Jornais (cont.)
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A Tarde - 1900
No dia 1º de agosto de 1900 saiu o número inicial de A Tarde, de propriedade de uma
associação. Parecia um jornal clandestino, como vários outros, pois não publicava o nome do responsável nem o endereço da redação. Lemos os números
8 e 10, correspondentes aos dias 8 e 24 de agosto de 1900, e não apreciamos sua leitura.
Jornal que explorava com destaque os boatos, sobretudo os de natureza política. Havia até uma
seção com o título Boatos Políticos. E uma outra de diz-que-disse, com o título Dizem..., além de uma tipo trepações com o
título Em Cima do Telhado. Tinha mais: Lingüiça, assinada por Fagundes; Na Porta do Céu, assinada por Gip; Cacoetes e
Objetos Perdidos, seção humorística à moda de A Sogra e O Apito.
Com o título O Grupo do Vigário, na edição de 8 de agosto de 1900, dava cores chistosas à
solenidade de inauguração do Grupo Escolar Dr. Cesário bastos, afirmando que, à falta de professores, vereadores tomaram assento para reger as
cadeiras de Química e Física, Trabalhos Manuais, Geometria, ABC, Geografia e História. Por fim, dava parabéns ao dr. Cesário Bastos pela escolha que
ele mesmo fez do seu nome para o estabelecimento escolar...
O Boer - 1900
29 de novembro de 1900 foi a data da fundação do jornal O Boer, dirigido por Demétrio
Tourinho. Leiamos o registro que dele faz A Tribuna em seu número de 1º de dezembro de 1900: "Circulou
anteontem o primeiro número deste interessante jornalzinho dirigido pelo nosso talentoso colega Demétrio Tourinho. O artigo de apresentação, em 1
1/2 coluna, lê-se com satisfação num abrir e fechar d'olhos. Outros artigos: 2 de dezembro e a Guerra Anglo-Boer estão magnificamente traçados pela
pena estrelante o seu redator. Excelente e bem-vindo seja Boer. A impressão é nítida e faz honra às excelentes oficinas tipográficas do jovem
colega. O Boer é um paladino da causa justa do Transvaal".
El Bersagliere - 1900
Em maio de 1900 circulou o jornal El Bersagliere, em idioma italiano, sob a orientação de
um operário de nome Giuseppe. A Tribuna, de 28 de maio de 1900, deu a propósito a seguinte nota: "Com
título que, por si só, vale por um programa, porque indica uma incumbência cheia de valentias, circulou ontem nesta cidade um hebdomadário
consagrado aos interesses da colônia italiana. É seu redator o inteligente e esforçado operário Giuseppe, que bem aproveita os seus lazeres. Oxalá
os italianos aqui residentes saibam as intenções desse seu digno compatriota, enchendo de vida o bem cuidado jornal com que os acaba de brindar.
Nossas saudações ao novel colega".
A Fanfarra - 1900
A Fanfarra quase saiu num dia de Finados. Mas publicou-se na véspera, num dia de Todos os
Santos. Nem assim mesmo foi abençoada. Enfim, era preferível fanfarra que fanfarrão. Fanfarra em nossos tempos está em moda. É corporação de
instrumentistas de sopro e de percussão, como se sabe, enquanto fanfarrão é sujeito que se arroga de enérgico, duro e valente sem o ser. De qualquer
jeito, o título não era próprio para jornal.
Vamos ler o que A Tribuna, em sua edição de 2 de novembro de 1900, escreveu sobre a saída
de A Fanfarra: "Recebemos o 1º número do interessante jornalzinho que, ontem, à tarde,
principiou a circular nesta Cidade. É bem escrito e tem leitura variada e, como diz em seu expediente, será publicado duas vezes por semana se for
animado pelo público. Apesar de só agora sabermos o pavor, o pavor também anima. Desejamos ao A Fanfarra longo e próspero futuro".
