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HISTÓRIAS E LENDAS DE S. VICENTE
História de duas cidades... e um país

Texto publicado no Almanaque de Santos para 1959 (1ª edição, 1959, Santos/SP - exemplar conservado na biblioteca da Sociedade Humanitária dos Empregados no Comércio - SHEC), com ortografia atualizada nesta transcrição (páginas 31 a 34):

Imagem: reprodução parcial da matéria original

Fundação de Santos e São Vicente

Duas cidades e uma só história incompreendida

Francisco Martins dos Santos

Fundador do Instituto Histórico e Geográfico de Santos

Era na tarde festiva de 22 de janeiro de 1502. Entre as galas da natureza esplêndida da Pindorama e as manifestações de espanto da indiada tupi a surgir de todos os desvãos da enxara virgem ou a gesticular sobre as gândaras marginais, fundeava em Guarapissumã, logo além da abra remansosa das ilhas de Guaíbe e Goaió, a caravela impante das cinco quinas, que o espírito luso-itálico, representado no duplo comando de André Gonçalves e Américo Vespucci, conduzia através dos mares. Trazia na proa um título que era, ao mesmo tempo, invocação e profecia: Nossa Senhora da Esperaça.

Foi assim e foi então, sob a égide da esperança, que a vontade e a ação dos pilotos de duas pátrias - Portugal e Florença - deram à região, cujo futuro feliz bem-agouravam, a invocação do santo espanhol, o nome São Vicente, que precederia na História e na Geografia do Novo-Mundo, ao próprio nome Brasil, revelado à luz apenas nove anos depois.

À sombra daquela generosa bandeira de heroísmo e de fraternidade, a drapejar nos mastaréus, estabelecia-se, na simbiose das origens (a de André, a de Américo e a do Santo) que presidia ao apossamento e batismo da terra, o simbolismo profético da internacionalidade ou universalidade que haveria de presidir sempre à formação e ao crescimento da futura e mais rica província do Brasil, o atual Estado de São Paulo, e dava-se, a partir daquele instante, um título cristão, que era como um estandarte, a todos os homens que ali nascessem, naquelas regiões encadeadas, outrora denominadas por legendas autóctones: vicentinos! Título que seria a primeira e natural herança de todos eles, e que, nos índices da própria Ciência antropológica, marcaria e designaria mais tarde o tipo padrão da nossa gente, o mais perfeito e o mais legítimo tipo racial brasileiro - o Bandeirante - sob a legenda, para nós ufanante, de Homo vicentinus!

Tal como na lenda grega de Deucalião, brotariam daquele casco embicado sobre as areias terminais de Embaré, como de uma pedra grande, o povoamento e a civilização, configurados nos Peros que a Nossa Senhora da Esperança deixaria.

Estava escrita a primeira página, quase desconhecida, de uma grande História, talvez por isso incompreendida em seus legítimos primórdios.

Quinze anos depois, verificavam os pilotos, de passagem na costa, que já existia naquele ponto, na futura Ponta da Praia da futura Santos, o núcleo avançado de uma feitoria plantada ao outro lado da ilha, como um baluarte de duas faces - a feitoria de São Vicente, junto ao estreito de Bicaquera, à sombra do morrinho de Tumiaru, cuja vanguarda era aquela de Guarapissumã, domínio absoluto de um potentado português, o bacharel mestre Cosme Fernandes. Em Guarapissumã era o porto, o embarcadouro e desembarcadouro; em Tumiaru e Bicaquera era a sede estável de toda gente, e nela apareciam uma primeira casa de pedra e fortaleza, as primeiras casas européias "de telhados", as primeiras lavouras, e, sobretudo, a primeira indústria (documental) do Brasil, que eram os estaleiros navais do Japuí, precedendo à do açúcar e da aguardente.

Com o português mestre Cosme, vivia a multidão dos tupis insulanos, e viviam portugueses e espanhóis, amigos ou agregados, e assim se fizera a São Vicente da primeira fase, que mais tarde, a dois espanhóis - Alonso de Santa Cruz, oficial do italiano Caboto, e Diogo Garcia de Moguér, aventureiro - caberia descrever e retratar, em seus aspectos e atividades principais (de 1526 a 1530), nos dois lados e nos dois núcleos da ilha histórica.

