Clique aqui para voltar à página inicialhttp://www.novomilenio.inf.br/cultura/cult006o23.htm
Última modificação em (mês/dia/ano/horário): 02/13/14 23:08:52
Clique na imagem para voltar à página principal
CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - Ribeiro Couto - BIBLIOTECA NM
Rui Ribeiro Couto (15-W)

Clique na imagem para ir ao índice desta obraUma das obras de Rui Ribeiro Couto é Histórias de Cidade Grande (Contos escolhidos), aqui transcrita em primeira edição digital, a partir do livro publicado em 1960 pela Editora Cultrix Ltda., da capital paulista, na série Contistas do Brasil. A obra faz parte do acervo de Rafael Moraes transferido à Secretaria Municipal de Cultura de Santos e cedida a Novo Milênio pelo secretário Raul Christiano para digitação/digitalização (ortografia atualizada nesta transcrição - páginas 235 a 250:

Leva para a página anterior

Histórias de Cidade Grande

Ribeiro Couto

Leva para a página seguinte da série

Tentação

Na estação da Saudade, Augusto viu aquela cabeça de campeã esportiva, confundida num grupo de passageiros à espera do trem. O cabelo castanho-claro tinha reflexos de cobre, um cabelo abundante que sugeria saúde e força. O rosto fino era rosado, talvez sardento, em todo caso queimado de sol. A desconhecida viera decerto da Bocaina, andara em excursões pela serra. Estava com botas de montar. O casaco de casimira cinzenta modelava-lhe seios pequenos de pontas duras, e ancas magras, de musculatura seca. os viajantes se espalharam, à procura de lugares nos carros, e Augusto perdeu a moça de vista. Abriu um jornal e esqueceu-se.

Já o trem estava em movimento quando ele viu crescer por cima do jornal a cabeça com reflexos de cobre; a moça passava, de olhos indagadores, à procura de um banco. Augusto não fez nenhum oferecimento: havia bancos vazios em todos os carros. Tornou a se absorver no jornal, mas desta vez com um interesse fingido: queria saber, por mera curiosidade, onde ia sentar-se a moça.

Estava sozinha? Não: atrás ia um inglês velho. Devia ser um inglês. Augusto imaginava que todos os ingleses têm caras assim, vermelhas, bem barbeadas; e que todos deviam se trajar como aquele, com roupas amplas, de padrão europeu: cheviote cor de café com leite, com listas enxadrezadas, fazendo pensar (não sabia por quê) num diretor de circo em viagem mundial.

Nunca pudera se vestir com elegância. Não que já não houvesse experimentado excelentes alfaiates das capitais: inútil. As melhores casimiras morriam no seu corpo desajeitado de juiz de Direito de Baependi. Em Caxambu (distrito que pertencia à sua comarca), frequentando rodas de aquáticos, esse problema o assaltava a cada instante: por que razão as roupas não realçavam nele?

Era moço, não tinha nenhum defeito físico; suas maneiras eram naturais. Como se explicava (o espelho do guarda-roupa dava-lhe essa certeza) que não pudesse ficar elegante? Via homens velhos, obesos, que com qualquer paletó, qualquer colarinho, qualquer gravata, adquiriam esse ar de verdadeira elegância masculina, que não está somente nos indivíduos, está também nas roupas, no espontâneo prazer com que elas envolvem os corpos, palpam um ombro, um peito, um ventre.

Seu futuro sobro, por exemplo. Serpa Rodrigues tinha sessenta anos batidos. Homem de negócios, parecia não pensar senão na especulação de terrenos. No entanto, quando se levantava da mesa de pôquer em Caxambu, seus casacos desciam moles e suaves, sem rugas, como se a elegância do vestuário fosse uma das razões essenciais da sua vida: as roupas obedeciam, nele, a um comando interior.

Augusto sacudiu a cabeça, para afastar pensamentos importunos e frívolos. Só o cansaço da viagem podia justificar tão absurdas reflexões. Reflexões que insistiam: sim, ele nunca acertava com as combinações de tom. Também as tesouras, por melhor que cortassem, não correspondiam ao seu íntimo ideal. No entanto, os tecidos eram dos melhores - como os de Serpa Rodrigues, que só fazia roupas no Nagib David. O defeito, portanto, não era dos alfaiates, era dele, de uma oposição natural que seu corpo oferecia, principalmente às casimiras claras.