Santos - 1901
Um dos primeiros jornais a aparecer na Cidade neste século
(N.E.: século XX) e o único em 1901 tinha o
nome de Santos. Ocorreu no dia 13 de novembro de 1901. Quem o dirigia era o jornalista Deoclécio de Oliveira, ex-redator de A Tribuna.
Todos os demais jornais da Cidade deram rápidas notas sobre o surgimento de Santos, como
A Tribuna em sua edição de 15 de novembro de 1901. Leiamo-la: "Com este título, começou a
circular anteontem nesta Cidade um jornal vespertino, sob a redação do sr. Deoclécio de Oliveira, que outrora foi nosso companheiro de trabalho.
Satírico e noticioso, o novo jornal está destinado a fazer carreira. Auguramos-lhe farta colheita de proventos, que os terá, se o seu redator
mantiver apurado critério ao joeiramento dos assuntos".
Vanguarda Portuguesa - 1902
Imagem publicada com o texto, na página 105
Vanguarda Portuguesa era órgão oficioso da colônia de Portugal em Santos. Publicava-se às
segundas-feiras. Propriedade e direção de Paulo Cunha. Custava o número avulso cem réis. Por ano dez mil réis e por semestre cinco mil réis.
Seu primeiro número aparece no dia 4 de dezembro de 1902. Já o terceiro número circulou com
ligeiro atraso, no dia 22 de dezembro. O jornaleco, todavia, não se restringia a assinalar temas de interesse da laboriosa colônia lusa. Ia adiante.
Comentava e poluía. Criticava e xingava.
Bem! Naquele tempo, a imprensa ainda usava linguagem áspera, mesmo jornais como a Vanguarda
Portuguesa, que se intitulava imparcial, sóbrio e patrono da coletividade portuguesa de Santos. Do terceiro número por diante passou a circular
às quartas-feiras e introduziu melhoramentos tanto no setor gráfico quanto no redatorial.
Alberto Veiga, em comunicado publicado em A Tribuna, onde era redator-chefe em 1902,
esclareceu que não fora convidado para assumir a direção do jornal da colônia portuguesa. Esse terceiro número surgiu a 22 de dezembro de 1902.
A Coisa - 1902
Segundo o pesquisador Durwal Ferreira, e também o jornalista e escritor João Gualberto de Oliveira
em seu esplêndido livro Nascimento da Imprensa Paulista o registra, o periódico A Coisa foi distribuído a 27 de dezembro de 1902.
Durwal Ferreira anotou que, em seu artigo de apresentação, o semanário dizia-se "órgão
humorístico, mas leve no fundo".
Todavia, nas pesquisas a que procedemos nos jornais A Tribuna e Diário de Santos,
dias antes do lançamento, no dia do lançamento e nos dias subseqüentes ou até abril de 1903, não deparamos com qualquer referência, por mais rápida
ou abreviada ou mesmo crítica negativa sobre o hebdomadário, cujo título, na verdade não era coisa de se levar muito a sério...
Asa - 1902
Na edição de 7 de dezembro de 1902, A Tribuna, ainda sob a direção de Olímpio Lima, publicou esta
nota: "Participam-nos que brevemente circulará nesta Cidade mais um jornal - A Asa,
crítico, humorístico e literário, sob a direção do sr. Davi Abreu".
A despeito de nossas pesquisas não conseguimos topar com qualquer notícia que confirmasse a saída
de Asa. Nem mesmo A Tribuna deu mais qualquer nota. Estranhável o nome do periódico. Asa? Naquele tempo, ainda não se conhecia asa de avião.
Só de galinhas...
A Revisão - 1904
Não se tratava de periódico de defesa e elogio à missão do revisor de jornal, aquele que emenda
provas, enxuga-as dos erros e até mesmo emenda originais, arrumando descuidos do redator ou corrigindo-os de incorreções gramaticais. Nada disso.
Nada de louvar e defender o ofício desse "bode expiatório" do jornal!
