Entrevista com Kevin Kelly, autor
de
"Novas Regras para uma Nova Economia"
Mário Persona (*)
Colaborador
O
livro de Kevin Kelly, hoje traduzido para nove idiomas, é considerado
leitura essencial para se entender o que está acontecendo na sociedade
da Informação. Veja nesta entrevista como as previsões
que Kevin fez em seu livro estão se concretizando e traçando
o rumo da empresa em uma nova economia.
Mário Persona: Seu livro
"Novas Regras para uma Nova Economia: 10 Estratégias Radicais para
um Mundo Conectado" tem sido um guia para muitos que estão à
procura de um rumo para suas empresas na nova economia. Considerando que
foi escrito há alguns anos (um tempo longo para o relógio
de Internet), e que as coisas estão mudando bem rápido, existe
alguma correção que você faria hoje?
Kevin Kelly: Por incrível
que pareça, não há nada que eu mudaria, mas há
muita coisa que eu acrescentaria - em sua maioria, muitos outros exemplos.
Mas continuo acreditando naquelas regras. Acho que elas são hoje
muito mais notórias e importantes.
Mário Persona: Sua
idéia é de que a tecnologia não deveria ser usada
apenas para gerenciar informações, mas deveria ser um meio
para incrementar e cultivar relacionamentos. Com certeza ainda não
chegamos ao ponto termos chips conectados por satélite implantados
em cada pé de alface da horta, mas se existe algum passo inicial
para um empreendedor na nova economia, qual você sugere que seja?
Kevin Kelly: Transformar,
a maioria, ou mesmo todas, as suas transações em elétrons;
o mais que puder. Ou seja, computadorizar tudo, e entender que não
importa qual seja o negócio em que se está, ele tem a ver
com software e comunicação. Pode-se conseguir serviços
de intranet grátis na Web. Use-os.
Mário Persona: Seu
livro fala do surgimento de uma rede global com pontos de controle descentralizados.
A experiência do Napster tem demonstrado que esses "pontos de controle
descentralizados" podem muito bem ser os grandes "players" usando
o poder que conseguiram com as regras da velha economia. Como você
enxerga o cenário para os próximos anos? Será esta
batalha do velho contra o novo um evento transitório, ou será
que isso irá definir a forma e as novas regras que irão efetivamente
guiar a nova economia?
Kevin Kelly: Creio que as
ponto.com são apenas a primeira onda, não o show todo.
Atrás das ponto.com existe a verdadeira revolução,
que é a de redes peer-to-peer de todos os tipos, como Linux,
Napster e Ebay.
Mário Persona: Você
acredita que a rede aumenta as conexões, as quais incrementam as
oportunidades de crescimento. Em uma visão macro, a própria
rede poderia agir como um "cérebro". Mas quando transferimos a idéia
para o microcosmo de uma empresa em seu relacionamento com o mercado, descobrimos
muitas empresas que criaram uma rede de relacionamentos, mas não
conseguem identificar como utilizá-la para lucrar. Isso parece demonstrar
que as conexões e redes não podem, por si próprias,
fazer muita coisa se não tiverem um cérebro controlando-as.
O que você pensa a respeito?
Kevin Kelly: Concordo. A idéia
de que tudo o que você precisava fazer era simplesmente criar uma
porção de conexões, e conseguiria com isto um cérebro,
é chamada de "Conexionismo" em IA (Inteligência Artificial),
e não funciona. Você precisa criar a conexão de uma
forma inteligente, estruturada - que é como nossos cérebros
fazem na vida real. O mesmo vale para a Web.
Mário Persona: Você
acredita que a tecnologia agrega valor à abundância ao invés
de fazê-lo à escassez? Se assim for, será que isto
seria aplicável a qualquer tipo de produto ou apenas à informação
e coisas intangíveis?
Kevin Kelly: A questão
é que o ÚNICO valor das coisas tangíveis está
agora em sua parte intangível. O custo do ferro em um carro é
de cerca de 100 dólares. O que você paga é pelas coisas
intangíveis que dão forma àqueles átomos de
ferro. Assim, todas as coisas irão seguir as leis dos intangíveis.
Mário Persona: Você
parece acreditar que a aceleração do processo de inovação
torna necessário abandonar aquilo que atingiu o ápice do
sucesso, a fim de fugir da obsolescência. Como alguém saberia
o momento certo para fazer isso?
Kevin Kelly: Sempre que seus
sucessos indicarem que deixar de lado está fora de cogitação
ou será um desastre. A hora é essa. Você acaba escravizado
por seus clientes atuais e seus desejos PASSADOS.
Mário Persona: Se a
turbulência acaba sendo a norma, você acredita que não
exista muito futuro para as grandes empresas incapazes de acompanhar a
velocidade das mudanças?
Kevin Kelly: Não, o
que acredito é que existe abundância de novos espaços.
Mas teremos muitas grandes empresas, de uma diferente forma de ser grande.
