Atropelado pela Internet
Mário Persona (*)
Colaborador
Ao contrário
do que se pensava, a onda de artigos e notícias sobre segurança
na Internet, hackers, roubo de cartões e coisas do tipo tem
servido de propaganda para o comércio eletrônico. Do mesmo
modo como as notícias de assaltos levam você a se prevenir
com medidas de segurança mais sofisticadas, todo esse alarde sobre
a Internet está fazendo dela um meio cada vez mais seguro de negócios.
Se o uso da Internet para negócios
não fosse viável e confiável, os bancos jamais teriam
entrado nessa mídia. Porém eles estão todos se acotovelando
para conquistar seus clientes na Rede e, como dizia um amigo meu, se os
banqueiros resolverem pular do décimo andar, pule atrás que
é bom negócio. Do mesmo modo como o noticiário diário
de atropelamentos, assaltos e homicídios nas ruas comerciais de
nossas cidades não conseguiu acabar com o comércio tradicional,
não será a imprensa marrom do ciberespaço que conseguirá
acabar com o comércio do futuro. Os negócios pela Rede estão
crescendo e expandindo sua área de ação.
Interligação
- O sistema todo irá se tornar uma gigantesca cadeia comercial,
muito diferente das lojas isoladas que encontramos hoje. E não podia
ser diferente, já que a própria Internet, o meio usado pelo
e-commerce,
é avessa a qualquer idéia de isolamento. Não faz muito
tempo que o microcomputador era considerado o grande responsável
por sensíveis mudanças no mundo dos negócios.
Logo veio o impacto da popularização
das redes internas, fazendo das empresas um grande arquipélago de
ilhas de informação espalhadas por mares e canais intransponíveis
para pequenos navegantes. A navegação, cara por sinal, ficava
por conta dos grandes galeões corporativos que tivessem lastro suficiente
para criar suas próprias redes externas. Hoje é a Internet,
e não o microcomputador, a grande responsável pelas mudanças
que estão ocorrendo no mundo dos negócios. A rede mundial
construiu as pontes que faltavam para interligar as ilhas de informação,
formando uma malha praticamente à prova de bloqueios no tráfego.
O próximo passo foi colocar
as empresas em contato direto com seus clientes, popularizando o comércio
eletrônico. Mas o impacto da Rede não parou aí. Do
mesmo modo como a Internet surpreende por sua rapidez e capacidade de se
ramificar, as empresas de Internet não pararam para contar a féria
do primeiro espetáculo que foi colocar todo mundo conectado. Passaram
à busca de soluções inovadoras que utilizassem o pleno
potencial dessa cadeia de transferência de informação.
E o comércio eletrônico, que parecia limitado à comunicação
vendedor-comprador, passou a ser um elo de uma cadeia maior envolvendo
fornecedores, fabricantes, comerciantes e clientes.
Entrada - Pense em uma indústria
qualquer. De um lado ela tem seus fornecedores, com os quais quer manter
uma relação de entregas programadas a intervalos reduzidos
para evitar estoques. Da enorme quantidade de itens que ela comprava por
mês, agora os fornecedores deverão entregar apenas o que a
fábrica vai consumir em, digamos, dois ou três dias.
O trabalho envolvido na verificação
diária dos estoques, digitação de pedidos, ligações
telefônicas e envio de pedidos por fax poderia inviabilizar o projeto.
Multiplique isto pelo número de insumos provenientes de diferentes
fornecedores e o resultado será um exército de secretárias
consumindo a lucratividade da empresa.
Em uma economia alheia à Rede
seria impraticável pensar em algo assim. Mas a Internet tornou isto
possível e eu mesmo estou em contato diário com empresas
que utilizam um sistema assim. Elas disponibilizam a cada um de seus fornecedores
sua posição de estoque dos itens envolvidos na transação
e gera pedidos de compra quando esses níveis atingem valores mínimos.
