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Última modificação em (mês/dia/ano/horário): 06/01/05 23:19:37

Movimento Nacional em Defesa
da Língua Portuguesa

NOSSO IDIOMA
Os riscos da linguagem na/da Internet

Texto publicado no jornal santista A Tribuna em 30 de maio de 2005:

Sylvia Bittencourt: "Essa linguagem
não oferece nenhum perigo"

Elenice: problema é adotar internetês
como única alternativa

Fotos: Irandy Ribas, publicadas com a matéria

LÍNGUA PORTUGUESA
Internetês, uma ameaça ao idioma?

Especialistas expõem suas posições sobre linguagem usada na Internet

Valéria Malzone
Da Reportagem

Ela já é uma realidade que ultrapassou as fronteiras da Internet. Agora, a preocupação é de como está sendo usada e até que ponto pode influenciar no aprendizado e na comunicação entre as pessoas. Trata-se da linguagem conhecida como internetês, que surgiu entre os usuários de chats de conversação, blogs (diários virtuais) e ICQ (programa de comunicação).

"Só o tempo irá dizer quais os riscos que o internetês pode provocar na Língua Portuguesa padrão. Mas uma coisa é certa: do ponto de vista lingüístico, essa linguagem não oferece nenhum perigo", assegura a professora Sylvia Bittencourt, de Língua Portuguesa e de Literatura.

Especialista na matéria, a professora questiona, na realidade, o uso do internetês como única opção de linguagem. "Isso sim é preocupante. O perigo está no seu uso limitado e no próprio usuário - adolescente ou não - que só se dedique a escrever e se comunicar desse modo, em tudo na sua vida".

Estenografia - Sylvia compara o internetês de hoje à estenografia, ainda utilizada em situações especiais. "Ela também é uma escrita simplificada do original, que tem o mesmo objetivo de aproveitar melhor o tempo e o espaço, assim como o internetês".

E, nem por isso, continua a professora, as pessoas passaram a falar por aí de forma estenografada. "Portanto, as questões são o usuário e sua intenção de uso dessa linguagem". Como outro exemplo, Sylvia comenta sobre pessoas que se limitam por conta de modismos e por pura preguiça.

"Sabe aquele adolescente que só se veste de preto, que só faz o que os amiguinhos fazem e que só gosta de comer hambúrguer com batata frita? Essa limitação de atitudes é tão desastrosa quanto se comunicar somente via internetês".

Ponderação

"Como tudo na vida, é preciso ter bom senso 
e sabar a hora de usar as coisas"

Sylvia Bittencourt
Professora de Língua Portuguesa e Literatura

Bom senso - A saída, ainda de acordo com a professora, é saber impor limites. "Como tudo na vida, é preciso ter bom senso e saber a hora de usar as coisas". Ela mesma garante que, em conversas informais pela Internet, usa recursos do internetês. "O beleza vira blz; o beijo se transforma em bj e assim por diante", garante Sylvia.

Também para a professora Elenice Rodrigues Lorenz, de Língua Portuguesa, Literatura e Produção Textual, o problema está na carência do domínio da língua materna.

"As pessoas não lêem, não procuram ampliar seu vocabulário, erram na regência e na concordância das frases e das palavras; têm dificuldade de conectar idéias e de interpretar textos". Para Elenice, portanto, a preocupação é "adotar" o internetês como único recurso escrito alternativo, exatamente por ser simplificado e pobre de regras gramaticais e lingüísticas.

Criativa - "Já quanto ao aspecto oral da linguagem, o internetês é uma realidade criativa e inofensiva", opina a especialista. Mesmo assim, Elenice e outras professoras do colégio onde lecionam estão com algumas dificuldades para contornar a novidade.

"Não há condições de tolerar o desrespeito ao idioma, principalmente dentro da sala de aula. Uma coisa é usar gírias e internetês na informalidade e com amigos. Outra é levar esses vícios para toda a comunicação", argumenta Elenice.

Mas a professora tem a crença de que em no máximo 10 ou 15 anos haverá muitos textos adaptados ao internetês, de forma controlada para um público específico.

"Esse é um caminho meio sem volta. Será inevitável a alteração permanente. Acredito que haverá crônicas, contos e outras publicações com essa linguagem, por exemplo, assim como hoje existem produtos adaptados para crianças recém alfabetizadas".

Elisabete: "Investimento financeiro"

Caroline: "Um modismo perigoso"

Fotos: Irandy Ribas, publicadas com a matéria

Interesse econômico pode facilitar expansão

A expansão, limitada ou não, do internetês vai depender do interesse econômico sobre esse novo produto. Pelo menos é a opinião da professora Elisabete Montero, de Prática de Ensino e de Língua Portuguesa.

"Acredito que a invasão dessa linguagem em outros campos, além da Internet (o que já ocorre), está diretamente relacionada com o investimento financeiro que o fenômeno pode garantir. Ou seja, o quanto vai lucrar".

A especialista cita como exemplo o que já vem ocorrendo há algum tempo com o canal de TV Telecine. "Em um determinado dia da semana (terça-feira), o canal exibe um filme destinado ao público adolescente (cyber movie) com legendas em internetês. É claro que o objetivo é garantir maior audiência e, conseqüentemente, maior mercado consumidor".

