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Movimento Nacional em Defesa
da Língua Portuguesa
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NOSSO
IDIOMA
"Répiau"
Luiz Fernando Veríssimo (*)
"Forró" viria de "for all", as festas abertas para
todos dadas na base aérea americana de Natal, durante a Segunda Guerra Mundial. Se é verdade ou não, pelo menos deu um bom filme.
"Bonde", claro, vem de Bond & Share, o nome da companhia inglesa que explorava o serviço de
transporte coletivo sobre trilhos - enfim, de bondes - no Brasil.
No Rio Grande do Sul até hoje chamam privada de "patente", porque os vasos vinham com a
palavra "Patent", seguida do número, bem no ponto onde a gente mirava.
"Smoking jacket" deu no nosso "smuki", embora o que nós chamamos de "smoking" nos
Estados Unidos chamem de "tuxedo". Uma vez fui investigar a origem de "tuxedo" e cheguei, meio atordoado, à tribo dos índios
Delaware, em cujo dialeto "tuxedo" queria dizer "pés encurvados", que por sua vez era um eufemismo para lobo. Qual a ligação de "smoking"
com lobo? Nenhuma, embora muitas vezes o traje formal seja a proverbial pele de carneiro que disfarça o predador social. É que foi
num lugar chamado Tuxedo Park, em Nova York, que alguém teve a idéia de cortar os rabos de um fraque e inventar o "dinner jacket"
americano, ou o "smoking jacket" inglês, ou o "smuki" brasileiro (a não ser quando é branco, porque aí é "summer").
Com o tempo, a origem das palavras fica cada vez mais remota e o trabalho do etimologista
cada vez mais parecido com o do arqueólogo, que precisa reconstituir civilizações inteiras com poucos cacos e muita especulação.
Não se sabe o que, no futuro, dirão para explicar uma palavra que a Leda Alves, viúva do
Hermilo Borba Filho, contou que viu na frente de um boteco no bairro de Afogados, no Recife. "Répiau." Leda levou alguns
minutos para se dar conta de que o boteco estava anunciando a sua "happy hour". A intenção era irônica, mas com o tempo
desaparecerá a referência e "répiau", como "forró", se incorporará ao português brasileiro.
Se é que, com o tempo, o português do Brasil não tiver o mesmo destino do dialeto dos
Delaware, outro povo subjugado por uma cultura mais forte.
(*) Luiz Fernando Veríssimo é escritor. Este texto foi publicado no jornal
O Estado de São Paulo de 14 de julho de 2000.
Comentários sobre o texto de Veríssimo:
1) A palavra bonde tem outra descrição de sua origem.
2) Aristóteles, internauta da Paraíba, comenta no fórum de debates
do MNDLP:
A história do forró adveio da Great West, uma companhia inglesa que
explorou ferrovias no Nordeste. Os ingleses, elitistas, construíram casas e áreas recreativas isoladas da população. Mas, foi não
foi, montavam festa “for all”. Há outra palavra muito engraçada, largamente usada aqui no Nordeste, que sugere uma indução da língua
francesa: “picinês” de pincenê. Mas muitos estudiosos dizem que esta adveio de “piece in eyes”; também do inglês. |