Aquele inglês que acompanhava a moça levava um paletó escandaloso: café com leite com listas enxadrezadas. Incrível. Mas, como lhe ia bem! Ia-lhe bem com as largas espáduas, com a alta estatura, com a cara bem barbeada, o queixo quadrado, a boca feita a canivete num pedaço de pau. Era velho, mas parecia jovem com a roupa de viagem. Pai da moça?

O apito do trem, virando uma curva, tirou-o da perplexidade. Debruçou-se à janela: na paisagem do entardecer, tudo era adeus. Invejou as casinhas brancas de cal, à beira da linha: atrás das cercas de arame verdejavam jardinzinhos pintalgados de flores, com meninos a engatinhar entre os canteiros. Seriam felizes aquelas vidas de empregados ferroviários?

Augusto sentiu que a vida para ele era um solo firme onde poderia erguer sem cuidados o seu futuro de magistrado. Nomeado havia dois anos para aquela comarca, tinha já no banco as suas economias. Aliás, elas não representavam nada, nada mesmo, diante da fortuna de Serpa Rodrigues. Madalena era filha única. Um tanto feia, já não muito moça, mas filha única. Se o pôquer ou os maus negócios não levassem o dinheiro de Serpa Rodrigues, Madalena seria um dia proprietária de alguns milhares de contos.

Augusto não pôde deixar de sorrir... Sorte. Entre os seus companheiros de turma, quantos não haviam saído da faculdade com a ideia fixa de uma noiva rica? Ele, Augusto, nunca se preocupara com isso. Seu ideal era de carreira: queria ser desembargador antes dos quarenta anos. Por isso, aceitara a Delegacia de Polícia em Patos; fora depois promotor em Bambuí; até que o concurso prestado no Tribunal da Relação lhe abrira as portas do Primeiro Juizado.

Estudava com entusiasmo. Aproveitava o mínimo despacho para revolver toda a livraria que lhe forrava as paredes e fazia o espanto de Baependi, porque as janelas da sua casa, no Largo da Matriz, eram baixas: quem passava, podia ver o juiz de Direito curvado à mesa, entre pilhas de volumes. Toda gente repetia dele: "É um moço sério". Nunca ouvira: "É um moço inteligente" ou "É um sujeito brilhante", conforme se dizia de outros colegas, em geral nortistas, que tinham o verbo fácil e faziam discursos em todas as oportunidades.

Dele só se falava que era "um moço sério", mas Augusto não se humilhava com isso: não tinha pretensões a outra coisa. Chegaria a desembargador pelo seu afinco no estudo, pela sua austeridade, por aquela auréola de caráter sólido, insensível às fantasias, que o cercavam desde o início da carreira. Seria desembargador, sim...

Sim, mas era urgente casar com Madalena. O ambiente de Baependi, sonolento e monótono, já não o absorvia tanto, depois que passara a frequentar Caxambu durante a estação.

Aqueles grupos de veranistas, com mulheres viajadas, formosas, de provocantes maneiras e sorriso um pouco cínico, eram como rajadas que ameaçavam apagar a chama do seu bom senso e das suas ambições judiciárias. Vinham-lhe ímpetos, às vezes, de fazer uma asneira. Qualquer asneira que o sacudisse. Sentia-se abafado por cinco anos de existência em comarcas de roça, cumprimentando com gravidade o presidente da Câmara e dando prosa com o vigário, à tardinha, à porta da casa paroquial.

... Alguém dissera o seu nome? Saiu daquele torpor ingurgitado de ideias malsãs. Voltou-se: a campeã esportiva estava agora sentada no banco de trás, com o inglês velho.

- Que calor! - dizia a moça.

Com efeito, fazia um calorão dentro do trem! O rosto fino e sardento, emoldurado do cabelo cor de cobre, estava esboçando um sorriso, mas não para ele, Augusto: para a paisagem. Sorriso perdido, diluído no ar em movimento. O inglês, austero, lia um jornal.

Vontade de dar um beijo naquele rosto. Era melhor adormecer.

Não adormeceu, mas conservou-se de olhos cerrados até a próxima estação.

- Titio, não toma um café?