A Revisão era órgão diferente, quiçá pretensioso. Tinha por missão a Política, a
Literatura, a Notícia e o Comércio. Nada, pois, com o pobre e culto revisor. Jornal Bissemanal. Seu primeiro número circulou no dia 3 de março de
1904.
O Mercantil - 1904
O Mercantil - o 3º desse nome - surgiu em 1904. Folha diária e vespertina. Como registrava
no cabeçalho, era leitura para bonde, com "tiragem colossal". Como se tratasse de jornal humorístico, assinalava haver saído pela primeira vez no
sábado de Aleluia.
Dispomos de xerox da edição de 16 de outubro de 1904. Dava nota alongada do aniversário do
Diário de Santos, elogiando-o e enaltecendo a figura do seu fundador dr. José Emílio Ribeiro Campos. Ao lado, ouras notas, em destaque, dos
bailes do Argonautas, Tenentes do Diabo e Filhos do Inferno, populares agremiações carnavalescas da época. Na primeira página, também uma notícia
sobre aparecimento de uma baleia em Praia grande, onde permaneceu durante oito dias, inanimada em frente ao sítio de Davi de tal. No mais, eram
notas telegráficas da guerra russo-japonesa.
Interrompendo a publicação, O Mercantil ressurgiu em 1905, em nova e movimentada fase, sob
a direção de Leovigildo Trindade e Lúcio Brasil. Como ela própria noticiava, era "propagadora,
literária, noticiosa, humorística e... buliçosa".
O Jornal - 1905
Imagem publicada com o texto, na página 107
Cercado de vivo interesse em face do nome do seu diretor, foi lançado a 9 de março de 1905 o
matutino O Jornal. Propriedade de J. Filinto & Cia., com redação e administração na Rua 15 de Novembro nº 18. Seu diretor, o poeta, político
e advogado Vicente de Carvalho. As assinaturas para Santos custavam 25$000 e por semestre 16$000. Número avulso 100 réis e atrasado 200 réis.
A seção de Reclamações fazia-se alongada devido aos inúmeros casos problemáticos
encaminhados à redação. Na edição de 22 de março de 1905, em seu número 3, cuja cópia, em xerox, possuímos, o semanário registrava que, sendo
anunciada a substituição das primeiras letras e cautelas provisórias do empréstimo da Câmara de 1902, veio a Santos o sr. Joaquim Prudente Correia,
de Ribeirão Preto, possuidor de cautelas. Indo à Câmara, responderam-lhe estar o encarregado do serviço doente. Voltou à repartição no dia seguinte.
Nada. O homenzinho continuava doente ou pelo menos não havia comparecido. Enfim, durante cinco ou seis dias, o sr. Correia bateu às portas da Câmara
e não conseguiu seu intento: simples substituição das cautelas.
Decepcionado e descorçoado, o homem de Ribeirão Preto, sentindo acumular-se a série de despesas
com sua permanência em Santos, decidiu fazer reclamação ao O Jornal, que o atendeu e lamentou o caso. E a nota terminava com este argumento risível:
"- E se o tal funcionário resolvesse nunca mais voltar à Câmara por demissão espontânea ou por
morte? Os possuidores de títulos e cautelas jamais as substituiriam?"
Apresentava as seguintes seções: O Dia, O Interior, Telegramas,
Reclamações, Foro, Jornais de São Paulo, Ao Sol, Croniqueta, Informações, Esportes e outras. O
Jornal tinha bom corpo de colaboradores. Valdomiro Silveira era um deles. No número 87, de 21 de agosto de 1905, publicou uma crônica com o
título Noivos, de autoria do brilhante romancista.
O Empata - 1905
No mês de julho de 1905 surgiu o primeiro número do jornalzinho O Empata, de humorismo
pesado. Como dizia no cabeçalho, era "jornal de leitura quente para gente fria".
