades, para colher triunfos e operar milagres.