Augusto se levantou, ouvindo aquela pergunta feita ao inglês. Era uma boa ideia, um café. Caminhou até a plataforma do carro e esperou que o trem parasse. Barra do Piraí.

- Dá licença?

Era a moça que queria saltar. Desculpou-se, subitamente confuso; desceu primeiro e estendeu a mão à moça: ela desceu apoiada.

Dava prazer sacudir um pouco os músculos, espantar o torpor da imobilidade. Sorriram com o mesmo pensamento.

- A senhora não vai tomar um café? - perguntou Augusto, enchendo-se de audácia.

- Prefiro uma laranjada.

A palavra "laranjada" adquiriu todas as cores do arco-íris. Augusto precipitou-se. Varou a multidão que se acotovelava (caipiras de camisa de chita e roupa cáqui, com sapatorras sonoras, a caminho dos carros de terceira classe; mulheres com crianças ao colo; meninos com cestas maiores do que eles mesmos, de olhar morto, pálpebras inflamadas, pancinhas redondas de opilação precoce). No bufete era impossível chegar: mais de vinte pessoas disputavam xícaras de café.

- Tem aí laranjada?

Por cima dos ombros daqueles homens todos, continuou gritando:

- Laranjada?

Ninguém prestava atenção. Voltou-se: a moça tinha desaparecido. Saiu à procura dela. Encontrou-a dois passos adiante, de olhos pregados numa vitrina de livros. onde estava o caixeiro da livraria?

- Encontrou alguma coisa que lhe interessa?

Ela fez que sim: e o cabelo de cobre teve reflexos repentinos. O caixeiro, porém, não vinha. Um vendedor de jornais, italiano, curvado ao peso da carga, passou de pescoço torto, viu a freguesa escolhendo um livro e chamou:

- Annunziato! Annunziato!

Não se sabia de onde (parecia que do chão), surgiu um velho de barba branca:

- Signorina?

O rosto sardento sorriu para o velho. Surpreso, Augusto viu a mão delicada pegar num guia ferroviário, depois procurar uma moeda na carteira: nada! Não havia um único níquel na carteira! Augusto puxou de uma nota de cinco mil-réis, pediu licença, pagou o guia ferroviário. Lembrou-se da laranjada: talvez houvesse menos povo no balcão do bufete.

- Não quer a sua laranjada?

Correu a ver se ainda conseguia ser atendido. Ouvia-se o sinal de partida.

- Cuidado!

A moça era ágil: saltou no estribo do trem. Augusto saltou atrás, tristíssimo com a capa amarela do guia ferroviário que a moça levava na mão.

- Vou apresentá-lo a meu tio.

Augusto declinou o nome, o inglês levantou-se, ouviu o que a sobrinha contava, puxou da carteira, pagou os cinco mil réis, sentou-se de novo, de novo abriu o jornal.

Chocado com aquela atitude, Augusto teve uma ideia:

- Vamos ver se há laranjada no vagão-restaurante?

- Oh! que ótimo!

Ótimo era sumir dali, da presença do inglês.

Sentados os dois à mesinha do vagão-restaurante, Augusto cravou os olhos em...

- Bárbara. Bárbara Gray, sua criada.

... cravou os olhos em Bárbara e sentiu que um terrível amor aparecia dentro dele, sinistro e inútil, como um casco de navio que naufragou em praia solitária e a maré vazante põe a descoberto. Não pôde deixar de compará-la a Madalena, morena graciosa, um pouco gorda, conjugal. Bárbara não era conjugal, era elástica e esportiva. Devia ter músculos fortíssimos. O guia? Para quê o guia ferroviário?

- Para ler os nomes das estações.

A simplicidade da resposta humilhou Augusto. Começou a reparar nos olhos de Bárbara: cinzentos, vagos, qualquer coisa de longínquo e perverso na pupila esverdeada.

- Titio tem uma fazenda em Bananal. O senhor gosta de caçar?

Tinham vindo da fazenda: um mês a perseguir veados, cotias e pacas. Na Inglaterra, a caça à raposa era muito elegante. Ele conhecia a Inglaterra?

A satisfação de ter adivinhado que o velho era inglês consolou Augusto de não conhecer a Inglaterra.

Bárbara estivera três anos num pensionato dos subúrbios de Londres. Era filha de mãe brasileira e pai inglês. Londres... Ah! que cidade! Que mundo!