Era a segunda página, quase negada, daquela mesma História iniciada em 1502, e que se processara sobre dois pontos distantes que uma só conveniência econômica e social articulava.

Pouco além, ainda num 22 de janeiro, mas de 1532, na manhã bonançosa que sucedia a uma noite de borrasca, começava a terceira parte de tal História. Chegava ao mesmo lugar de 1502, de André e de Vespucci, o senhor de Alcoentre e Tagarro, o nobre Martim Afonso de Sousa, com a sua Nossa Senhora das Candeias, a confirmar o batismo e as esperanças do passado, firmado em títulos e promessas reais que lhe davam o governo e a propriedade de tais terras, implantando a Justiça, a Lei, criando a Administração e a Ordem, estruturando a vida econômica e social, e como que a iluminar, com o título da sua nau, a feitoria bifronte dos Vicentinos.

Trazia então o governador e enviado de d. João III, colonos e fidalgos portugueses, mas trazia também numerosos colonos alemães e italianos, que caracterizariam e consagrariam, por suas origens, a internacionalidade e universalidade do esforço, da ação, da mentalidade e dos fundamentos étnicos, que haveriam de forjar o futuro colosso sobre aqueles pés.

Desaparecia o Bacharel, para além das cortinas misteriosas da sua antiga Cananéia; oficializava-se o povoado de Oeste; criava-se a Vila oficial e capital, com igreja e pelourinho, em nome do rei; erigiam-se os Engenhos, marcos efetivos da grande indústria colonial; estendiam-se a lavoura e a pecuária; positivava-se uma Economia; surgiam um grande porto e uma grande cidade, Santos, à ilharga da Vila capital, em sua primeira denominação, poética, pitoresca, brasileiríssima: Enguaguassu!

Ratificava-se o simbolismo inicial de 1502 e consagrava-se na História a predestinação vicentina ou paulista, numa página forte de comunhão e  colaboração de homens de todas as Pátrias, de cooperação internacional, verdadeira consubstanciação de energias, de sentimentos e de espíritos universais.

Ali estavam, ao fim de 1533, quando Martim Afonso acabava de tornar à sua Lisboa, debuxadas na pauta da grande sinfonia da América, como notas fortes do mesmo compasso musical, a São Vicente feitoral do Bacharel, de Gonçalo da Costa, de Francisco de Chaves, de Pero Capico, de Alonso de Santa Cruz, de Diogo Garcia de Moguér, de Antonio Rodrigues, e oficial de Martim Afonso, de Fernão de Moraes, de Belchior de Azevedo, de Antonio de Oliveira, de Pero Correia, e a Santos (inicialmente Enguaguassú) da gente do Bacharel, e depois, de Martim Afonso, de Afonso Ribeiro, de Braz Cubas, de Pascoal Fernandes, de Domingos Pires, de Pero e Luiz de Góis, de José e Francisco Adorno, de Rodrigo de Lucena, de Rui e Francisco Pinto, de Eleodoro Eoban, de Francisco Velho, de Jorge Ferreira e de mestre Bartolomeu Gonçalves.

Muito mais do que em 1500, pelas mãos de um Cabral itinerante, nascia em 1532, pelas mãos de Martim Afonso de Sousa, o Brasil plantado por André Gonçalves e Américo Vespucci, continuado pelo bacharel mestre Cosme, concretizado nas duas fundações definitivas do Senhor de Alcoentre e Tagarro e seus secundadores, as cidades irmãs da Ilha de Goiaó e São Vicente, as estacas generosas do triunfo.

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1502/1532, um conjunto de tempo, torna-se assim um monumento cronológico, a escada de trinta degraus que simbolizaria toda a História ascendente de uma terra e de um povo - de São Vicente, de Santos, de São Paulo e do Brasil - no que eles têm de mais progressivo, de mais legítimo e de mais sólido em nossos dias, na continuação normal daqueles primeiros dias; desdobramento, conseqüência, evolução, transformação, em surtos de pujança, de riqueza e dinamismo compondo o panorama da grandeza efetiva que aí está, aos olhos da gente e do mundo de 1958, nesta parte abençoada da América, que os cataclismos políticos e sociais, ou os maus governos, não conseguiram nem conseguirão toldar ou destruir.

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