Elisabete afirma ainda que essa expansão já está muito bem amparada pelo marketing e por campanhas publicitárias. "É como funciona atualmente a Parada Gay de São Paulo: tornou-se um excelente produto, para um público específico com bom poder de compra".

 

Velocidade é tida como o grande trunfo do internetês

 

Adaptação - A professora argumenta também que, no campo da Educação, haverá uma necessidade de adaptação dos professores.

"As escolas precisam aprender a conviver com essa realidade. É óbvio que, nas provas e nas aulas, sempre haverá a exigência do aprendizado da língua padrão, principalmente na forma escrita. Mas já há muito tempo, a forma oral é expressa com algumas diferenças".

Para Elizabete, o grande trunfo do internetês é a velocidade. "Um bom caminho é estudar essa linguagem, porque sempre é importante entender e ser entendido. Esse é o desafio, conseguir se comunicar na mesma língua do seu interlocutor".

Quanto ao meio de o internetês prejudicar a Língua Portuguesa, a professora é enfática: "Essa linguagem não vai matar a língua padrão. Uma coisa é você aceitar uma nova tendência, a outra é você dar crédito para ela e incorporá-la".

Modismo - Para a estudante Caroline Brandoleza Assunção, de 21 anos, aluna do 7º semestre de Letras da UniSantos, que está preparando Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre a Linguagem do Blog (diário virtual), o internetês é mais um modismo do que outra coisa.

"Mas um modismo perigoso que pode, sim, atrapalhar o aprendizado da língua padrão, já que muitos estudantes usam palavras cifradas do internetês até em textos e redações nas escolas", confirma Caroline. Segundo ela, a maioria dos usuários da linguagem eletrônica é constituída por meninas.

"Penso que tudo isso começou com algumas animações de programas (como o próprio MSN), mensagens animadas e também por influência dos teclados, no caso das acentuações principalmente".

Ela concorda que o internetês poderá ser mais padronizado algum dia, mas hoje ainda sofre muitas alterações gráficas. "Em algumas palavras há somente a supressão de vogais. Em outras, há uma transformação onomatopéica (imitando o som ou a pronúncia do objeto)".

A estudante comenta também sobre aquelas que procuram retratar até a intensidade dos sentimentos, como a palavra amigo, que pode ser grafada no internetês como migoxxxxx, sendo que cada "x" a mais representa o tamanho da amizade (se é muita ou pouca).


Para Flávio Hessmauer, de 21, linguagem está evoluindo
Foto: Irandy Ribas, publicada com a matéria

Utilização não se restringe a adolescentes

Não são somente os adolescentes e estudantes que recorrem à linguagem do internetês. Rafael Mariano Alves Costa, de 28 anos, que já é formado em Turismo, afirma que freqüentemente está em contato, via computador, com o internetês.

"Ela já se tornou uma linguagem universal e eu mesmo, quando estou com pressa, a utilizo", garante Costa, que passa de quatro a cinco horas por dia na Internet. "Navego há mais de 10 anos, mas essa linguagem começou a aparecer mais de dois anos para cá, principalmente em programas de conversação como o MSN e o Mirc".

Assim como ele, seu colega de Internet, Flávio Hessmauer Filho, de 21 anos, acredita que a linguagem do internetês tem evoluído e se modificado periodicamente. "A palavra risada, por exemplo, era grafada como rsrsrs. Agora, passou para hauihauih, comenta Hessmauer Filho.

Precaução

"Se você entra em uma sala de bate-papo colocando acentos corretos, você acaba denunciando que não está acostumado com a Internet"

Rafael Mariano Alves Costa
Bacharel em Turismo

Torpedos - Ambos acreditam que a linguagem começou para economizar tempo e espaço. "Já vi internetês em torpedos de celulares e em pequenos recados (via papel mesmo). Mas foi só", assegura Costa.

Nenhum dos dois acredita que o internetês possa prejudicar o uso da Língua Portuguesa de modo geral e, principalmente, fora da Internet.

"Isso porque não é todo mundo que tem acesso à Internet. Quem nunca conversou por meio do computador, nem sabe o que é isso", garante Hessmauer Filho, que participa de chats de conversação por cerca de uma hora, uma hora e meia por dia.

Informalidade - A conveniência do uso do internetês, para ambos, é a informalidade da conversa. "O contrato fica mais natural". Se você entra em uma sala de bate-papo colocando todos os acentos corretos nas palavras, você acaba se denunciando que não é do meio e que não está acostumado com a Internet", acredita Costa.

Hessmauer Filho disse que entrou em contato pela primeira vez com o internetês por intermédio de um jogo, onde os participantes tinham que utilizar palavras.

"Acho que as pessoas usam mais o internetês para se comunicar com amigos. Já nos chats de paquera, por exemplo, não dá para ficar só escrevendo daquele jeito. Eles são mais fechados e é sempre melhor escrever corretamente para impressionar", brinca o internauta.


Rafael Mariano, de 28 anos, diz que, com pressa, usa o internetês
Foto: Irandy Ribas, publicada com a matéria