Lá fora passavam campos desertos que pediam instalação de famílias agrícolas, mulheres fecundas, homens industriosos, canaviais, cafezais, usinas de leite. Augusto suspirou.

Veio a laranjada finalmente. Bárbara chupou o líquido pelo canudinho de palha, com delícia. O garção perguntou se queria mais gelo: Bárbara fez que sim, sem despregar a boca do canudo. Com efeito, fazia um calor! Augusto desejou também uma laranjada> com muito, com muito gelo, recomendou.

Aflitivo. Parecia que Bárbara, apesar de brasileira, desdenhava do país. Ele não poderia amar uma mulher que desdenhasse do seu país.

De repente, Augusto tomou a resolução de romper com o feitiço; puxou da carteira um retrato e estendeu-o:

- Minha noiva.

Bárbara exclamou com candura:

- Que moreninha simpática!

Augusto baixou a cabeça para não ver mais os olhos cinzentos de Bárbara, em que uma luz verde e remota parecia zombar de sua pessoa simples.

Felizmente, o Rio estava próximo. Voltaram para o carro-salão. O tio de Bárbara continuava lendo o jornal.

A despedida, no cais, foi rápida e decisiva:

- Bárbara! Eu adoro-a!

- Don't be silly!

- Preciso encontrá-la de novo.

- Então venha me ver em casa. By by!

***

Telefonaria à noiva?

Andou até tarde, naquela noite, pelas ruas cariocas. Telefonar à noiva parecia-lhe renunciar ao maravilhoso e ao imprevisto.

Curiosa, aquela Bárbara Gray. Devia ser uma mulher absorvente. Que fluído!

Agitavam-se nele extraordinários impulsos para romper com a vida regular. Tomar um vapor e sumir na Argentina. Seria estupendo ser desgraçado em Buenos Aires, por paixão, pela sobrinha do inglês. Fantasias: a sobrinha do inglês morava ali mesmo. A ser desgraçado, valia mais a pena ser desgraçado no próprio país. Não era preciso a evasão.

Mas se ela voltasse a Londres, por exemplo? Soho Square! Árvores tristes; fachadas escuras, confidenciais. Greek Street! Pequeninas luzes à porta dos restaurantes chineses e italianos. "O senhor conhece Londres? É um mundo!" Naturalmente, um mundo. Trafalgar Square, e a multidão, como um grande rio despejado num vasto delta, rolando para Pall Mall, o Strand, Charing Cross! Claro, ele conhecia Londres no cinema. Mas, que importava o conhecimento das metrópoles europeias? Para ser feliz (até mesmo para ser um homem célebre), não era necessário sair de um burgo insignificante: Júlio Verne fora sempre um provinciano.

Telefonaria à noiva?

Agitava-se nele um demônio inquieto, insinuando a sedução da cidade, com seu mar, suas montanhas, sua noite excitante: cheiro violento das praias, aceno de vapores que passam no horizonte. Tudo na sua vida agora parecia mesquinho: Baependi, e o foro, e a Câmara Municipal, e as festas na Matriz, e os sobrados patriarcais em que as moças, depois do jantar, esperam a passagem do juiz para dizer com romantismo: "Boa tarde!"

Antes romper com tudo e arriscar. Arriscar uma bela vida aventureira, no tombadilho de um barco, descobrindo oceanos, desembarcando em cais estrangeiros, amando mulheres de diferentes nacionalidades (a filha de um domador de feras: o inglês seria um domador de feras?, a mulher de um fabricante de porcelanas, a viúva de um general que se suicidou depois de uma batalha perdida), endividando-se, complicando-se, rebentando, até pedir um dia a repatriação num consulado longínquo, e gastando o dinheiro do socorro pátrio, e acabando num hospital de cidade portuária, saudoso, tristíssimo, angélico, arrependido!

Era isso: não podia beber mais de dois uísques. Que rua era aquela. Rua de Santa Luzia. Uma serenidade quente vinha do mar. O bafo do vento vicioso dava saudades das montanhas de Minas: honestas e frias. Duas negrinhas riam numa esquina, fazendo sinais aos automóveis que passavam. A iluminação da Cinelândia projetava no céu borrões ofuscantes de tinta amarela. Caminhou para o hotel como que suspenso em asas vaporosas: não podia beber mais de dois uísques. Dava nisso... Dava nisso...