Diretores: D. Fancho e Juca Teso. Colaboradores: diversos. Publicava-se semanalmente e custava 100 réis o exemplar. Teve curta duração. Devido à sua
linguagem desregrada, não dosada e avançada, a Polícia achou melhor deitar-lhe as mãos...
No seu número 4, de 7 de agosto de 1905, que manuseamos e lemos "ao vivo", havia a seguinte
matéria: Trocando as pernas (de Malungo); Cartão Postal; História de um broche; Um Adultério; A Semana; Arca
de Noé (bichos do dia) e excêntrico concurso Qual a cocote mais elegante de Santos? Abaixo do cupom, o resultado da apuração anterior,
seja a seguinte: 1º lugar - Berta Gioconda - 160 votos; 2ª - Anália - 100 votos; 3º - Maria Portuguesa - 80 votos; 4º - Vitória - 61 votos; 5º -
Berta Palhaço - 50 votos.
O Empata, com dirigentes que se escondiam à responsabilidade, usando grotescos pseudônimos,
tinha maior circulação no ambiente da boemia e licenciosidade na Cidade. Mas acabou empatando mesmo! Não deu lucro e foi por água abaixo...
O Dois de Fevereiro - 1905
A única fonte que registra a existência de O Dois de Fevereiro - jornal humorístico do ano
de 1905 - é João Gualberto de Oliveira em seu livro Nascimento da Imprensa Palista.
Em nenhuma de nossa pesquisas, que foram pacientes, demoradas e árduas, manuseando milhares de
jornais, revistas, folhetos e outras publicações, deparamos com qualquer indicação sobre esse periódico.
No entanto, respeitamos a fonte. Fica O Dois de Fevereiro registrado também em nosso
despretensioso livro.
Boletim Comercial - 1905
Imagem publicada com o texto, na página 109
O Boletim Comercial era composto e impresso em São Paulo e tinha escritório e redação na
Rua Episcopal nºs 53 A 55 A. Propriedade de Ramos & Cia. e seu primeiro número circulou a 2 de abril de 1905.
Dizia seu artigo de apresentação: "O
Boletim Comercial, publicação periódica da casa Ramos & Cia., é como indica o próprio título escolhido, um informante junto à Lavoura de tudo
quanto a possa interessar, no tocante à venda e consumo de seus principais produtos".
E mais adiante: "O Boletim Comercial,
partindo dos grandes centros do Comércio, como são hoje São Paulo, Santos e Rio de Janeiro, só terá um intuito - guiar com acerto os que, distantes
do meio em que têm procura seus produtos, nem sempre estão a par das verdadeiras cotações, possibilidades de oscilações, conforme notícias que nós
outros, comissários, possuímos por meio de telegramas dos mercados estrangeiros".
Com o passar do tempo, Boletim Comercial muito se vinculou à Praça de Santos, como órgão
comum do nosso comércio cafeeiro.
O Mercantil - 1905
O Mercantil, já na fase segunda, correu pelos limites da ainda acanhada Santos no ano de
1905, que marcou o início das obras de saneamento da Cidade, segundo planejamento executado por Saturnino de Brito. Como se insinuava no cabeçalho,
era folha "propagadora, literária, noticiosa, humorística e buliçosa..."
Dirigiam-no Leovigildo Trindade e Lúcio Brasil.
Não apenas Durwal Ferreira, o pesquisador correto e seguro, mas também João Gualberto de Oliveira
em seu livro Nascimento da Imprensa Paulista, que lançou em 1978 e logo morreu, registram o periódico. Como assinalamos, foi a segunda e
última fase desse jornal surgido no ano anterior.
O Verso - 1907
O Verso publicava-se mensalmente. Crítico, humorístico, político e literário. Dizia-se
órgão do belo sexo, dirigido e redigido por Sebastião Gonçalves Leite e Pereira de Carvalho, com diversos colaboradores. Tudo em verso. Mesmo o
expediente. Até os anúncios.
