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NAVIO RAUL SOARES: DEMOCRACIA À DERIVA
Sindicalistas querem que Governo apure atos de torturas no navio-prisão
Série de reportagens do DL repercute no meio sindical da
Baixada e também nos meios políticos. Sindicalistas querem que Comissão da Verdade investigue atos de torturas e humilhações ocorridos no Raul
Soares
Repórter: Francisco Aloise
Sindicalistas da Baixada Santista querem que o Governo
Federal, através da recém criada Comissão Nacional da Verdade, apure os atos de torturas e violência contra os presos do navio-prisão Raul Soares.
Alegam que a série de reportagens publicadas, nesta semana, pelo Diário do Litoral, reacendeu emoções quase apagadas da memória dos
santistas, e relembrou os tristes episódios da época da ditadura militar no Brasil.
Os dirigentes sindicais portuários e avulsos vão estar reunidos, a partir de terça-feira, em
Brasília, numa plenária nacional das categorias, e seus líderes sindicais vão formular um documento único, que será enviado ao Governo Federal,
pedindo que se apure, através da Comissão da Verdade, o que ocorreu no Raul Soares, um navio-prisão, clandestino e confidencial, uma vez que
não existe um diário de bordo, ou se existe, ele não foi divulgado, com a lista de seus presos.
Jorge Fonseca e Adilson de Souza, respectivamente presidentes dos sindicatos dos vigias portuários
e dos Consertadores do Porto de Santos, elogiaram a série de reportagens, e estão levando exemplares do Diário do Litoral para sua federação
nacional, a fim de que eles sejam anexados ao ofício a ser enviado ao Governo Federal. "Esta história tem que ser apurada e para isso foi criada a
Comissão da Verdade. Temos que pedir isso ao Governo", diz Adilson.
Fonseca, por sua vez, alega que "muitas pessoas não conheciam a história e quem tinha ouvido
dizer, não sabia os detalhes revelados com toda riqueza pelo DL. Mais parece enredo de filme, mas as cenas de violência e torturas ocorreram
aqui em nosso porto, local de nosso trabalho".
Já os sindicalistas portuários Everendy Cirino e Valdir Pestana, presidentes dos sindicatos da
Administração Portuária e Rodoviários do Porto, vão enviar ofícios pedindo a apuração dos fatos pela Comissão da Verdade.
Reportagens do DL sobre o navio-prisão Raul Soares serão anexadas em pedidos de
apurações da verdade no Brasil e exterior
Foto: divulgação, publicada com a matéria
Na Câmara de Santos – A série especial de reportagens sobre o navio-prisão Raul Soares
foi também destaque na Câmara de Santos. O vereador Benedito Furtado (PSB) apresentou requerimento aprovado em plenário, pedindo votos de
congratulações ao Diário do Litoral pela iniciativa. "As reportagens resgatam, com muita propriedade, por meio de depoimentos, uma amarga lembrança
de nossa história", diz o vereador.
Também ex-sindicalista portuário, foi presidente do Sindaport, Furtado diz: "Muitos dos
companheiros, daquela época, alguns dos quais convivi, foram acusados de subversão por se oporem ao Governo Militar que havia deposto o então
presidente da República, João Goulart. Símbolo da repressão, o navio Raul Soares foi cenário de um episódio truculento de nossa história dado ao
regime ditatorial imposto à sociedade civil, sem precedentes, e que deixou profundas marcas".
Na Câmara Federal – O deputado federal Arnaldo Faria e Sá (PTB/SP), em contato com o
Diário do Litoral, que também é relator da Comissão de Anistia da Câmara dos Deputados, disse que, na próxima terça-feira, vai fazer um
pronunciamento em plenário mencionando a série de reportagens do DL sobre o navio-prisão, quando vai solicitar que os fatos sejam apurados pela
Comissão da Verdade do Governo Federal.