***

No dia seguinte, o inglês ficou indeciso quando viu no portão aquele rapaz alto e magro, que ele parecia ter encontrado num trem. Estava de cachimbo (naturalmente), a cuidar do jardim, empunhando um ancinho minucioso. Bárbara veio correndo e simplificou tudo:

- Titio, é aquele moço de Barra do Piraí.

O inglês fez que sim com a cabeça e com o cachimbo; ficou fora, no jardim. Augusto penetrou acanhado no salão de damasco vermelho.

Sentou-se. Esteve um longo tempo imerso em reflexões, sem saber que dizer, que pedir.

Enfim, percebeu que tinha as mãos de Bárbara entre as suas. Desculpou-se, enterrou as mãos nos bolsos do paletó.

- Como vai sua noiva? - perguntou ela, imprevista.

Augusto ficou confuso. Confessou que ainda não telefonara: ela não sabia que ele já chegara ao Rio.

Ficaram em silêncio. Ouvia-se o rumor do ancinho raspando a terra dos gramados. Um bem-te-vi retardatário pôs-se a piar no quintal vizinho.

Não compreendeu, de repente, porque é que tinha junto à sua aquela boca de lábios ansiosos, aquela pele queimada de sol, com reflexos alourados; as pintinhas das sardas também pediam beijos, uma por uma...

O bem-te-vi piava, piava.

***

Augusto encerrou-se no hotel à espera de Bárbara. Partiria com ela, não sabia para onde. Oferecera-lhe a sua vida, toda a sua vida.

Ao fim de dois dias ela telefonou, contente e irônica:

- Mas, fazer da sua vida o quê? Se a gente fosse aceitar a vida de todos os homens sem juízo! Don't he silly! Venha me ver em casa, à mesma hora. By by!

***

- Como é? Você por aqui, Augusto?

- Oh! Costinha! Dê cá um abraço!

- Quando chegou?

- Cheguei há uns dias.

- Me disseram que você estava noivo?

- Quem é que disse?

- Não sei. Não me lembro.

Augusto sorriu esquivo. Costinha parecia exigir uma resposta precisa. Insistiu:

- Até creio que conheço a moça... A filha do Serpa Rodrigues, não é? (Augusto fez que sim com a cabeça). Mas onde é que você pescou essa noiva bonita e rica? Que homem de sorte!

Discreto, Augusto murmurou apenas:

- Conhecemo-nos em Caxambu.

- Pois felicito-o! - exclamou Costinha, apertando Augusto em novo abraço. - Minha mulher andou com ela no colégio. Moça distintíssima! Vamos tomar um café.

Costinha arrastou Augusto para o Café Vitória. Estava desejosíssimo de dar pormenores sobre a sua luta no Rio: uma verdadeira luta, sim! E os filhos nascendo, um em cada ano. Estava agora com um escritório de publicidade. O Serpa Rodrigues era um camaradão. Arranjava-lhe sempre muitos anúncios - e bem pagos. Tipo generoso, aquele. Afinal de contas, quando a gente está na Faculdade de Direito, tem uma porção de sonhos, mas depois, na vida prática, vai verificando que as coisas não são como a gente quer. Tornara-se fatalista.

Augusto acenou que não. Costinha reagiu, caloroso:

- Estou convencido! A vida é que leva a gente, não é a gente que leva a vida! (Augusto sorriu com ceticismo: o bastante para Costinha exaltar-se mais). É inútil tentar me convencer do contrário! Um belo dia a gente se vê morando numa casinha da Estação de Marechal Hermes, com uma mulher feia, quatro filhos, seis meses de aluguéis atrasados; como também pode amanhecer diretor de banco, instalado em Copacabana, com três automóveis. Não, Augusto; a gente não sabe nunca por que as coisas sucedem. Vamos todos aos trambolhões. Pois você pode lá encontrar explicação para o João Meira - o João Meira, aquele cretino, que acabou lente de Direito Civil no Pará e de repente, por um bambúrrio, deram com ele como governador do Estado! O João Meira!...

Com efeito, Augusto achou um tanto absurdo que o João Meira, pouco inteligente, nada culto, fosse governador de Estado - e sobretudo lente de Direito Civil. Em todo caso, ele devia ter qualidades que não se revelaram senão mais tarde...