A única matéria não versificada era um concurso de beleza por meio de cupons. No número 2, que
circulou em outubro de 1907, ano primeiro, esse concurso apresentava a seguinte posição: 1º lugar: Estela Reis - 21 votos; 2º lugar: Maria Alice C.
Oliveira - 20 votos; 3º lugar: Fileta Presgrave - 20 votos; 4º lugar - Maria Antonieta Caiaffa - 19 votos; 5º lugar: Ida de Breyne - 15 votos;
Deolinda Teixeira (14), Albertina Mendes (14), Maria Angélica (13), Edeltrudes Freire (8), e outras menos votadas.
Títulos da matéria publicada nesse número 2: Homenagem póstuma a Olímpio Lima; Rui
Barbosa; A América; Devaneio, de Maria Cruspianiana, de Jambeiro; Perfis, de Ricardo Cavalcanti; Sargas, de Magus;
Traçando e Troçando (humorismo); Piada; Arrufos, de Leal Santos; Soneto, de Carmelita Amália; Pensando..., de Custódio
Pereira de Carvalho; Extremos, de Rodrigo Otávio; Descendo ao túmulo, de Ângelo Sousa; Rapazitos, de Santos Marques (poeta
cego); Plágio; Versos em tudo e Diário de Santos (homenagem pelo seu aniversário).
A Sanfona - 1908
Com esse título só poderia ser jornal grotesco, excêntrico e faceto. Era-o. Como número único,
apareceu no Carnaval de 1908, na segunda-feira gorda, de propriedade de uma associação. Como se inscrevia no cabeçalho, A Sanfona comunicava ser
órgão da folia, de Momo etc. e sua redação e oficinas ficavam no centro da Praça Mauá (Praça Visconde de Mauá).
Inseria artigo, comentários, crônicas, piadas e ilustrações, além da nota de abertura em que
traçava seu programa. Tudo em linguagem chistosa e burlesca, que provavelmente fazia rir o pessoal daquele tempo. Inculcava-se jornalzinho cheio de
graça. Lendo-o, em cópia de xerox, não achamos graça em nada, mas somos os primeiros a admitir que, naquele tempo - há 71 anos - o dito espirituoso
era muito mais simples, ordinário e fraco. Se o jornaleco expusesse mil graças, hoje não passariam de dez... graças!
Essas "gracinhas" do passado não fariam rir nos dias de hoje nem a basbaques de camelô a contar
piada em praça pública com a indefectível e inofensiva serpente ao lado...
Deixaremos de registrar detalhes desse número único de A Sanfona porque todo o seu texto é
recheado de humorismo estapafúrdio e intolerável. Mas diremos que se diretor chamava-se Paulo Tromba.
Pelo menos esse pasquim dava o ano: 1908. E A Retaguarda? Em que ano foi editada? Eis o seu
cabeçalho: "Jornal único, sem dependência... de cupons. Ano da Graça. Reinado de Momo -
2ª-feira gorda. Número 118".
O Carnaval de Santos começou em 1858. Já tivemos portanto 120 segundas-feiras gordas. Nesse caso,
A Retaguarda corresponderia ao ano de 1976. Deus nos livre!
Como A Sanfona, também apresentava comentários, piadas arrepiadas e ilustrações. Ainda as
seções Rebotalhos à lá Diable, Terra Ingrata e outras. Tudo porém sem qualquer senso espirituoso ou irônico.
É de ver que em nossos dias são editadas publicações especializadas às vésperas da fase momesca.
Não porém para fazer graça e provocar o riso do leitor. oferecem, isso sim, roteiros dos bailes e desfiles.
Quer dizer, mais com o sentido informativo e publicitário!
A Bomba - 1908
Os órgãos facetos brotavam em Santos como cogumelos, não apenas no século passado como no início
deste. Mas assim como apareciam sem prévio aviso, desapareciam de um momento para outro. A nossa pesquisa sobre a existência desses pasquins foi
árdua, sabido que alguns deles nasciam num dia e morriam no mesmo dia ou no dia seguinte.