Grande continua a ser uma necessidade para tornar eficiente tudo aquilo
que funciona. O "grande" não está fadado ao desaparecimento.
Mário Persona: Você
leu muitas das importantes obras de economistas, cientistas da computação
e historiadores sobre a "nova economia". Quais foram os autores que exerceram
maior influência em suas idéias?
Kevin Kelly: George Gilder,
Peter Drucker, Hal Varian, Esther Dyson, John Barlow, Brad DeLong, Stuart
Kauffman.
Mário Persona: Dar
muitas coisas grátis tem sido uma experiência má sucedida
para muitas empresas Web da primeira geração. Todavia, seu
livro parece ensinar isso e não traça limites no modo de
fazê-lo. Como um empreendedor iria identificar onde é a linha
divisória, onde deve parar de aplicar a idéia do "dar grátis",
antes que isto se transforme no suicídio de sua empresa?
Kevin Kelly: Não concordo
que dar coisas grátis tenha sido algo mau sucedido. A maioria dessas
empresas NÃO TINHA A INTENÇÃO de ganhar dinheiro em
seus primeiros anos; e não ganharam. Uma, que talvez seja a mais
bem sucedidas empresas de todas as épocas, dá mais coisas
grátis que qualquer outra - a Microsoft. Portanto ainda é
cedo para julgarmos a estratégia do dar grátis.
Mário Persona: Em uma
espécie de "segundo round" das empresas Web, vemos investidores
cansados de derramar dinheiro da "velha economia" em empreitadas de Internet
não-lucrativas da "nova economia". Ao que parece, as empresas menores
que não morrerem por si só, irão se consolidar em
empresas maiores até que apenas uma meia dúzia de grandes
empresas permaneçam. Será que isto poderá criar uma
nova forma de controle para a nova economia de rede, com regras geradas
por essas empresas enormes que estão sendo criadas?
Kevin Kelly: Como já
disse, não acredito que o "Grande" esteja fadado ao desaparecimento.
A consolidação é algo muito natural em redes, pois
o que se deseja são grandes redes, e quanto maior melhor. (Este
é o efeito "N ao quadrado", ou a lei de Metacalf). Acho que podemos
esperar por uma consolidação cada vez maior dos conceitos
existentes; na verdade este é um bom lugar para se apostar. Mas
à medida que essa consolidação vai acontecendo, novos
impérios do caos estão sendo criados (Napster, por exemplo)
onde levará anos até que uma consolidação faça
sentido.
Mário Persona: Em seu
livro você escreve que "Na nova ordem, a inovação é
mais importante que o preço". Poderia explicar isto melhor, agora
que o lucro, e não a inovação, parece ser a principal
preocupação dos investidores após o mau desempenho
da primeira geração de empresas Web?
Kevin Kelly: Você não
pode fundamentar suas vendas no preço, ou seja, só por ter
produtos baratos. No fim isso é suicídio. Você só
pode fundamentar suas vendas em inovações, em ter coisas
que as pessoas nem sequer pensavam que iriam precisar. Ater-se ao preço
apenas é uma rua sem saída.
Mário Persona: Você
acredita que as alianças entre empresas estejam aumentando a inovação?
Kevin Kelly: Sim, pois aprender
como fazer alianças é algo tão novo, que exige inovação.
Mais tarde pode ser que isto não aumente a inovação,
mas agora com certeza está.
Mário Persona: Você
cita autores de best-sellers, como também conhecidos economistas
e futurólogos, mas não cita tantos exemplos de empresas e
casos de negócios como vemos em outros livros. Creio que isto acontece
por seu livro estar algumas milhas à frente da implementação
dessas idéias. Agora que podemos ver ao menos um embrião
daquilo que virá a ser uma economia totalmente interconectada, se
tivesse que escrever um adendo ao seu livro, quais seriam as empresas que
você acredita que estão tendo sucesso usando suas idéias?
Kevin Kelly: Com certeza hoje
eu promoveria alguns "case studies", mas a verdade é que
eu poderia ter incluído mais deles quando escrevi o livro, porém
deliberadamente escolhi não fazê-lo por duas razões:
1) Acho que isso desatualiza o livro rapidamente, e 2) me força
a tratar do padrão que está por detrás disso, o que
creio ser melhor que outros o façam.
Mário Persona: Tem
planos para um novo livro?
Kevin Kelly: Sim, mas ainda
não sei qual o assunto. Tudo que tenho são indagações.
Kevin Kelly foi editor executivo da
Wired Magazine e é o "Editor-At-Large" para aquela revista.
É o autor do livro "Novas Regras para uma Nova Economia" e um dos
mais influentes propagadores da idéia de uma sociedade conectada
em rede. Clique aqui
para obter grátis "Out of Control", o primeiro livro de Kevin Kelly,
publicado em 1994.
(*) Mário
Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica
faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Edita o boletim eletrônico
Crônicas
de Negócios e mantém endereço
próprio na Web, onde seus textos estão disponíveis. |