- Que qualidades? Soube deixar-se levar. Depois, casou-se com filha de político, pegou a ocasião por um fio de cabelo, e zás. Eis aí.

- Mas você, Costinha: onde estão os seus versos? Você na faculdade fazia tão belos sonetos!

- Sonetos! (Costinha arregalou os  olhos escandalizados). Olhe, no princípio do mês preciso de três contos para pagar uma promissória. Que é que me adiantam os sonetos? Três contos, ouviu, Augusto? Três contos! E fale-me de sonetos!

Augusto decidiu intervir na vida do colega com um conselho tímido:

- Ouça uma coisa: não lhe diz nada fazer concurso para juiz em Minas?

Costinha bebeu um trago de café e curvou-se para Augusto, em confidência:

- Você sabe da minha vida particular? (Augusto fez que não; naturalmente que não). Pois olhe, afundei aí num caso... Nem queira saber! Um caso de amor. (Fez uma pausa e concluiu, com amargura:) Dei uma cabeçada. Apaixonei-me por uma chilena. Levei o diabo!

Parou, bebeu mais um gole de café:

- Amor, Augusto, é isso. A gente mete os pés pelas mãos. E dizer-se que a minha Arminda é tão boa mulher! Mas, que quer você? Um belo dia, enjoei da vida regular, de família, de tudo: e quando vi, estava a bordo do Astúrias. O pior é que a chilena voltou e está agora nas minhas costas.

- Quer dizer que você tem duas mulheres?

Costinha disse que sim, erguendo os braços com desânimo.

- Portanto, Augusto, você compreenderá... Não posso deixar o Rio. Não venci na vida, mas tenho isto, pelo menos: o amor.

Augusto calculou que os três contos da promissória deviam ser para pagar o apartamento da chilena. Pobre vida... Que desorganização!

- Você sabe, Augusto, qual é a minha desgraça? (Augusto esperou a explicação). Sabe? Não sabe? (costinha fez sinal ao garção para que lhe virasse outro café na xícara e concluiu:) O demônio do romantismo.

- Ah! - exclamou Augusto, com um tom de reprovação na voz.

- Não me leve a mal a franqueza: mas vocês, os rapazes de espírito prático...

- Diga logo: os medíocres.

Costinha protestou: não! não era isso!

- ...eu digo apenas: os rapazes de espírito prático. Sim, vocês estão destinados a vencer na vida. Nunca são mordidos por esse demônio sarcástico e perverso, que na hora de assinar o contrato para um negócio, por exemplo, faz passar na frente da gente uma mulher de olhos verdes, pretos ou azuis. Lá se vai contrato, negócio, tudo: e toca a correr atrás do maravilhoso!

- A chilena...

- Foi isso. Foi precisamente isso. Imagine você que eu ia ser nomeado para a Carteira Jurídica do Banco do Brasil. Um lugarão: quatro contos por mês. Pois não lhe conto nada. Um belo dia, encontro a chilena que saía do gabinete do diretor, o Mendes. Conheceu o Mendes? A chilena era dele. Não resisti: dei em cima. Foi a conta. O Mendes veio a saber da coisa e barrou-me a nomeação. Naturalmente!

Augusto sorriu com ironia:

- É a isso que você chama romantismo, Costinha?

- Chame como quiser, Augusto. O fato é que deve haver um demônio da fantasia que me tem atrapalhado a vida. Não importa. Tenho pelo menos a consolação de ver que os meus velhos amigos, como você, sabem triunfar. Olhe, o Serpa Rodrigues tem mais de três mil contos...

Diante do gesto de repulsa de Augusto, Costinha bateu-lhe nas costas, emendou-se.

- Sei. Conheço o seu caráter. Mas em todo caso, que diabo, quando uma moça, além de bonita, pode trazer à gente uma situação estável e uma boa fortuna...

Augusto puxou do relógio: sete horas. Poderia telefonar a Madalena, dizer-lhe que havia chegado naquele dia. Com efeito! Estava perdendo a cabeça. Enxertar na sua vida aquele episódio passageiro, atribuir-lhe importância, esquecer a noiva, as coisas "práticas", como dizia o Costinha! Não se tratava de coisas "práticas", mas de bom senso, de juízo sólido.

- Olhe, Augusto, você sabe que o atual diretor do Banco do Brasil é íntimo do seu futuro sogro?