A Bomba, hebdomadário, foi das raras exceções. Pelo menos durou mais de seis meses.
Manuseamos e lemos o nº 41, que se encontra no Instituto Histórico e Geográfico de Santos. Era jornalzinho minúsculo, cor-de-rosa, dirigido por
Buscapé & Olopscel. Custava 100 réis o número avulso. No cabeçalho, logo depois do título, a inscrição "Órgão
com explosão de graça".
Esse número 41, ano primeiro, saiu no dia 23 de maio de 1909. Seu expediente era chistoso. "Cada
galinha com seu pevide. Cada cachorro com seu dono. Órgão fundado como intuito de durar até a última edição. Assinaturas não aceitamos porque não
queremos prejudicar os nossos bons amigos por não sabermos se teremos gloriosa recepção. A correspondência deverá ser enviada para a Posta Restante
do Correio. A correspondência com porte a pagar não será retgirada do Correio".
O número 41 continha 6 páginas, sendo 4 de ineditoriais e 2 de editoriais. Títulos das seções:
Coisinhas; Ilusão, Instantâneos; Prosa Fiada; Correspondência de um caipira; Pombas Soltas e anúncios do Café
Java, Teatro Guarani, Alfaiataria de Eduardo Passos, Casa de Frutas Ao Mendes, Agência de Jornais de José Paiva Magalhães e Ao Mandarim.
A Bomba promovia original concurso. Queria apurar, por meio de cupons, o moço mais cabuloso
de Santos. Resultado da apuração havida na véspera da circulação do jornal: 1º lugar - Agostinho da Luz - 63 votos; 2º lugar - Germano Correia - 46
votos; 3º lugar - Deodato Caetoni - 12 votos. A Bomba surgiu pela primeira vez em agosto de 1908.
A Vanguarda - 1908
Imagem publicada com o texto, na página 112
Em 1908, com absoluta certeza, foi publicado pela primeira vez o jornal A Vanguarda.
Matutino de que era redator-chefe Silvino Martins, tinha tendência partidária, vinculado ao Partido Republicano, a cujos interesses defendia com
intransigência.
O número 1.212, do IV ano, de 1º de março de 1912, uma sexta-feira, de que temos cópia, trazia o
resultado das eleições para a Câmara dos Deputados, em que seu candidato, Renato Cardoso de Melo, perdera para seu oponente Galeão Carvalhal,
afirmando o jornal de Silvino Martins ter havido traição.
Em 1912 apresentava as seguintes seções: Fatos Sociais; Telegramas; Apontamentos;
O Dia, Efemérides; Comentários, de autoria de Lucius; Palcos e Salões; Queixas do Povo; Pela Aduana;
Notas Diversas, além do artigo de fundo sempre assinado por Silvino Martins.
No dia 20 de janeiro de 1912 promoveu concurso entre seus leitores, cabendo os prêmios aos
portadores do jornal cujos números correspondessem com o sorteio realizado na redação. O prêmio principal coube à assinante Lúcia Azambuja residente
no Hotel Globo; o segundo prêmio ao assinante Manoel da Rocha, residente à Avenida Conselheiro Nébias, 272, e o terceiro prêmio ao dr. Ernesto Pujol,
advogado, com moradia em São Paulo.
Os prêmios: rico centro de mesa, de prata, com 5 pratos; rico serviço de prata para café e uma
estatueta de bronze sustentando um relógio.
O jornal viveu exatamente 4 anos.
Capa do jornal A
Vanguarda número 73, de 4 de janeiro de 1909
Imagem: arquivo Edgard
Leuenroth, da Unicamp (Campinas/SP)
Reproduzido de
A imprensa e a cidade de Santos, de Alexandre Alves, Santos-SP, 2008
A República - 1911
A República tinha uma curiosidade em relação aos nossos tempos. Circulava à noite. Hoje
temos folhas e diários da noite mas circulam às primeiras horas da manhã, ao clarear do dia...