Nada de fax ou telefonemas. A fábrica
e os fornecedores se comunicam quase em tempo real utilizando um browser
comum de navegação na Internet, consultando na tela ou imprimindo
as tabelas com as informações de compra, dentro de um ambiente
seguro controlado por senha. Tudo isso sem problemas de horário
ou distância e sem precisar ligar para perguntar se o fax chegou
legível.
Saída - Agora vamos
olhar para o outro lado dessa mesma fábrica, a saída do produto
acabado. Seu canal de distribuição depende do vendedor da
empresa que visita os revendedores uma vez por mês, expõe
os catálogos e mostruários com os novos lançamentos,
procura despertar neles o desejo de compra e anotar o pedido. Uma vez de
posse das informações, o vendedor irá ligar para a
fábrica, passar um fax ou, se estiver um pouco mais informatizado,
transmitir os dados via modem.
Este processo apresenta alguns problemas,
a maioria deles ligados à perda de tempo. É comum o pedido
só chegar na fábrica quando não há mais tempo
para incluí-lo na programação de produção
ou de expedição. Isto sem falar na possibilidade do vendedor
tirar um pedido daquilo que teve sua produção descontinuada,
ou cuja quantidade seja insuficiente. E serão necessários
alguns interurbanos de um lado para o outro para confirmar, verificar o
andamento do pedido, conferir se o cliente é idôneo etc. Enquanto
isso, o cliente já terá descoberto que encomendou pouco,
o que pode coincidir com uma visita providencial (para ele) do vendedor
da empresa concorrente.
Tudo isso acaba quando a empresa
passa a utilizar a Internet para que os pedidos sejam colocados pelos revendedores
diretamente em seu sistema de produção. Tudo sem erros de
digitação, telefonemas ou fax. Os dados do pedido que chegam
à empresa via Internet são automaticamente convertidos para
um formato que possa ser lido pelo sistema utilizado dentro da própria
empresa, checando a idoneidade do cliente, existência de estoque
e capacidade de produção. Enquanto isso, o próprio
revendedor pode acompanhar o andamento do pedido pela Internet para saber
se o mesmo já foi faturado ou como e quando foi expedido.
Consumidor - Sobrou o consumidor
final, aquele que pode não querer ir até a loja, procurar
uma vaga para estacionar e correr o risco de tomar chuva, ser atropelado
ou assaltado e morto. (Antes que você me considere drástico
demais, analise se estas situações são estranhas a
algum ser humano). Para ele, existe a opção do comércio
eletrônico que já está mais popularizado, a loja na
Internet onde ele pode escolher o que deseja e comprar quando quiser.
Mas não existem riscos em
se comprar pela Internet? Bem, das situações que mencionei
acima, pelo menos quatro delas o comprador não vai encontrar na
Internet: falta de vaga para estacionar, chuva, atropelamentos e morte.
Em qualquer uma das fases da cadeia de negócios que a Internet possibilita,
o ganho para todos os envolvidos é evidente.
O cliente, seja ele revendedor ou
consumidor final, passa a ter um canal de comunicação mais
direto, rápido e eficiente com a empresa que, por sua vez, também
fica conectada aos seus fornecedores e clientes, ganhando assim em poder
de compra, economizando com estoques e adquirindo informações
valiosas sobre sua clientela. O recebimento de insumos para a fabricação
e o atendimento ao cliente têm seus prazos reduzidos, baixando custos
e aumentando a competitividade da empresa.
Evidentemente, tudo isso tem o preço
da inovação, a ser pago por aqueles que acreditarem e investirem
em algo que é irreversível: a revolução no
comércio mundial via Rede. Embora não exista nesse mundo
virtual de negócios via Internet o perigo de falta de vagas para
estacionar, chuva ou homicídios, ainda iremos ouvir falar de muitos
casos em que a Internet causou atropelamento e morte. Das empresas que
ficaram paradas no meio da pista da informação.
(*) Mário
Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica
faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Edita o boletim eletrônico
Crônicas
de Negócios e mantém endereço
próprio na Web, onde seus textos estão disponíveis. |