Augusto não sabia. Quem era o diretor?

- Um Espínola, de Sergipe. Manda um pedaço no Banco. O presidente faz o que ele quer. Se o Serpa Rodrigues tomar interesse: é tiro e queda: estou aqui, estou na Carteira Jurídica.

No Largo da Carioca os automóveis passavam buzinando, com uma velocidade imprudente. Garotos apregoavam os jornais da noite. Famílias apressadas corriam para tomar um bonde, com embrulhos e crianças. Boa cidade para viver bem, com calma, sem atribulações...

Costinha olhava fixo. Esperava uma resposta.

- Então? Você é capaz de me prestar esse serviço?

Augusto puxou outra vez o relógio: já o trem tinha chegado, ele podia fingir que acabava de desembarcar.

- Bom (tornou Costinha, vexado), não quero incomodá-lo. Se você não pode pedir...

Augusto levantou-se:

- Como não, Costinha! Para você, tudo!

... Não havia de ser por causa de uma moça leviana, como aquela Bárbara Gray, que ele demoliria o seu futuro. A vida era larga, fácil, opulenta: milhões de possibilidades andavam à flor da corrente. Levantou-se, agarrou Costinha pelo braço e caiu na rua. Para Costinha, tudo: os três contos, o pedido ao Serpa Rodrigues... tudo!

Sentiu um contentamento completo. Acabaria fazendo a vontade a Madalena: largava a Magistratura em Minas e vinha para o Rio montar escritório de advogado. Seria uma pedra sólida no edifício da ordem pública. O futuro lhe pertencia.

Costinha ficou muito admirado de ver que Augusto atravessava a Rua de São José aos pulinhos, como um menino que se diverte saltando poças da chuva num chão esburacado. Que demônio o teria mordido de repente?

***

Toda a finança do Rio de Janeiro desfilou pela casa de Serpa Rodrigues no dia do casamento de Madalena.

Bárbara estava fechada na memória de Augusto, como que dentro de um armário - desses armários de quarto escuro, onde nunca é preciso entrar. Integrado agora na família Serpa Rodrigues, Augusto se sentiu a salvo de qualquer desfalecimento. A tendência secreta para a irregularidade, que irrompera violenta com a aventura de Bárbara, estava agora definitivamente morta. Tinha que ser, em todo o resto da sua vida, um homem sério. Paciência! Era melhor isso que fazer as burradas do Costinha, sempre às voltas com os tais olhos verdes ou azuis, que ora davam com ele em Santiago do Chile, ora na Estação de Marechal Hermes.

Sobressalto: que fazenda era essa que Serpa Rodrigues oferecera à filha, como presente de núpcias?

- Em Bananal, meu bem. Papai comprou de um inglês esquisito, que tem uma mulher maluca... Maluca e bonita... falam muito dela.

Augusto baixou a cabeça, esmagado. Sua primeira noite com Madalena estava prejudicada por aquelas revelações. Então Bárbara não era sobrinha do inglês, era mulher dele?

- Mas por que em Bananal, Madalena? Por que em Bananal, onde seu pai nunca pôs os pés?

- Caprichos do papai. Você sabe, nessas coisas femininas ele tem suas fraquezas... O inglês quer vender tudo e voltar para a Inglaterra.

- E a mulher fica?

- Não sei, papai é que sabe... Caprichos! Mas não falemos disso agora, meu bem. Você não querendo, nós vendemos a fazenda e compramos outra em Minas.

Augusto teve um gesto de revolta e cobriu a cabeça com a colcha. Ficou a espiar o quarto através da renda, como se tudo - inclusive o corpo de Madalena - estivesse coberto de uma neblina de absurdo. O demônio da fantasia - da fantasia de Serpa Rodrigues, desta vez - vinha persegui-lo até dentro da sua nova família, da sua nova existência?

Madalena apagou a luz. Na obscuridade, o rosto sardento e o cabelo cor de cobre de Bárbara pareceram aproximar-se das narinas de Augusto. Não era obscuridade, era damasco vermelho que o rodeava. De fora vinha um arrastar de passos: ancinho enorme raspando a terra de um canteiro. No seu cérebro seco e lúcido havia uma expectativa: Augusto queria escutar o pio do bem-te-vi, chamando, chamando...