Foi fundado no ano de 1912 e dirigido por Raphael Henriques, o homem que criou outros jornais,
embora nenhum deles tivesse efetividade organizacional.
- No outro século, lá pela oitava década (N.E.:
portanto, cerca de 1880), também circulou um jornalzinho com o nome de A República.
Temos abreviado registro em nosso arquivo. Todavia, em nosso serviço de buscas e rebuscas, debruçados sobre velhos jornais de páginas amarelecidas,
muitos gastos e dilacerados, não topamos com qualquer indicação sobre tal publicação.
Xavier da Silveira, o grande poeta, o homem que arrebatava multidão quando discursava, foi o seu
redator.
O 31 de Janeiro - 1911
Número único - raridade portanto - foi distribuído no dia 1º de fevereiro de 1911 pelo Centro
Republicano Português o jornal O 31 de Janeiro, em comemoração ao aniversário da revolução republicana que eclodiu em Portugal.
Quem o editou e distribuiu aos associados e demais elementos da colônia portuguesa do Município
foi o próprio Centro Republicano Português.
O Proletário - 1911
Surgiu a 3 de junho de 1911 o jornal O Proletário, que, como indica o título, era folha de
união e defesa operária de Santos.
Em seu artigo de apresentação sublinhava que os proletários ganharam, enfim, um elemento de
comunicação que lhes protegerá e preservará os legítimos direitos, mas para tanto devem constituir-se em bloco coeso, uno, valoroso e, acima de
tudo, pacífico e respeitador dos preceitos político-sociais.
Registrando o lançamento de O Proletário, A Tribuna assim se manifestou em sua
edição de 4 de junho de 1911: "Apareceu ontem nesta cidade mais um jornal, cujo programa é a
defesa das classes trabalhadoras, para cuja emancipação trabalhará à medida de suas forças. De feitio pequeno, porém cheio de boa colaboração, O
Proletário está sujeito a brilhante futuro, pois para isso logo concorrerão os esforços dos seus redatores e a boa aceitação que lhe dispensou o
público santense. E isso é o que almejamos nós".
Capa da sétima edição de
O Proletario, de 1 de janeiro de 1912 (ano 1)
Imagem: arquivo Edgard
Leuenroth, da Unicamp (Campinas/SP)
Reproduzido de
A imprensa e a cidade de Santos, de Alexandre Alves, Santos-SP, 2008
A Notícia - 1912
Nos primeiros dias de maio de 1912 surgiu na "arena jornalística" de Santos o jornal A Notícia,
que saía à tarde, dirigido por Antônio Stockler de Araújo e João Carvalhal Filho. Tinha como secretários Euclides de Andrade (Epandro) e Valentim de
Morais. Do número de 24 de outubro de 1912 em diante, no cabeçalho, passou a indicar o endereço do escritório e redação, ou seja, Rua 24 de Maio,
atual Tuiuti, 41. Desempenhava as funções de gerente o sr. José Conti, que as deixou a 22 de novembro de 1912.
Para tornar-se mais popular, o jornal distribuía prêmios aos assinantes e prêmios atraentes, como
10 libras esterlinas, viagem à Argentina, máquina de costura, aparelho de porcelana e caixa de vinho do Porto. Tinha bons colaboradores. Um deles,
Afonso Schmidt.
Em agosto de 1913, o jornal, já não contando com o concurso do dr. João Carvalhal Filho,
transferia oficinas e redação para aa Rua General Câmara, 96 (baixos).
Afinal, também sem os jornalistas de renomeada, como Euclides de Andrade e Valentim de Morais,
A Notícia passou à responsabilidade de Artur Carratão, que deu uma reviravolta em sua orientação, passando a defender francamente da Alemanha em
sua guerra com os países aliados.
Só que não se sabe se foi por convicção doutrinária, diremos melhor germanofilia, ou por
conveniência financeira. Foi o fim inglório da folha.