"Mais que isso", disse o parlamentar, "vou anexar as reportagens nos anais da Câmara Federal, para
que todos tomem conhecimento desse trabalho jornalístico, que resgata a história e esclarece fatos nunca revelados de uma história que jamais deve
ser esquecida, e que por isso mesmo deve ser apurada em todos os seus detalhes".
Escapou da prisão – O sindicalista Paulo Pimentel, um dos mais antigos de Santos,
presidente do Sindicato dos Empregados de Saúde, disse que ficou emocionado com os depoimentos do médico Thomas Maack e de Argeu Anacleto.
Maack é hoje famoso cientista em Nova Iorque, Estados Unidos, onde se exilou após sua liberação do
navio-prisão Raul Soares. Argeu, foi diretor sindical dos operários portuários, e hoje é uma das poucas vozes que sobraram para falar sobre
os prisioneiros do navio, onde permaneceu preso por 75 dias.
"Eu escapei por muito pouco de ser preso e levado para esse navio lúgubre", disse Pimentel. Ele
relembra que estava com prisão preventiva decretada por ser sindicalista e por integrar o Fórum Sindical de Debates da Baixada Santista. "Fui
avisado deste fato pelo delegado do Trabalho de Santos, Cristiano Solano, que era meu amigo. Ele próprio intercedeu junto ao governador Ademar de
Barros, que conseguiu desfazer a ordem de prisão, senão, eu seria hoje, caso escapasse com vida das torturas, mais um a depor nessa série de
reportagem, que merece ser levada a todos organismos de defesa dos direitos humanos, quer seja nacional, ou internacional. Se depender de mim, da
minha federação e confederação, isto será feito na próxima semana, pois trata-se de uma série histórica, jamais vista em nenhum jornal do País",
conclui o sindicalista.
Sindicalista Paulo Pimentel fica emocionado com as reportagens e diz que escapou por pouco da
prisão no navio
Foto: Matheus Tagé/DL, publicada com a matéria
Sindicalista pede providências à Corte Interamericana de Direitos Humanos da ONU
"A vida começa a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam". Esta frase foi
usada para dar início à denúncia feita pelo sindicalista Jaime Porto, presidente do Sinprafarmas de Santos, à Corte Interamericana de Direitos
Humanos da ONU, com sede em San José, Costa Rica.
Em ofício encaminhado ao presidente daquela Corte, Diego García Sayán, Jaime Porto pede que os fatos narrados pelo
DL nas reportagens sejam apurados com todos detalhes e com a máxima urgência.
O dirigente sindical anexou exemplares do Diário do Litoral com a série de reportagens, para reforçar seus
argumentos sobre a apuração de atos de torturas, atos degradantes e desumanos ocorridos no porto de Santos, no interior do navio-prisão. Ele
fundamenta seu pedido nas resoluções da ONU 39/46, de 10 de dezembro de 1984, e 57/199, de 18 de dezembro de 2002.
Esclarece que o Brasil criou recentemente a Comissão Nacional da Verdade, que visa apurar atos de torturas durante
o período da ditadura militar, mas que os fatos não constam da pauta dessa comissão, que é do Governo Federal. E diz: "Os direitos humanos de
dezenas de pessoas foram vilipendiados. Os fatos ocorreram em 1964, época da Ditadura Militar no Brasil, mas até hoje não foram devidamente
esclarecidos e nem apurados pelo Governo Brasileiro, que é país membro desta organização".
E prossegue: "Recorro a esta Corte Internacional, por ser um caminho direto a ser utilizado para esclarecer os
fatos de dor, tortura e sofrimento de dezenas de pessoas, em sua maioria sindicalistas, que ficaram presas naquele presídio flutuante".
Conclui mencionando que restam poucos presos ainda vivos, mas a maioria já não pode falar, nem andar e muito menos
esclarecer os fatos. "Restam ainda poucas vozes, mas se não houver apuração rápida da verdade, até essas vozes podem também estar caladas".
Jaime Porto, presidente do Sinprafarmas, faz denúncia à Corte Interamericana de Direitos Humanos
da ONU, com sede na Costa Rica
Foto: Matheus Tagé/DL, publicada com a matéria
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