Faz-nos evocar episódio ocorrido com o diretor de A Tribuna, Nascimento Júnior, durante a
2ª Guerra Mundial, em 1947, quando à noite achegando-se à nossa mesa (éramos secretário) falou baixinho:
- Se eu bebesse hoje tomaria um pileque.
- Por quê, seu Nascimento?
- Paguei a última prestação (título)
do empréstimo que fiz no Banco Germânico para construir este prédio (prédio da General
Câmara).
Poderia não pagar nenhum título se aceitasse a propostas deles para que o jornal se mantivesse
neutro no conflito mundial!
Na verdade, o velho estava emocionado e contente. Ele poderia ter outros defeitos sérios, mas era
um homem de mãos limpas. Fosse noutros tempos...
Voltemos ao nosso Artur Carratão, cidadão português que sempre viveu de publicidade e a editar
álbuns e prospectos.
Quando se deu o ato de declaração de guerra do Brasil à Alemanha, o povo foi às ruas em passeata
cívico-patriótica e não sobrou nada que cheirasse a alemão, como estabelecimentos e até o Clube Germânia. E invadiram redação e oficinas de A
Notícia, destruindo-as totalmente.
Jornal de Santos - 1912
Imagem publicada com o texto, na página 114
Começou a circular a 1º de dezembro de 1912, num domingo, de propriedade de uma sociedade anônima.
Dizia-se órgão independente, compunha-se de 4 páginas e de grande formato. Tinha redação na Praça dos Andradas, 11-A, e dirigia-o Luiz Correia Paes.
Sendo seu direto alto funcionário aduaneiro, publicava muita matéria sobre a Alfândega e Guardamoria. No expediente, comunicava ao público que os
anúncios de Aluga-se, Oferece-se e Precisa-se até o máximo de três linhas seriam publicados gratuitamente até o final daquele
mês.
Entre as seções, estas: Tiro ao Alvo, de Smith and Wesson; Os Nossos Inquéritos;
O Momento; Teatros e Cinemas; Sociais. Nos números seguintes já saía a seção esportiva. Em média, publicava 6 páginas.
Abandonando a folha, Luiz Correia Paes continuou na sua profissão de jornalista. Pertenceu a
alguns outros jornais, sobretudo a A Tribuna e Jornal da Noite. Na segunda fase de Jornal de Santos, Álvaro Campos assumiu-lhe
cargo de chefia.
A Berlinda - 1913
Cumba Júnior, funcionário público lotado na Guardamoria da Alfândega de Santos, era homem que se
consagrava às Letras. Escrevia versos publicados em jornais da Cidade e da Capital, como produziu em Santos um livro de contos. Jornalista,
trabalhou na redação de A Tribuna e colaborou em vários jornais e revistas. É patrono de uma cadeira na Academia Juvenil de Letras de Santos.
No dia 13 de março de 1913, ele editou o semanário humorístico e literário A Berlinda. Todavia, a publicação não durou muito.
O Dia - 1913
O Dia foi um jornal caipora. Marcou sua entrada triunfal na "arena jornalística" no dia 16
de março de 1913, mas sobreveio desarranjo de última hora na máquina de impressão. Saiu dois dias depois, ou a 18 de março de 1913. Tinha redação na
Rua de Santo Antonio, atual Rua do Comércio.
O Dia, antes do seu aparecimento, fez propaganda nos outros jornais, salientando ser jornal
firme, de combate, noticioso e de informação séria e variada.
Jornal de Santos, numa de suas crônicas, salientou que o público estava ávido por conhecer
O Dia que, dizia, viria iluminar as costumeiras trevas santistas... Afinal, o jornal não iluminou nada. Ficou preto.
Segundo noticiou A Tribuna em sua edição de 1º de agosto de 1913,
"o dr. Antônio José da Costa e Silva, juiz de Direito da 2ª Vara, decretou a falência da
Sociedade Anônima O Dia, sendo o feito distribuído ao Cartório do Escrivão Pompílio de Mendonça".
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